The Fountainhead (1949)

“The fountainhead” (1949)

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Arquitectura (e Cinema) à superfície

Este filme foi um terrível desapontamento, uma má experiência em absoluto. Sendo um estudante de arquitectura, quase graduado, naturalmente relacionei-me com o tema de uma forma mais próxima do que o normal espectador.

Aparentemente este Howard Roark foi vagamente inspirado no mestre americano Frank Lloyd Wright. Em primeiro lugar, Wright não foi tão radical em relação à arquitectura do seu tempo como os europeus daqueles dias (como Le Corbusier, Van Der Rohe, Loos ou mesmo Taut). Ele foi um génio de direito próprio mas o seu trabalho, apesar de fantástico, é hoje datado e bastante mais agarrado à tradição do que o dos nomes que referi, e os seus projectos mais arrojados (formalmente falando) surgiram já na segunda parte da sua carreira, num ambiente cultural diferente. Assim, provavelmente, o personagem de Cooper poderá ser antes (mais) um reflexo do crescimento do (super) ego americano, como consequência da recente “vitória” na segunda guerra mundial (esta arrogância atingiria o seu máximo no princípio dos anos noventa, mas isto é uma nota à parte).

Cinema e Arquitectura:
De qualquer forma, o que realmente incomoda é que este filme pode ser acusado exactamente com as mesmas falhas apontadas aos detractores de Roark. Não li o livro, aparentemente representou um marco na juventude americana desse momento, relacionado com individualidade e espírito criativo. Não posso falar sobre o entendimento da autora sobre o que é arquitectura (não apenas a dos últimos 100 anos). Mas posso justificar que as pessoas envolvidas neste filme nada sabem sobre o tema: o que os arquitectos modernos fizeram foi separar a arquitectura da decoração e noções de escultura em que os românticos estavam imersos. Estes arquitectos entenderam que arquitectura é, antes demais, sobre espaço, sobre movimento, sobre a quarta dimensão, e rejeitaram a ideia de submeter os seus edifícios exclusivamente ao seu interesse como objectos. A primeira cena na qual Roark mostra o seu arranha-céus e vê-o ser arruinado pelos elementos neoclássicos de fachada juntamente com uma outra em que Roark desenha, ele mesmo, uma fachada neoclássica provocando assim Wynand são a prova de que o modernismo na arquitectura não era de todo entendido por quem concebeu este projecto, e que eles o viam meramente como “estilo” a ser usado no mesmo nível como o “neogótico” “neoclássico” “neo qualquer coisa”… Isto representa conceber arquitectura por superfícies, eventualmente volumes, não espaço, não como esse espaço é vivido. Linhas “direitas” e volumes puros não são nada se não estiverem contidos em noções mais profundas. E é imperdoável que isto não tenha sido considerado, especialmente 9 anos depois de Welles fazer Citizen Kane (O mundo a seus pés) e introduzir (algumas) noções de como compreender um espaço através de uma câmara. Welles devia ter feito este. Ele teria transformado a arquitectura num tema (Hitchcock, apenas um ano antes, assinou a sua brilhante exploração espacial que foi Rope (A corda) ).

Lloyd Wright compreendia completamente o que o espaço era, não estes, não Roark. Ele é um personagem romântico, cheio de sentimentos melodramáticos, esperando o seu amor “perdido”, a mulher perdida, ele tem precisamente a personalidade daqueles que no século XIX escolheram reviver todos os estilos passados contra os quais Roark supostamente se revolta.

Também a ideia de “génio”, de criador é, eu diria, perigosa aqui. A arquitectura destaca-se das outras artes precisamente no ponto em que tem uma responsabilidade social, impacto social e assim, o maior drama e glória de um arquitecto é, simultaneamente, ser capaz de fazer coexistir as suas convicções pessoais com as necessidades de uma audiência (cliente) e assim criar verdadeira arte (arquitectónica, não escultura, não decoração) que com sucesso junte concepções individuais com necessidades colectivas.

A minha avaliação: 2/5, uma das minhas maiores decepções, eu estava realmente a querer ver este… a não ser que seja especialmente interessado em arquitectura (e aí poderá retirar algum interesse histórico em relação a quando algumas expressões chave da arquitectura moderna surgiram) fique longe. Poderá sair danificado se não conhece suficientemente o tema.

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3 Responses to “The Fountainhead (1949)”


  1. 1 H. Setembro 10, 2007 às 11:23 pm

    Li o teu texto com atenção, despertou-me logo o interesse no início em que afirmas a desilusão. Vi este filme há cerca de um ano na Cinemateca e fiquei deslumbrada. Claro que o meu conhecimento de arquitectura é extremamente lacunar e portanto todos esses erros que apontam me passaram ao lado. No entanto, e apesar de estarmos perante um filme à primeira vista sobre arquitectura, não creio que o devamos julgar só por isso. Apesar de, segundo consta, King Vidor não ter ficado muito satisfeito com o filme, não nos podemos esquecer que ele é um dos gigantes do cinema, um homem que já era grande nos tempos do mudo, herança que, se bem me lembro, é bastante notória em certos planos de rostos ou pelo uso particular das sombras. A realização parece-me longe de se ter algo a apontar, havendo mesmo coisas memoráveis como o contra-picado final. Depois, “Fountainhead” – o filme – pode até ser visto com uma metáfora. Claro, é o individualismo na arquitectura, mas é também e antes de mais a luta pela preservação de uma visão autoral contra um sistema. Podemos estar perante uma adaptação de um livro célebre mas podemos ver um pouco além disso e ver um realizador a falar sobre o que era (é?) fazer cinema em Hollywood…

  2. 2 ruiresende Setembro 11, 2007 às 4:09 pm

    Eu percebo o que queres dizer, e porque discordas provavelmente da minha desilusão ao ver o filme. É verdade que o trabalho artístico, sobretudo a fotografia (que naquela altura tem sobrtudo que ver com iluminação e contraste e ângulos) é bastante bom. O problema está provavelmente no tema, ou seja: a profissão do arquitecto é provavelmente o pior exemplo para demonstrar esse tal individualismo, autor contra sistema, etc. mas isso tem a ver com o livro. Mas tudo bem, como metáfora aceito. Agora, o filme, mais do que uma metáfora, introduz directamente, bem explícito, o tema da arquitectura. E depois não o resolve e, pior ainda, interpreta-o mal o que o torna, para mim, num filme que ostenta determinadas ideias e é, ele mesmo, precisamente o oposto dessas ideias. E isso realmente não funciona para mim. Como referi, penso que podia ter sido realmente um bom filme nas mãos de alguém que compreendesse como podia chegar ao espaço, e naquele contexto creio que provavelmente só o Orson Welles o poderia fazer, não o King Vidor, não porque fosse mau (ele sempre foi competente no mínimo) mas porque não tinha o entendimento (e o génio) do Welles. Vê entre outros (ou revê) o Touch of Evil e o Othello do Welles. Compara em termos de como o espaço (arquitectura) é usado e percebes exactamente o que eu queria dizer com a crítica. Mas evidentemente é uma opinião minha, tem a ver com o que eu valorizo mais nos filmes que vejo.

    Obrigado por comentares, é bom sentir que se é lido, volta sempre.

  3. 3 zé fialho Setembro 14, 2007 às 2:14 pm

    Prezados,

    Vocês não entenderam absolutamente nada do filme. Ele é, simplesmente, um fimle anticomunista, produto da guerra fria, a autora do livro Ayn Rand, tendo até deposto no comitê de atividade anti-americanas, para explicar aos seus integrantes o que se passava realmente na União Soviética.

    O resto são abobrinhas.

    Zé Fialho.


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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve