Caótica Ana (2007)

“Caótica Ana” (2007)

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Qualquer filme de Medem é um acontecimento. Poder observar este mestre evoluir, filme a filme, é um privilégio. Medem está no topo da inovação cinematográfica e exploração do meio neste momento, e este filme será eventualmente o sua maior conquista até este ponto.

Assim, este está construído com oposições, de escala, de temperamentos de personagens, de paisagens. Ana é, ela mesma, “caótica”, ela contém dentro de si a calma das vidas anónimas e o fardo da herança das mulheres: A primeira cena, com os pássaros, aparentemente tão descontextualizada do resto; Ana e o senador corrupto; Ana e Linda, sua amiga.

(CONSTRUÇÃO NARRATIVA) Os filmes de Medem têm sido sempre uma reinvenção da história de amor, ao mesmo tempo preocupada com a emoção, a mente humana e a renovação da narrativa visual cinemática. A alma humana é um enorme iceberg do qual só vemos uma pequena ponta, e o cinema de Medem sempre se preocupou com a vasta massa que não vemos. Tudo isto ainda importa neste filme. Mas, adicionado a isso, temos toda uma nova dimensão. Este é um marco na carreira de Medem, e eu diria arriscando no cinema, já que ele enfrenta novas “escalas” e um novo âmbito para o seu cinema. Ele globaliza, e coloca contexto no seu mundo em tempos apenas de sonho, bonito e emocional, esse mundo de “Lucia y el sexo” e “Los amantes…”. Não se pode deixar de pensar acerca do que este filme tem em comum com Babel, esta é a versão de Medem de um mundo contemporâneo global.

E ele é tão profundo aqui. Livremente trabalha tempo e espaço em várias dimensões. Verificando: A
. Ele trabalha o espaço global ao ser capaz de trazer coerência a múltiplas histórias, excertos de vidas, que passam todas pela mente de Ana (e de Said, mas a Mulher é o tema aqui). Por global entendo o mundo, chamemos-lhe realidades, diferentes países e culturas independentemente de “quando” os colocamos;

. Ele trabalha o tempo linear, aquele que leva Ana do princípio ao fim da sua viagem física (também feita através da exploração do espaço global). Aqui temos Medem como já tínhamos visto antes em “Lucía…”, edições semelhantes a sonhos, sempre colocando a audiência a procurando o que aconteceu;

. O toque de génio: Medem adiciona o tempo histórica, trabalhando de uma vez só em várias épocas, vários “tempos”, vários contextos. A mitologia centrada na mulher de Medem encontra em Ana a porta, ou ponto de passagem de cada memória. E esta é a palavra, Medem traz a memória à luz.

(QUESTÕES CINEMÁTICAS) Tudo isto seria “apenas” intelectualmente ambicioso, mas tudo está construído de uma forma tão cinemática que eu creio que este filme prevalecerá como um marco de uma nova abordagem. É refrescante e não visto antes:

. Os dispositivos cinemáticos: a edição, nos momentos quase psicadélicos em que todas as mulheres de todos os tempos sofrem ao mesmo tempo, verifique-se a fotografia cuidada, sempre adequada à situação mas sempre coerente com o trabalho em termos globais (dualidade uma vez mais).

. a presença do cinema como um “estado de espírito” que enforma através do personagem (e sobretudo da Câmara) de Linda: ela sempre filma, Ana sempre observa esses filmes (assim como uma audiência) e muitas vezes esses filmes (tal como algumas cenas) surgem trabalhados como instalações/performances dos estudantes da escola de arte. E há um momento particular em que isto surge claro como água, é quando nós observamos as cabeças de uma audiência numa sala vendo um desses filmes (esta cena só funcionará numa sala de cinema, preferencialmente com outras pessoas sentadas em frente a nós). Isto transporta-nos para outra dimensão que poderá já não ser cinema, mas arte performativa, em que nós participamos. Genial.

. o uso inesperado da animação, que inteligentemente começa “plana” e se torna “profunda”, multidimensional, tal como toda a construção a partir do momento que Medem faz o seu uso do tempo histórico.

(TEMAS) Em última análise, o filme é sobre prestar atenção a assuntos fundamentais (apesar de muitas vezes esquecidos): vimos de um sítio (ou vários), e isso define em enorme parte o que somos hoje, esquecer isso é rejeitar a Cultura, com C maiúsculo. Medem preocupa-se.

“Esta coluna é dórica, eu sou grega”, diz Ana depois de ser agredida por um político corrupto com uma pequena coluna dórica.

A minha avaliação: 5/5, este é um manifesto cinemático, na minha lista dos mais importantes.

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(visto no cinema Renoir, Barcelona, 24 Agosto 2007)

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve