Alice (2005)

“Alice” (2005)

Realizador: Marco Martins

Argumento: Marco Martins

Género: Drama

IMDb

Casaco azul

Há muito para dizer sobre este. É fantástico poder apreciar um filme como este, viver o momento em que finalmente, isto acontece. Não sei muito sobre M.Martins, não tinha ouvido falar dele antes (praticamente ninguém tinha). Também não sei o que fará a seguir. Mas coloco este junto com um pequeníssimo número de primeiras tentativas “difícil-ser-melhor” (junto com títulos como “a bout de souffle” ou “citizen kane”).

A cidade aqui é o tema. Esqueça a história. Ponto. Está lá. Ponto. Serve o objectivo de agarrar uma cidade nunca vista no grande écran antes deste film. Ponto final. É tudo que há para dizer sobre a história.

Assim, este tem sucesso onde “Ossos” e “O fantasma” tinham falhado completamente; em mostrar Lisboa livre de clichés, de imagens pre-concebidas e (re)aquecidas. O tempo evolui, o cinema tem de o acompanhar. O que se passou aqui foi ajustar contas com o tempo.

Este projecto leva a cidade a zero. Os écrans (quantos vemos durante o filme?) que pertencem à personagem de Lopes são a tela branca onde as acções se desenham, em azul. A câmara (que é, a meu ver, um jovem realizador em experimentação) tenta captá-las, tenta torná-las eternas, todas as cenas, em todo o lado. Lopes (o actor, na vida real e neste filme), tenta chegar a elas, ele participa, ele pode até surgir em frente à câmara, mas nunca pode controlá-las. Assim, temos o actor como um peão, constantemente exposto, nunca controlando. Isto é cinema, e Mário (Nuno Lopes) compreende isso no momento em que vê 10 vezes a sua cara nos écrans de uma loja. Ela também representa uma peça, uma comédia, dentro da peça que é o filme. Dupla manipulação. Excelente material! Ele é um actor, manipulado para aparecer da forma que este realizador visionário quer, e ele representa um actor, que é forçado a representar algo em que não está minimamente interessado, para poder continuar com as suas outras funções, que ele não controla, mas pensa que sim.

A câmara pode ser “deus”, um personagem, ou pode-se agarrar a um personagem e segui-lo. A câmara pode ser o espectador, a nossa curiosidade em movimento. Aqui, a câmara é um modo, um ambiente, uma paisagem espiritual, tal como a música. É um ponto no infinito. Por isso não interessa se foca ou desfoca, ou o que foca, primeiro ou segundo plano, carros que passam em frente, pessoas estranhas às cenas (quase todos são estranhos aqui). Enquadramentos livres, caos aparente, aparentemente uma câmara “de ninguém”. Esta é a verdadeira qualidade de Alice. Tudo tão contemporâneo, tudo tão aparentemente caótico, mas, tudo controlado, não sabemos como, nem por quem. Isto é Lisboa.

Apesar de tudo, não compartilho do optimismo (nem do cepticismo) do comum apreciador de cinema português. Não vejo este filme como “um novo caminho que melhorará o cinema português de vez”. Um filme, especialmente nesta base “de autor”, não pode mudar toda uma indústria (inexistente) de cinema. Mas penso, isso sim, que de um ponto de vista cinemático, é um filme muito interessante, que tem lugar no topo da minha prateleira.

Os diálogos são subtis, correctos, rigorosos. A música poderá ser a única aparição no filme da desaparecida Alice. Fotos, folhetes e mesmo a prórpia Alice no final não contam. Esta é das melhores bandas sonoras minimalistas de sempre. Glass teria feito Koyaanisqatsi de forma diferente se pudesse ter visto (ouvido) este primeiro. Mas também, este é tão melhor que o conto moribundo sobre a industrialização de Reggio…

A cidade é azul, também o casaco de Alice, ele sempre procura o azul… e não consegue encontrá-lo. Pensem nisso. Deveria-se assistir a este junto com “Lisboetas”. Este primeiro.

A minha avaliação: 5/5 fantástico ensaio cinemático.

P.S. – Sinto apenas pena que, ao ver o making of e os extras do DVD, tenha a sensação de que tudo isto foi sorte, e que ninguém envolvido pensou por uma vez no que acabei de dizer. Gostava que o material extra fosse mais útil que simplesmente curioso (podia ser ambos).

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2 Responses to “Alice (2005)”


  1. 1 j.a.r. Julho 14, 2007 às 5:55 pm

    “um blogue de um intelectual que preferia discutir e mostrar as suas ideias num café perdido no Porto cheio de fumo de cigarros e vozes de outros intelectuais idiotas, mas como o mundo está-se a perder e só tem três amigos, vem para aqui, como os outros”

    http://quintodireito.blogspot.com/

    passa por lá, ve-o crescer e faz-me publicidade

    (um dia hei-de ler o teu 7olhos pa, deve ser porreiro este blogue, irei experimentar…)

  2. 2 ruiresende Julho 14, 2007 às 8:09 pm

    Cá farei publicidade, lá passarei para vê-lo crescer, e cá esperarei até que leias o 7olhares. Eu também preferia discutir cinema no café, mas não conheço quem veja os mesmos filmes que eu, nem há cafés onde se discuta já, e onde o Oliveira pensava os filmes chama-se Magestic e custou.me 5 euros o café com natas e a torrada há 5 anos, no dia em que me rebocaram o carro…


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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve