Teresa, o corpo de Cristo (2007)

“Teresa, el cuerpo de Cristo” (2007)

Realizador: Ray Loriga

Argumento: Ray Loriga

Género: Drama

IMDB

Lucía com um manto

Trabalho perfeccionista, contudo ultrapassado nas ideias que transmite.

O filme tem alguns elementos interessantes, de alguns pontos de vista, apesar das suas (várias) falhas. Quem o produziu sabia o efeito que Paz Vega pode ter, e colocou-a aqui com o seu personagem de “Lucía y el Sexo” em mente (por isso, neste sentido, este filme só poderia ter a ela no papel principal). Como Lucía, ela foi (juntamente com as tensões sexuais que também ajuda a criar) um dos principais agentes geradores de todo o filme na cabeça do personagem-escritor. Num certo sentido um personagem satélite, no entanto, essencial na trama. Aqui, ela desloca-se para o centro dessa trama, as mesmas tensões sexuais são mantidas, e o que é gerado é a evolução das suas lutas interiores, e da forma como o fundo exterior a Teresa vê essas evoluções. Esse mundo também nos inclui a nós, espectadores, que colocamos os nossos próprios (pre)conceitos religiosos (ou não) a julgá-la, tal como as várias personagens no filme. De qualquer forma, mesmo alguns aspectos na cinematografia revelam algumas influências do filme de Medem (algumas paisagens excessivamente expostas à luz, ambiente de sonho, gerador de ideias).

O filme é construído por episódios, quadros, frescos biográficos. Os factos da biografianão são interpretados, a luta interior é escolhida para este efeito. Tudo bem por mim, é uma opção (até bastante contemporânea em cinema). Também há um enorme (a meu ver) convencionalismo religioso que, no entanto, tenta chegar até nós como algo revolucionário e novo. O fenómeno “Código daVinci” trouxe a uma plateia massificada a ideia de “humanizar” personagens religiosos, em tempos intocáveis nas suas biografias sagradas. O código fÊ-lo com Cristo (já não era novo então, mas por outro lado, ninguém o sabia) e o seu suposto envolvimento romântico com Madalena. Aqui verifica-se algo flagrante, nas conotações sexuais associadas ao “ser possuída” por Cristo (a cena em que Teresa representa Madalena na Pietà é absolutamente reveladora disso). Mas também aceito isso, não me chega como algo novo, mas é outra opção.

O que não me convence é a manipulação subtil que está aqui intencionada. Veja-se: temos uma personagem histórica que, no seu tempo, se tornou um dos símbolos mais sólidos da Contra-Reforma (o filme até refere o apoio que ela teve por parte dos Jesuítas, fundados pelo espanhol Loiola, eles próprios um dos agentes mais poderosos e eficientes dessa reforma, especialmente na Península Ibérica). Esse personagem, até agora visto como um marco de santidade, rigor e regresso a tradições então esquecidas, surge aqui transformado (reinterpretado?) num personagem de pensamento livre, revolucionário que, contra tudo e todos, lutaria por liberdades até então nunca sonhadas (emancipação da mulher…). O que me aborrece não é a interpretação, mas a incoerência com que esta nova personagem é colocada no seu mundo específico histórico. De qualquer forma é sempre interessante verificar como em cada momento a História é rescrita antes de ser introduzida, completamente cristalizada, nas cabeças das gerações desse momento.
O que também me ocorreu enquanto via o filme, numa sala ocupada por 8 pessoas foi o quão abstracto era o pensamento medieval. (o filme toma lugar oficialmente numa pós idade média, mas as mentes em geral levam tempo a acompanhar). A morte era decidida baseada na interpretação de crenças completamente abstractas, invisíveis, não físicas. A foi conquistada, desde então, pelo pensamento abstracto, mas as mentes comuns evoluíram cada vez mais na necessidade de objectos concretos para as guiarem

O outro elemento bastante interessante é o do manto. Um destes dias, lia a secção “I need to know” do IMDb, e o sr. Ted Goranson pedia aí ajuda para encontrar filmes que utilizem o manto como elemento cinemático. Provavelmente este é um bom exemplo para ele. A história e a evolução mental e do estado de espírito de Teresa são contados com grande precisão pelos mantos que ela veste (recordo o bordô avermelhado vívido que ela usa como Madalena junto a Cristo, as vestimentas barrocas iniciais e a textura do seu manto de sobriedade final).

Para além disto, algumas outras não tão importantes incoerências são de notar (praticamente todos os filmes estão carregados delas) como filmar episódios da vida de um símbolo religioso espanhol do séc. XVI usando um convento português de várias datas (incluindo o séc.XVII). Este convento é o coração espiritual da forte tradição dos templários portugueses, os mesmos que foram em tempos rejeitados pelo mesmo tipo de pensamento religioso contra o qual esta reinterpretada Teresa luta. Coincidência? Provavelmente sim.

A cinematografia tem uma qualidade barroca refinada, sempre realçando através da luz e sombra o mais importante que a composição tem para oferecer. Isto é muito bem trabalhado (tal como, em geral, toda a produção), sempre lembrarei a linha de perfil das caras trabalhada como uma linha de luz contra um plano de fundo preto. Muito bonito.

A minha avaliação: 3/5 vale a pena ver pelos elementos referidos, apesar do ritmo não tão bem conseguido.

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14 Responses to “Teresa, o corpo de Cristo (2007)”


  1. 1 H. Junho 30, 2007 às 8:49 pm

    É curioso falares no Código Da Vinci, pois também me ocorreu enquanto via este filme que é ele é fruto deste tempo de “febre” por romances históricos que o livro de Dan Brown deu início. Há uma espécie de fome de mistério passado que por vezes incorre numa certa manipulação dos factos. Não posso afirmar que é o que se passa aqui, pois não estou particularmente familiarizada com a figura de Santa Teresa de Ávila, mas achei pertinente chamares a atenção para um contexto de Contra-Reforma que não é correctamente explanado no filme. Mais, houve muitos casos de religiosas que experimentavam êxtases e visões, que deixavam de comer e que procuravam uma aproximação total a Cristo (só quem não souber minimamente isso pode sentir-se chocado com a aura sexual das suas “possessões”, e não descarto que o realizador tivesse essa intenção provocadora), e a Idade Média foi particularmente prolífica neles. Até nisso a “unicidade” de Teresa exposta no filme deveria ser matizada.
    Mas apesar das falhas, é um filme que tem os seus méritos, particularmente fotográficos. Não dei o meu tempo por mal empregue…

  2. 2 ruiresende Julho 1, 2007 às 4:02 am

    Pois, realmente a relação com o código daVinci, em termos de temática, apareceu-me enquanto via o filme. A questão da contra-reforma também me pareceu interessante, até pela maneira como aparece no filme, separando um pouco a vida da santa do contexto geral. E sim, concordo contigo, creio que a intenção com as conotações sexuais era precisamente algum choque (que diga-se de passagem acaba por fazer bem a várias pessoas). Eu também gostei do filme, apesar dos defeitos, não me arrependo de o ter escolhido, e sim a fotografia está sublime, grande trabalho, e aqueles perfis das caras na contra-luz é trabalho muito bom…

    obrigado pelo comentário, espero ler-te por aqui mais vezes.

  3. 3 Jose Maia Julho 1, 2007 às 10:30 pm

    Repare que no que toca à história antiga devemos sempre recordar que quem conta um conto acrescenta um ponto. A vivência integral destas experiências essa só se viveu a seu tempo.
    “Ultrapassado nas ideias” ,talvez, porque ao acontecer que “as mentes comuns evoluíram cada vez mais na necessidade de objectos concretos para as guiarem”, essa mesma mediania acabou por vender toda a abstração que lhe servia de coluna vertebral no concreto da sua existência pelo prato de ervilhas ele mesmo. Só que para isto, mais tarde já dizia Valery “Como o fruto se funde em fruição, como em delícias se transforma a sua ausência”.

  4. 4 ruiresende Julho 2, 2007 às 6:21 pm

    quem conta um conto acrescenta um ponto, totalmente de acordo, era esse aspecto que queria referir quando digo que “é sempre interessante verificar como em cada momento a História é rescrita antes de ser introduzida, completamente cristalizada, nas cabeças das gerações desse momento.” Perante as visões próprias e os (pre)conceitos de cada época é que se obtém uma leitura do que aconteceu no passado. Por isso é um indicador fantástico para a compreensão de uma época perceber como nessa época se viam as anteriores…

    Abstracção como coluna vertebral da existência é uma boa imagem, creio que compreender esta noção é contribuir para alguma melhoria da nossa forma de vida (nossa, globalmente falando apenas), que neste momento está desprovida desse tipo de qualidades se quisermos espirituais. Aliás eu estou até convencido que as pessoas, mesmo que não saibam muito bem por onde ir ou que caminhos seguir pedem por essa espiritualidade de volta ao quotidiano, por esse motivo fenómenos como código daVinci, Harry Potter, ou a redescoberta do mundo de Tolkien no cinema podem ter tanto sucesso hoje…

    obrigado pelo comentário, espero ler mais vezes.

  5. 5 Malaica Outubro 25, 2007 às 12:37 pm

    É repugnante a forma como o nome de Cristo, o salvador está a ser usado para esses filmes que são resultados de mentes perturbadas. Jesus Cristo é o salvador do mundo, o seu nome não deveria ser uasado em vão e de forma insultuosa como o é feito neste filme e no código da vinci.

  6. 6 ruiresende Outubro 25, 2007 às 7:33 pm

    discordo completamente que sejam mentes perturbadas. São simplesmente visões que cada um tem. A mim interessa-me muito mais o cinema em si do que as opiniões expressas por trás. Mas no caso deste filme até acho a visão religiosa bastante convencional, em função dos últimos digamos 50 anos (basicamente desde que Kazantzakis publicou A última tentação de Cristo, que suponho que a cara leitora também considere repugnante). De qualquer maneira tento não fazer avaliações baseadas em dogmas, e “Jesus Cristo é o salvador” é um dogma. Pode-se acreditar ou não, e deve-se sempre respeitar, essa opinião e as outras. Obrigado por comentar. Espero mais visitas

  7. 7 Eu Novembro 3, 2007 às 9:34 pm

    Concerteza Jesus Cristo é o salvador, e deve ser respeitado sim…
    Mas fazendo filmes que ferem sua imagem de santo é repugnante.
    Creio que esses filmes (e os demais que passaram) só estão em cartaz, devido a santidade e pacifidade dos servos de Deus, que acredito que deviam protestar assim como eu a tudo que vá de contra a Deus, sem violência e discriminação porém mostrando sua opinião.

    Acredito que a corrupção da igreja no passado tenha afetado a sua imagem, e não nego essa corrupção, porém banalizar a Igreja já é demais, ela mudou sim com a reforma protestante mesmo que tenha mais problemas que no passado, mas deve ser levada a sério e não se deve usar uma crença para lucro próprio, ou para “entreter” mentes vazias que buscam um pouco de misticismo.

    Se esses filmes fossem a respeito de Buda e Alá aposto se um milhão de bombas não atingiriam os Estados Unidos no dia seguinte, mas Jesus NA MINHA OPINIÃO teve um marco na história promovendo seu nome e sua palavra ao longo dos séculos e que fez coisas que ninguém mais fez (curas e milagres), e que promoveu paz e amor à todos, concerteza não deve ser crucificado novamente pelos erros da Igreja ou de pastores e padres falsos…e por isso eu me pergunto…porque os cristão estão PARADOS?!?!?!?

  8. 8 Carla Abril 15, 2008 às 9:02 pm

    Eu Carla digo:
    odiei esse blog!!!

    nao tem o q eu procurava!!!!!

    OOOODDDDIIIIEEEEIIII!!!!

  9. 9 Dna Onça Novembro 30, 2008 às 8:32 pm

    O fato de termos a possibilidade de Jesus Cristo ter tido desejos como homem comum,não invalida que ele seja o filho de Deus e que morreu na cruz e ressucitou no terceiro dia além de operar milagres incríveis.Penso que esse “papo” de celibato imposto pela Igreja Católica,é apenas uma forma de proteger o patrimônio da Igreja (e que patrimônio heim?).Imaginem vcs se todos os ´padres casam e divorciam?
    A esta altura do campeonato,a tão poderosa Igreja estaria falida…
    É,é isso aí…ainda não vi o filme citado,mas estou tentando baixar para assistir.
    Um grande abraço a todos e não esqueçam que o próprio Deus disse: crescei e multiplicai,ok?

    • 10 kika Julho 1, 2009 às 10:33 pm

      MInha filha filha leia Mateus 19 e aprenderá que nem todos os homens tem a mesma vocação. E o celibato não é uma imposição, mas uma escolha livre de quem escolhe assim. Crescer e multiplicar não significa sair fazendo filho em todas as pessoas e se levassem em consideração assim não teria tantos abortivos como pilulas anticonceptivase camisa de vênus, a vulgar camisinha. Pense Dna onça antes de abrir a boca

  10. 11 Karen Fevereiro 23, 2009 às 8:15 pm

    Eu ouvi falar muito sobre esse filme e sou apaixonada pela história de vida de Santa Teresa de Jesus… Vejo nos últimos comentários q todos saem em defesa de Jesus que foi insultado. Eu tb não gostei nada do que vi, mas venho tb e principalmente em defesa da minha querida Teresa, que toda a vida se martirizou por pensar ofender a Deus… Não sei o q tinha na cabeça o cara que fez esse filme, mas percebo que ele não conheceu a história de vida dela antes de fazer o filme… Se a atriz é bonita isso é o que menos importa… A Teresa era linda? Sim, mas qdo começou a ter oração espiritual já estava há 20 anos no convento… Ela em parte nenhuma de sua obra escreve que teve relações com seu primo, como ele quer dar a entender no filme… Ela era uma mulher de 40 qdo começou a reforma e não era uma aloprada como o filme mostra. Ela pensava antes de fazer, não queria aparecer prá ngm… O filme é mal feito pq não conta a verdadeira história dela… Quer discutir o lado erótico de uma mulher que é santa ha mais de 500 anos… Se as coisas fossem como esse filme diz, ela teria sido mais uma nas fogueiras da inquisição. Teresa sempre respeitou Jesus, é Sua esposa sim, é linda sim, mas jamais narrou nada nem parecido com aquelas cenas e nunca ensinou isso a suas filhas no carmelo das descalças. Ela nos ensina que devemos sempre nos fazer presentes Àquele que nunca se ausenta, mas não dessa maneira… Odiei o filme, se tivessem estudado um pouquinho mais sobre ela, se tivessem visto um dvd de 8 capítulos sobre ela feito nos anos 80 com uma atriz lindíssima e que em momento algum desrespeitou a santidade dela, teriam feito algo com qualidade. Nota -8 prá eles… Se eu não gostava de código davinci, desde aqui então nem se fala. Santa Teresa de Jesus, mestra de oração e doutora da igreja, rogai por nós!

  11. 12 Ir.Isaac da Cruz, OCD Setembro 25, 2009 às 12:33 pm

    Eu sou do Carmelo Descalço e assisti ao filme, um belo filme por sinal. Mas que pena não traz a Verdadeira vida desta Santa Madre Teresa de Jesus. O que o outor quer mostrar, ao meu ver e uma mulher que causou muitas pertubalções na quela epoca quando na vedade não foi isso que Ela fez e sim teve uma vida Santa e Humilde.
    Que Deus Abencoe!!!

  12. 13 Celia Julho 13, 2010 às 12:42 pm

    Ai que viaaaaaaaaaagem!! Putzgrila, realmente não conhece nada da história de Santa Teresa D’Ávila. Nada de “Lúcia e o Sexo”, nem “Código Da Vinci”, caramba, o filme mostra exatamente como o corpo poderia tanto ser herético como santo, e uma das vias mais experimentadas pelos santos dessa epoca para expressar a sua fé é o erotismo!

  13. 14 Geraldo Brandao Novembro 6, 2011 às 7:21 pm

    O único comentário a fazer é que o resenhista, independentemente da questão religiosa, que pouco meu importa NESTE COMENTÁRIO, precisa fazer um texto menos calcado em seus achismos e mais científico…Alguns comentários são interessantes, outros fracos…o mais interessante foi o do Frei carmelita…

    abraço a todos…


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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve