Rope (1948)

“Rope” (1948)

Realizador: Alfred Hitchcock

Escritores: Patrick Hamilton, Hume Cronyn, Arthur Laurents, Ben Hecht

Género: Crime/Drama/Thriller

IMDB

O nascimento de um “olhar”
Eu tenho este na minha lista de filmes que todos deveriam ver. Isto é, para que se possa compreender algumas questões fundamentais de criação cinematográfica dos últimos 50 anos.

O que menos me interessa aqui são as realizações técnicas. Essas representam hoje uma curiosidade, um facto “de museu”, que vale apenas relembrar e ser creditado àqueles que trabalharam nele, mas apenas isso.

Também não estou interessado nos assuntos tabu das entrelinhas, nomeadamente os relacionados com a homossexualidade. Em relação a isso, creio que toda a construçãod o filme, dos actores à escrita das cenas retirou muitas coisas do contexto. Vou mais longe. Acredito que Hitchcock na verdade desprezava essas mensagens (os escritores estavam preocupados em explorá-las, não Hitch), ele não perseguia aqui significados subjacentes ou controvérsia, ele procurava algo bem mais engenhoso e influente. Falo do “olhar” da sua câmara.

Antes deste, a produção de Hitchcock estava algures entre uma construção clássica e alguma exploração da câmara como elemento de reflexo de (algumas) emoções/sentimentos/sensações de determinado personagem (e em parte da audiência). A cena da biblioteca em “Shadow of a Doubt”, por exemplo, é o exemplo perfeito do que estou a falar. De qualquer maneira, essa vontade que Hitch tinha de fazer a sua câmara seguir personagens, cenários e revelar o que um personagem (ou “deus”) tinha a revelar já era bastante visível. Aqui, ele tornou essa vontade o tema do filme. Um único cenário, muito poucos personagens, uma história clara como água (que ele ainda tornou mais clara ao não lançar dúvidas sobre o destino do rapaz assassinado, logo desde o início). As questões sexuais também se relegam para segundo plano. O apartamento é, ao mesmo tempo, suficientemente simples para resolver as dificuldades técnicas de filmá-lo, e suficientemente largo e dividido para permitir à câmara explorá-lo, procurando elementos, diálogos e acções. A câmara é curiosa, é quase um personagem, um personagem chamado audiência. Anos mais tarde, de forma diferente, Hitch colocaria Stewart atrás da câmara e definitivamente acabava por assumi-la como um personagem físico no enredo (Rear Window). Aqui, o que obtemos é uma câmara que se move segundo os desejos do realizador. A câmara curiosa, sempre à procura, que de Palma viria a reinventar e Polanski a dominar aparece primeiro aqui.

Acredito que o trabalho de de Palma, num certo sentido (e momento) Polanski, Chabrol e mesmo algum Godard (Le mépris incluído) todo deriva do que aconteceu aqui. Provavelmente, o melhor de Hitchcock neste campo surgiria com Rear Window, mas é aqui que ele se torna um inventor.

A minha avaliação: 5/5 um dos manifestos cinemáticos.

Comentário no IMDB

Anúncios

2 Responses to “Rope (1948)”


  1. 1 manuel pinto barros Julho 1, 2007 às 10:31 pm

    “Acredito que o trabalho de de Palma, num certo sentido (e momento) Polanski, Chabrol e mesmo algum Godard (Le mépris incluído) todo deriva do que aconteceu aqui. Provavelmente, o melhor de Hitchcock neste campo surgiria com Rear Window, mas é aqui que ele se torna um inventor.” –

    Esta tua afirmação nao poderia estar mais correcta, só peca no entanto por ser virada ao futuro, mas se olhar-mos para o passado de Alfred Hichtcock, ele tera sido influenciado por Fritz Lang e Murnau, assim como Godard foi mais influenciado por estes dois nomes do que propriamente por Hitchcock, ao contrario de Truffaut.

    Bom apontamento de tua parte.

    Cumps

  2. 2 ruiresende Julho 2, 2007 às 6:08 pm

    Pois, provavelmente tens razão. Eu confesso que nunca investiguei muito a relação de Hitchcock com o passado, por outras palavras, quem seriam os seus mestres, se bem que o Murnau é uma influência forte. No comentário precoupei-me mais em marcar o filme, e a investigação que o Hitch tinha neste momento, como um ponto zero do que viria a seguir. Mas faz sentido o que dizes, de futuro tentarei observar pelas influências sofridas.
    obrigado pelo comentário.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve