Dentro e fora da realidade, “Sunset Boulevard”

“Sunset Blvd.” (1950)

Realizador: Billy Wilder

Argumento: Charles Brackett, Billy Wilder, D.M. Marshman Jr.

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*** Este comentário pode conter spoilers ***

Este filme tem uma escrita fantástica, excelente multisignificação, e muito bem sucedido na forma como usa a “forma” para nos atingir a nós, audiência, com um significado. Pode não ser o primeiro filme auto-referencial na história mas é sem dúvida um dos primeiros feitos com inteligência.

O que obtemos aqui são filmes dentro do filme. O filme é o que nós vemos. Para o fazer parecer com um filme, ouvimos a voz ausente do cadáver (o narrador), mesmo quando o cadáver nos é mostrado. Um homem morto que se descreve como morto (a intenção original era colocar o cadáver falante na morgue). Dentro deste filme de construção clara encontramos outros. A saber:

– a projecção de “Queen Kelly”, o filme realizado por Stroheim (que representa o técnico de projecção no “nosso” filme) e protagonizado por Swanson, a “nossa” actriz representando uma actriz reformada;

– o filme de DeMille, facto real, estava a acontecer naquela altura. DeMille aparece como ele próprio, falarei deste aspecto mais à frente;

– Salomé. O filme sobre uma mulher louca, o motivo condutor do “nosso” filme é o desenvolvimento deste outro filme. O próprio conhecimento da história da Salomé original conduz-nos para os eventos do nosso Sunset Boulevard.

Isto é o que vemos. Filmes dentro de filmes. O que significam eles?: praticamente todos os actores representam no filme o seu próprio estatuto na vida real:. Holden, representando o escritor falido vivia, ele mesmo, um momento mau da sua carreira. Olson, representando a jovem escritora com pretensões era, ela mesma, uma actriz lutando por afirmação. As “figuras de cera” aparecem como figuras reais representando antigas estrelas. Mas o melhor vem da dupla Stroheim/Swanson. “Queen Kelly” representou, na altura da sua produção, um filme bastante polémico que não fez bem à carreira de Swanson, e eventualmente arruinou a de Stroheim. A sua projecção por Stroheim, e a pantomina de Swanson no nosso sunset boulevard, acrescenta algo mais ao sentimento de decadência do filme (embora possa ser visto como uma espécie de vingança de Stroheim, que uma vez mais traz o seu filme “amaldiçoado” para a luz da ribalta). DeMille também trabalhou com Swanson, em Sunset Boulevard ele não fala com nenhuma personagem representada por Swanson, fala directamente a ela. Obviamente ela não era na vida real a personagem que representa ali, mas DeMille fala para a pessoa real, não a personagem.

Tudo isto tem uma construção altamente inteligente e complexa, que nos atinge de uma forma extremamente simples. Chabrol começa o seu “como fazer um filme” dizendo que se queremos fazer um filme, temos de ter uma boa razão. Essas razões são, aqui, claras como água: criticar a sociedade decadente de Hollywood, desenhando a linha separadora de dois mundos. Wilder usa as relações com verdade real (fora do filme) e entrega-nos algo que pode ser encarado como um mundo ambíguo, dentro e fora do nosso mundo real. Os filmes, e as nossas vidas, são feitas desse material, dessa ambiguidade.

As críticas que este contém são inúteis, datadas, e uma mera curiosidade nos dias que correm, mas o filme aguenta-se como uma construção deveras inteligente e, portanto, de visionamento bastante recomendável.

A minha avaliação: 5/5

Este comentário no IMDB

3 Responses to “Dentro e fora da realidade, “Sunset Boulevard””


  1. 1 Lua Obscura Junho 28, 2007 às 11:20 pm

    Este filme é absolutamente genial!!!

  2. 2 ruiresende Junho 29, 2007 às 12:59 am

    sim, é fantástico; e para mim é daqueles filmes em que pensar sobre ele é quase tão fascinante como vê-lo.


  1. 1 [blog] 7olhares - Arquitectura.pt Trackback em Junho 2, 2007 às 1:11 am

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve