Escrevendo beleza, “Lucía y el sexo”

“Lucía y el sexo” (2001)

Realizador: Julio Medem

Argumento: Julio Medem

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*** Este comentário pode conter spoilers ***

“a primeira vantagem é que no final a história não termina. Cai num buraco e recomeça do meio […] a segunda e maior vantagem é que nós podemos mudar o rumo a partir daí.”

Isto resume basicamente as “vantagens” do cinema de Medem. O que obtemos com Lucía y el sexo é do melhor. Argumento fantástico, quente, bonito em todos os aspectos, visuais ou escritos. A escrita é o tema. Realidade (des)descrita. O cinema evoluiu para explorar este tema. Aqui, a realidade é escrita pela escrita de Lorenzo. Vou tentar explicar. O título é enganador. O foco não estão no sexo, nem em Lucía. O sexo é o despoletador de todas as outras emoções/eventos e (des)encontros (por isso Lucía e sexo surgem aqui ambos em relação a Lorenzo). A preocupação está na escrita como criadora da realidade. Contudo, todas as mulheres são lindas, como é todo o ambiente do filme. Como havia já feito notavelmente com “Los amantes de lo círculo polar”, Medem joga com uma enorme complexidade espacio-temporal. Ele é um mestre da chamada narrativa não-linear, tem consci~encia plena dos seus efeitos no espectador (esse é, afinal, a razão e a definição de ser artista, controlar o que se mostra e se provoca). Coincidência? Acaso? Destino?. O drama em Medem vive destes aspectos, as pontas soltas que eventualmente se ligam, às vezes por pura coincidência, que adquire uma credibilidade impressionante quando trabalhada por este realizador. O fio condutor da atenção do espectador é chegar ao final de todas estas coincidências e descobrir o que está aí (uma vez mais como a sua outra grande experiência, “los amantes…”). Isto é contar histórias numa forma contemporânea, é o mas avançado que temos neste momento.

O truque, no caso de Medem (e é aqui que ele se distingue dos outros realizadores importantes de expressão espanhola, como Iñarritu ou Cuálron) é trabalhar com realidades que podem ou não ser provisórias. Como espectador, nunca se sabe se se está a assistir à realidade do filme ou à ficção dentro da ficção de Lorenzo. Também é bastante pouco claro (ou tem a claridade que Medem permite) onde e quando as acções tomam lugar. Ele cria lugares, na imaginação, não físicos (o filme torna-se ele mesmo o seu próprio lugar, em tempo indefinido, num mundo desenhado por Medem). A própria ilha tens os seus próprios contornos indefinidos, não sabemos se é deserta ou ocupada, ou a que distância fica da “realidade”.

A banda sonora é discreta mas eficiente. O tema é lírico por princípio, coerente aliás com o resto, e transporta o filme para alguma relação com o cinema lírico italiano (a realização de Tornatore, e a música de Rota ou Piovani). Esta é uma mistura interessante de noções, que tínhamos já visto em “La teta i la lluna”, de Bigas Luna (espanhol, catalão para ser preciso) com a banda sonora de Piovani (italiano). Isto mistura uma produção concebida para ser bela em cada momento (a italiana) com a procura permanente no inconsciente na mente humana (Medem estudou psiquiatria), o desconhecido da alma e o drama absoluto, numa visão contemporânea.

Obviamente a fotografia é excessivamente exposta propositadamente (ambiente de sonho), mas isso é uma escolha que eu não sublinho. Mas realmente é uma falha menor, considerando todas as outras “vantagens”.

A minha avaliação: 4/5. Acredito que Medem produzirá brevemente algo merecedor de quotação máxima, creio mesmo que poderá ser o seu próximo “Caótica Ana”. É por isso que escolhi comentar neste como abertura para este blogue. Não o percam.
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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve