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Novo (2002)

“Novo” (2002)

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nada para além do que vemos

Este filme é confuso e desfocado. Tenta ser demasiadas coisas, e falha em conseguir alguma delas com sucesso.

O filme queria ser uma história de amor dita de uma perspectiva diferente. Queria jogar com a memória como creadora de realidade, ou algo capaz de definir uma certa realidade. Queria estabelecer a ambiguidade em relação às motivações e em relação a quem controla o que vemos; quem está a submeter a realidade do que vemos à sua visão específica. Também queria usar o sexo, e personagens de motivações sexuais (sobretudo femininas) como uma cola cinematográfica que juntasse tudo isto. Consigo pensar em vários filmes para cada uma destas intenções frustradas que resolvem o seu tema específico com mais sucesso que este. Não conheço um único filme que resolva bem tudo ao mesmo tempo. E se encontrar um, creio que não será pelos autores deste. Pelo menos a avaliar pelo que vi aqui.

‘Memento’ brincou com as noções e os efeitos da memória a curto prazo, e a perda de memória com muito maior profundidade. Aqui, temos as perdas de memória como o dispositivo que permite ao nosso personagem tornar-se a marioneta de outros e fazer o que outros querem. É o necessário para ele ser instável e para lançar a dúvida sobre quem ele é, o que ele quer. Noriega fez o papel equivalente em ‘Abre los ojos’, que era muito mais interessante. Nesta questão, até ‘o cão zarolho’ explorava melhor o tema!… Aqui temos ligações que existem para percebermos a evolução do amnésico, as artes marciais, as sessões de fotos, o bloco de notas. Mas nada disso é realmente usado. O final desenrola-se como uma situação romântica comum de encontro e decisão sobre que mulher o protagonista vai eleger (que se vê a milhas de distância).

Assim termina como a história de amor que o filme também quer ser. A parte da ‘mulher que ama o homem aceitando-o pelo que ele é’. É vulgar, mas tem uma nova roupagem, para parecer novo. Mas se paramos e pensamos, não há absolutamente nada que mereça ser mencionado sobre essa história. Se querem formas renovadas de juntar um ambiente de amor e a criação de realidades alternativas, tentem Medem. Em ‘los amantes…’, em ‘Lucia y el sexo’, em ‘La ardilla roja’. Ele consegue fazer isso. Por coincidência (ou não), aqui temos até a Lucia de Medem (Paz Vega) como a mulher do protagonista doente que, nos seus momentos de recuperação, fala espanhol…

Depois temos as tentativas de jogar com as forças que controlam o que vemos. Sabemos quase sempre tanto como o personagem principal. E praticamente todos os personagens (excepto o rapaz e a mulher que ama o protagonista) têm intenções ambíguas (tirando o facto de que levamos o nosso tempo a perceber onde cada um encaixa, isso é uma coisa boa). Dão-nos uma uma sucessão de factos que não podemos julgar correctamente. Mas depois compreendemos que o filme se desloca para parte nenhuma, e o que vemos é o que realmente é. Não há viragens, não há revelações, o que parece estar a acontecer está realmente a acontecer. Não significa que tivessemos de ser enganados, mas deveria haver alguma intenção por trás da ideia de lançar ambiguidade em cada canto. Vejam ‘Oldboy’, se querem trabalho de mestre em relação a estes conceitos.

A minha opinião: 2/5 isto é uma confusão, mas tem alguns conceitos interessantes se começarmos a pensar o que isto poderia ser.

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My life without me (2003)

“My life without me” (2003)

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Kar Wai e uma história

Começo a gostar de estar no mundo que Coixet cria para os seus filmes. Esta foi só a minha segunda experiência com o trabalho dela (a outra foi ‘a vida secreta…’)

Ela tem uma qualidade que aprecio imenso, que é a capacidade de construir um mundo e incluir-me nele, como espectador, nesse mundo. E o mundo dela é muito pessoal, algo depressivo, mas que convida à auto-reflexão. Tem uma dialéctica interessante entre ser em si mesmo um mundo escuro, com sombras, povoado de personagens estranhos e pesados, mas no final passar uma mensagem positiva, no sentido em que nos motiva.

A estrutura é construída de forma clara: nos dois filmes que pude ver, ela segura as suas histórias em perguntas de “E se…”. E se tivesses apenas 2 meses para viver? não um princípio original, mas temos uma versão interessante aqui. A questão é imediatamente respondida pelo personagem que vai morrer. Ela escreve essa resposta, define tópicos. Nós vemos mesmo as palavras a serem escritas em frente a nós, no écran. Isto é simbólico. A questão surge de uma partida do destino: câncro. A resposta é completamente controlada pelo personagem de Polley. Assim temos uma luta entre o destino e o poder da personagem para controlar a vida que lhe resta. Ela controla todo o filme, desde o momento em que sabe que vai morrer. Ela submete toda a realidade da vida dela à visão que ela tem dessa realidade sem a sua presença. Assim, ela “escreve” os últimos dias dela, e escreve a vida daqueles que são parte do seu mundo e daqueles que ela vai permitir que entrem nesse mundo. Assim o mundo gira em torno de um personagem, que também o controla. Isto é uma narrativa inteligente.

Visualmente, o ambiente baseia-se no trabalho/movimento da câmara e alguns truques de edição inteligentes (sobretudo quando temos um monólogo que continua mesmo quando vemos a boca fechada do personagem a falar) e a fotografia. A forma como Coixet usa a câmara manual para nos fazer chegar próximo dos personagens é muito pessoal, e funciona, e creio que é a força visual dos seus filmes, e o que suporta o mundo desses filmes. A fotografia segue a tradição Kar Wai/Christopher Doyle, mais notavelmente no primeiro terço do filme. Penso que não foi uma boa opção. Kar Wai desenvolve os seus filmes como contentores vazios em que nós podemos colocar coisas num tipo de abstração muito sensível e abstracta em que nós, como indivíduos, deveremos ser os principais intervenientes. A qualidade visual dos filmes de Kar Wai existe para nos apoiar e nos dar pistas na nossa procura mental/emocional. Coixet alimenta-nos com informação concreta. Ela dá-nos linhas para seguir, ela motiva a reflexão mas através das suas próprias reflexões (história) que nós deveremos seguir. Assim não poderemos com um filme dela meditar visualmente como fazemos com Kar Wai. Nos filmes dele, a imagem que temos é parte do contentor, o resto é connosco. Coixet enche esse contentor com elementos bem definidos, mas também se preocupa com as “paredes” do contentor, mesmo se elas estão tapadas com os personagens que ela cria. Em ‘A vida secreta das palavras’ ela separou-se desta emulação de Christopher Doyle, apesar do cinematógrafo ser o mesmo nos dois filmes (Larrieu). Suponho que isso teve algo que ver com esta observação que fiz.

A minha opinião: 4/5

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My blueberry nights (2007)

“My blueberry nights” (2007) (O sabor do amor, PT ; Beijo Roubado, BR)

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Qual é a profundidade do seu amor?

Até onde nos levará Wong Kar Wai?

Tenho passado tempo com o trabalho dele. Tempo de qualidade. Suspeito que passarei muito mais tempo com ele, em anos próximos. Ver um filme de Kar Wai é uma grande aventura, se quisermos ter mais que entretenimento, se queremos aprender algo, e sobretudo, conhecermo-nos a nós mesmos melhor. O que se passa é que com Kar Wai não temos conteúdos, não temos cenários e objectos, temos sim espaços entre nós e as paredes, distâncias entre personagens, entre nós e esses personagens. Nos filmes dele, encontramos o que levamos connosco para a sala de cinema. Ele constrói o espaço em que podemos ser nós mesmos. E ainda adiciona algo dele mesmo a esse espaço. Por isso é que ele sempre coloca elementos que indicam distâncias, e que me colocam a mim nesse espaço. Neste filme específico, esses elementos têm muito que ver com as palavras pintadas na montra do restaurante de Jude Law.

Este filme inicia, claro, uma nova fase no trabalho do realizador. Pelo que posso dizer, ‘Chungking Express’ marcou o culminar de uma certa exploração, e ‘Disponível para amar’ (e 2046) culminou uma segunda linha que explora como a imaginação funciona. Agora ele começa algo novo. Para já está indefinido, esta ‘tarte’ que ele nos dá tem o sabor da mistura das duas fases anteriores dele. Isto porque ele dá-nos histórias circulares, destinos dinâmicos, e a ideia de que se pode construir o amor com a imaginação. Mas depois, todo o filme está completamente vazio, e o espectador pode definir a sua própria história com os elementos que lhe dão no ecrán. A história não existe, é apenas uma sucessão de eventos que seguimos para fazer as nossas próprias conexões. Kar Wai está a mexer-se num novo ambiente, num certo sentido ele não tem noção das reacções que encontrará, tal como o personagem de Norah Jones no seu caminho. Há todo um mundo novo que ele toca, explora, passo a passo. Kar Wai prefere deixar as coisas indefinidas, ou esquissadas, do que construí-las numa base errada. Há um episódio relativamente famoso em relação a este filme: Kar Wai colocaria Jude Law limpando o gelado da cara de Norah primeiro, e beijando-a depois, mas quis saber como um ocidental o faria. Ele está a aprender, tanto como eu aprendo sempre que toco um dos seus filmes.

Christopher Doyle está fora deste (aparentemente também estará fora do próximo filme de Kar Wai). Isso foi bom no sentido em que eu precisava de compreender quanto do mundo visual e do trabalho de câmara pertence efectivamente a Doyle, e quanto é Kar Wai. Aqui, o realizador está procurando novas cores, e um novo tipo de ambiente, mas o trabalho de câmara tem muito que ver com o passado. Doyle aparentemente tem mais que ver com um ambiente expresso através da fotografia, a subtileza está aparentemente nas mãos do mestre.

Um aspecto interessante é observar a competência das actuações. Realmente acho que Norah Jones se destaca, a sua actuação funciona porque ela não sabe actuar, e o ambiente do filme é o ambiente da sua música, assim ela está naturalmente bem aqui. Jude Law é bastante inteligente, ele compreende o que é suposto fazer para estar “in the mood”. Ele é um dos bons actores que temos hoje em dia. Portman e Strathairn são competentes, mas pareceu-me que Weisz estava muito pouco à vontade com o que estava a fazer. Creio que é interessante parar um minuto pensando porquê: o que se passa é que ela estava pouco natural, de uma forma que eu nunca tinha visto nela. Ela nunca foi brilhante antes deste filme, mas sempre achei que era competente para permitir as coisas fluirem bem. Não aqui e creio que isso tem que ver com a falta de orientação, o tipo de orientação que Rachel necessita, e que Kar Wai não lhe dará. Isto diz algo sobre Weisz e sobre Kar Wai. Interessante.

Por agora tenho uma exposição relativamente grande a Kar Wai, mas esta foi a primeira vez que tentei chegar aos significados e a minha reacção ao trabalho dele pela escrita. Estou a aprender, estou a descobrir novas coisas. Prefiro deixar as minhas opiniões ainda indefinidas, ou incompletas. Poderei completá-las em futuros visionamentos/escrita. Tal como num filme de Kar Wai.

A minha opinião: 4/5 não perca este, não perca nada que Kar Wai faça, os seus sonhos podem depender disso.

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Wall Street (1987)

“Wall Street” (1987)

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previsível como sempre

Não gosto de Oliver Stone. Tenho motivos para isso.

Ele é sempre previsível na forma como os seus filmes se desenvolvem. Ele usa um tipo de estereótipo de anti-herói, necessariamente americano, necessariamente imperfeito, mas no final sempre capaz de reconhecer essas falhas e fazer a coisa certa. Stone é um dos expoentes máximos dos últimos 15 anos de relevância americana no mundo. Não me interessa muito esta atitude, acho que há muito mais na cultura americana e muitas mais vantagens americanas do que estes clichés que me cansam observar, repetidamente, por tipos como Stone.

Ele constrói os seus filmes com uma vulgaridade cinemática atroz. Não há visões inteligentes, na verdade não há conceitos visuais que integrem as ideias do filme. O filme simplesmente se desenvolve, não há trabalho de câmara especial, preocupações artísticas, etc.

Este filme especificamente, corresponde à descrição que fiz. É um filme vulgar, de um realizador vulgar, que tem no entanto uma sequência redentora: a primeira vez que vemos Wall Street. É uma sequência que começa com planos reveladores normais, mas depois vamos para o interior, e temos algum tempo com um pedaço fabuloso de edição, que mostra o dia-a-dia da bolsa. Gostei desse pedaço, porque há uma forma visual de passar um ambiente, que está de acordo com o que vemos. Claro que a ideia que se passa da bolsa de valores é comum, mesmo clichá, mas a narrativa visual (ambiente visual?) é muito boa. Esta sequência merece ser vista, tudo o resto é tão vulgar como sempre. Suponho que é preciso ver Platoon para termos o projecto redentor da carreira de Stone. Este não o é.

Ah, e a “arte da guerra”, aplicada ao mercado de acções, é tão amador que não vale a pena comentar.

A minha opinião: 3/5 aquela cena no início…

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A Guide for the Married Man (1967)

“A Guide for the Married Man” (1967)

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sWingin’ in the rain

Creio que sei o que era suposto este filme ser. Esta história, e esta montagem deveriam bailar em frente dos nosso olhos tal como Gene Kelly costumava, literalmente, dançar nos seus musicais passados. Aprecio a ideia, o homem usou a imagem que o público tinha dele, e tentou ser coerente com ela, detrás da câmara. A história fala de bailarinos, tipos que contornam adversidades, esquemas para enganar as mulheres, aquele ambiente onde o adultério é cómico, e o bom nunca cai nele, porque no fundo ele compreenderá que na verdade ama a sua mulher. Assim, trocamos constantemente de cenários, e voltamos a esses cenários, introduzimos novos personagens, contando-se histórias que não sabemos se realmente aconteceram, e isso é feito de uma forma frenética (para a altura deste filme). Kelly tenta bastante manter a edição a par da história, e aprecio o esforço, mas ele não é suficientemente dotado para fazer isto com competência. No mesmo ano, Stanley Donen realizou uma obra notável, um filme que eu considero essencial, “Two for the Road”, ele tentou algo semelhante, mas saíu-se bem de uma forma que Kelly nunca poderia conseguir. Aí, Donen conseguiu controlar a edição e a linha narrativa em coerência. Estas duas mentes (Kelly e Donen) tinham sido responsáveis por uma grande experiência, “Singin’ in the rain”. Por esse filme, e por “Two for…” compreendemos que eles sabiam que poderiam chegar a algum lado com o que experimentavam. Donen chegou, mas este filme é só uma tentativa menor.

A minha opinião: 2/5

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Phone Booth (2002)

“Phone Booth” (2002)

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cinema centrípeto

Isto podia ter sido memorável. Tinha um conceito interessante detrás, mas quem executou arruinou-o. Suponho que em grande parte a responsabilidade devia ser atribuída a Schumacher. Ele é incompetente, ele vai com a maré, ele faz o que quer que as audiências consumam facilmente, e não se interessa por cinema ou como pode construi-lo numa base visual. Os seus filmes funcionam para mim como poluição visual, a estratégia dele é encher o olho com todo o tipo de imagens para substituir a falta das suas próprias ideias.

Assim, algumas coisas boas perderam-se aqui: Este filme é, num certo sentido, o oposto do que Hitchcock fez em Janela Indiscreta. Esse foi uma obra prima, porque nos colocava dentro do olho de um observador, e o mundo do filme é tudo aquilo que ele é capaz de ver. Nem mais, nem menos. Tirando alguns poucos planos especiais, recebemos um mundo com as mesmas medidas do de Stewart. Isso foi especialmente bem feito, e a história desenvolve-se visualmente. Aqui tínhamos o oposto. O mundo está centrado num personagem, como em Janela indiscreta, mas a forma como vemos esse mundo é completamente oposta, o que significa que não vemos o mundo como Farrel vê (pelo menos não tantas vezes), temos antes Farrel de vários ângulos e pontos de vista:

. o atirador furtivo, ele é o mais próximo de deus que temos, ele sabe tudo, incluindo o que levou à situação que observamos, ele tem o olhar superior, ele controla a acção, todo o tempo;

. o polícia, ele esforça-se por perceber as coisas, no início ele é tão ignorante como todos os outros, mas acaba por descobrir algumas coisas;

. a esposa e a amante, cada uma ignora a existência da outra, e sabem apenas o que Farrel quer dizer-lhes;

. a imprensa, esta é a entidade que tem de concluir, que tem de fingir que sabe, mas a sua participação aqui é praticamente nula;

Havia estas 4 linhas, mais a versão pessoal de Farrell. Isto já foi bem explorado em cinema, como explorar várias linhas narrativas, começando com Citizen Kane, e continuando com uma série de outros projectos importantes ou meramente interessantes. Este perde-se com truques de edição completamente inúteis, edição sonora inconsequente, fogo de artifício inútil. Pelo menos desta vez não vemos mamilos nas roupas do herói.

A minha opinião: 2/5 alguns conceitos interessantes, mas execução terrível.

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The Apartment (1960)

“The Apartment” (1960)

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tempos modernos

Vale a pena ver o que Billy Wilder fez, independentemente do que seja, ou sob que circunstâncias ele as fez. Isso porque ele sempre tentou contornar adversidades, mesmo se no final isso aparece com a forma da ironia e da crítica aos seus patrões, usando as possibilidades que eles dão. É o que ele faz aqui. Os resultados não são muito impressionantes, talvez porque ele mistura mundos diferentes. Ele tem um romance para contar, foi para isso que foi contratado, para produzir a comédia romântica que se esperava dele, início dos anos 60, mas feita como se fosse nos anos 50. Mas na verdade, ele está angustiado porque ele sente-se agarrado e dependente do sistema de produção cinematográfica que não lhe permite exprimir livremente as suas preocupações, os seus temas, da sua própria forma. Ele teria a sua última recusa tarde na sua vida, quando Spielberg não o deixou realizar a sua Lista de Schindler. Por isso imagino que Stalag 17 deve provavelmente ter sido um projecto muito pessoal para Wilder, um que procurarei verbrevemente. Neste processo de luta pela sua própria expressão, ele criou uma obra prima, Sunset Boulevard, e o menos interessante Ace in the Hole. O noir servia perfeitamente as suas intenções de integrar os seus sentimentos sem os gritar, e ainda assim produzir o filme que lhe tinham pedido.

Aqui, isso não funcionou assim tão bem. Como o tema era romance, ele substitui o ambiente noir por sexo. Assim, temos um personagem imerso num mundo moderno de exploração, onde lhe dizem o que ele deve fazer, tem a sua vida sabotada pelos interessos dos seus (muitos) superiores. Este é um mundo que Chaplin tinha criado em Tempos Modernos, mas aqui Wilder substitui a maquinaria belissimamente coreografada da fábrica pelo sexo. O apartamento é um ponto de encontro, o sexo guia o que acontece aqui, tudo. Assim, temos um homem apanhado num sistema e que tem de criar as suas soluções para ganhar a sua liberdade de decisão. certo?

Jack Lemmon é sublime, realmente aprecio o seu estilo de comédia não explosivo, mas intenso. Ele tem uma forma de se mover, de caminhar, que fortalece o seu personagem, e neste caso particular, torna-o mais apreciável e mais fácil de acreditar que ele é na verdade um peão num mundo corrupto e opressivo. Ele é um Charlot aqui. Isto não é inocente. O Charlot deve ser uma das personagens com maior poder metafórico na história do cinema, e ele sempre representa coisas que não vemos no ecrán. Shirley MacLaine encaixa bem, a cara dela não é tão enigmática e intensa como a das Hepburns, mas ele move-se de forma mais entusiástica.

Depois de tantos anos, creio que o que suporta este filme são as actuações. Por agora já não tenho o contexto de Wilder, e estou demasiado afastado das audiências que valorizaram o filme no seu tempo. E toda a mecânica do sexo parece uma linha completamente paralela ao romance que seguimos, não está suficientemente bem integrada, creio. Apesar de tudo, há um carinho nas interpretações, e uma nostalgia que eu levava para o filme quando comecei a vê-lo, não porque vivi esses dias, mas porque pude ver o que aconteceu a esses intérpretes, Lemmon e MacLaine. A nostalgia é um ingrediente poderoso.

A minha opinião: 3/5

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Die Fälscher (2007)

“Die Fälscher” (2007)

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uma nova abordagem

Tendo em conta todos os filmes que já foram feitos sobre a opressão nazi aos judeus, este é inteligente na forma como constrói os seus personagens e a sua abordagem ao tema.

O que se passa é, os criadores aqui são suficientemente competentes, especialmente na cinematografia, que segue Rembrandt, uma tradição belíssima no que toca ao uso da luz, e a construção de um ambiente. Com isto falo de imagens onde a luz é uma massa com a forma do objecto iluminado no meio de um ambiente escuro, mas nunca, ou quase nunca, percebemos a fonte da luz, é como se ela irradiasse do próprio objecto. Isto faz-nos focar no centro da composição com especial concentração. Coisas comuns, aspectos miseráveis, tornados especiais por estarem num local escuro. Isto tem tudo que ver com a segunda guerra, e as profundas da miséria humana. Mas apesar desta fotografia, o resto é apenas competente, a câmara foi carinhosa em alguns momentos, mas apenas (falso) documental em praticamente todo o resto. As actuações são boas, e Markovics e os escritores merecem crédito, porque fizeram algo que eu nunca tinha visto num filme de Holocausto.

Assim, não temos bem e mal, isso ganhou o meu coração imediatamente. Verificamos as falhas, e o mau carácter do falsificador logo do início. Ele tem tantas falhas como qualquer outro homem, talvez ainda mais. Ele finge, ele falsifica dinheiro, ele finge para sobreviver, ele está interessado em sobreviver, não em salvar o mundo. “um dia é um dia”, diz ele. Todos os judeus que trabalham com ele pensam da mesma forma, excepto o idealista. Todos os judeus querem apenas sobreviver, e eles são os sortudos, uma ilha de relativa paz na ilha que é o campo de concentração. É interessante como acabamos por os invejar pelo seu quase nada, comparado com o nada que a maioria tinha. Creio que essa sensação que temos ao ver o filme, é provavelmente comparável à sensação que os judeus reais teriam, ao viver a situação. Isto é um feito interessante. Assim, temos um ângulo diferente, um que não santifica as vítimas, e coloca-as na esfera real do mundo com falhas onde eles viviam, antes da guerra, antes dos nazis. Para alguém que está 2 ou 3 gerações afastado da guerra, como eu, isto representa uma abordagem muito mais interessante. Claro que o realizador tem apenas 47 anos agora, também é evidentemente pós-guerra.

Uma coisa não funcionou para mim, pelo menos achei que foi mal utilizado. Tango. Está assumido, desdo o início, todas as adaptações de Gardel, muito boas, mais sensuais mas menos viscerais que o Gardel original. Realmente não percebi a ligação. Porquê Tango? No início tentei compreender e adivinhar onde iria encaixar, mas não encaixou, não para mim. Vou tentar compreender isso.

A minha opinião: 4/5 vejam este

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Helvetica (2007)

“Helvetica” (2007)

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Catálogo

Como um futuro arquitecto, eu senti-me próximo do que estava em discussão aqui. A evolução de muitas das concepções, concepções vulgares, do que arquitectura deveria ser ou, como o design gráfico deveria ser encarado, é bastante similar. Assim, temos design, aqui representado pelas diversas fontes de escrita, que surgem como resposta a uma necessidade, uma representação de um certo momento no tempo, ou o ícone de determinada postura política ou de vida.

O título do filme é uma criação do modernismo, e isso significa que funciona, tenta ser universal, e é durável, em termos visuais. Isso não impede que seja um potencial alvo de críticas. O que se passa é, a natureza humana não permite que os humanos permaneçam iguais sempre. Isso porque a mente humana é criativa. Ao mesmo tempo, os homens gostam de fórmulas. Gostam que lhes digam o que está certo, gostam de confiar. E na verdade, com a excepção de um número reduzido de artistas que têm/tiveram o génio para produzir trabalho gerado numa realidade qualquer paralela, algo que Platão descreve, a vasta maioria dos mortais necessitam referências, fórmulas (mesmo que lutem contra elas), necessitam de restrições, como alguém disse neste documentário. Assim, à Helvetica podem-se juntar muitas fórmulas, as caixas modernistas da Bauhaus, os espaços transparentes de Mies, tudo foram criações que nasceram de mentes criativas e que foram massivamente adoptadas, com resultados notáveis ou com gradual perda de interesse, contexto e qualidade. No final, creio que todos somos, em maior ou menor grau, conservadores e radicais, conformistas e revolucionários, Helvetica e manual, Gropius e Gaudi. É na oscilação entre estes extremos que a criatividade humana funciona, e nos conflitos que existem nesta evolução. Por isso, quem és tu? Que riscos estás disposto a ter? Quão novo estás disposto a ser?. Se fosse (for) americano, em quem votaria? Obama ou Clinton? A ideia por trás do que está neste filme, é que as escolhas que tu fazes definem quem tu és. Mas há um senão. Estamos a falar de escolhas sobre as criações dos outros. As pessoas defendem que a Helvetica faz parte delas, mas também faz parte da American Airlines. E uma janela é aberta, no final do filme.

O facto de, hoje, a democracia tecnológica permitir a alguém ter um poder de comunicação e personalização muito maior dos nossos “bilhetes de identidade”. Pessoalmente não creio que a tecnologia estimule a criatividade, aumenta as opções, sim, mas isso apenas nos dá um maior catálogo de “fontes”. O nosso poder de inovar é o mesmo, com ou sem computadores. Eu até creio que os tempos fantásticos que conseguimos obter ao trabalhar com um computador podem matar o processo criativo, a partir do momento em que nos apressamos a fazer coisas só descobrindo que não são as opções certas quando já é demasiado tarde para mudá-las. Mas é fantástico que hoje uma pessoa possa produzir um filme completo com um telemóvel, ou saber todas as coisas de determinada área de conhecimento com pouco ou nenhum dinheiro. Vai levar vários anos para nós compreendermos que trabalho importante pode ser criado com as possibilidades que temos hoje. Sou céptico, mas também encorajo as possibilidades, e penso sobre o que poderemos fazer com elas. E é realmente apaixonante estar vivo e poder participar no processo. Escrevendo com Helvetica, ou manualmente…

A minha opinião: 4/5 vejam este

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The Transporter (2002)

“The Transporter” (2002)

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pólvora seca

Isto está baseado em nada. Tudo explode, mas nada rebenta. Os elementos usados neste filme serão vistos, suponho, como as características principais nos filmes de acção desta primeira década do século. Temos uma cinematografia específica, baseada em tons azuis que funcionam como um tipo de imagem sóbria, dura, mesmo violenta. Isto supostamente marca o tom da acção, que por sua vez é coreografada, mas também dura, pesada. A edição tem um papel fundamental nisto tudo, muitas vezes não nos é permitido a nós, espectadores, compreender exactamente tudo o que acontece. Os filmes Bourne começaram esta tendência, creio, Casino Royale explorou-a com sucesso, assim como vários outros filmes. Não este. Este é uma colecção de truques inúteis, que não funcionam em nenhum ponto do filme, em nenhuma situação. Não há nada aqui. Copia mal as suas referências, vive de um certo estilo, mas esse estilo aqui está corrompido e é usado de forma incompetente.

A minha opinião: 1/5 afastem-se deste.

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