Arquivo da categoria 'Realizadores+Amantes'

Bitter Moon (1992)

“Bitter Moon” (1992)

bitter moon

IMDb

Exorcismo

O início da minha vida séria como espectador de filmes foi um momento especial. Ingénuo, e provavelmente não deliberado. Os filmes que vi nesses primeiros anos ficaram-me gravados como uma cicatriz inapagável. São especiais para mim porque em todos eles revejo perfeitamente as sensações que tinha no momento em que os vi. Por vezes, as ironias da minha vida  acabam por se misturar estranha e irresistivelmente com as histórias das histórias dos filmes. Alguns filmes, de Medem, Almodóvar, Wilder, até Turturro e este Polanski definiram com grande medida o percurso dos meus sonhos desde que os vi. Esta última década correspondeu a um determinado ciclo da minha vida, agora definitivamente encerrado. E este filme sobre o qual já uma vez esterilmente escrevi reassume um papel importante para mim. Por isso o revi ontem.

Revejo este filme filme praticamente uma semana depois da detenção de Roman. Este aspecto representa certamente um fechar de ciclo para Polanski, e não é irrelevante que eu tenha procurado o filme que iniciou, em cinema, esse ciclo. Também para mim se inicia uma nova parte da minha vida, e já que esta que agora terminou começou comigo a ver este, entre outros filmes, achei tornar o revisionamento um exorcismo do momento conturbado e de mudança que agora atravesso.

O que a mim me parece é que com Polanski, cada filme novo é (ou era) uma luta pessoal para extrair as ansiedades da sua vida nesse momento específico. Cada nova tragédia, ou cada novo acontecimento na vida dele, corresponde a uma nova obra, que ele solta, mais ou menos imperfeita, mas sempre totalmente alinhada com aquilo que ele é. Curiosamente, muito se tem dito acerca do autobiográficos que são os últimos 2 filmes dele, mas a mim parece-me que a verdadeira vida dele está reflectida, subtilmente, de forma pura e real nos seus filmes mais antigos. Este conta. Este está na fase inicial de um período que imagino feliz na vida dele. Este filme, com muitos elementos que o densificam, é sobre Seigner, a então jovem mulher de Polanski. 4 personagens, num cenário perfeitamente contido, ideia que adoro (alternado com uma história passada). 3 desses personagens estão obcecados pela quarta, precisamente a nossa amante no tempo que dura este filme. Claro que há um sentido de humor muito característico, que provavelmente Roman herda da sua ascendência polaca. Esse humor reflecte-se nas cenas de fantasia sexual, que ora são inapelavelmente ridículas e cómicas ou estão num limbo desconfortável em que não sabemos se devemos encará-las pelo que pretendem ser, ou pela ironia divertida que Polanski parece atribuir-lhes. Mas o humor também está nos intragáveis trechos de narração off que comprovam a mediocridade de Oscar como escritor Seja como for, no centro desta história temos uma femme, incontornavelmente semelhante a Sharon Tate, um exorcismo das tragédias do passado, um recuperar de vidas que ele perdeu, ou deixou a meio. Isto não é muito mais biográfico do que filmes que retratam temas dramáticos que ele também viveu? Muito mais significativo do que “O pianista” ou o “Oliver Twist”. Veremos que Polanski teremos quando esta história acabar.

Para mim, a vida era diferente quando vi este a primeira vez. Tudo era possível, tudo era sonhado. Eu, era o Oscar chegado a Paris, para quem tudo seria tão natural como sonhar, para quem a idealização de uma vida coincidia com a materialização dela, e seria apenas um passo inevitável a passagem de um para o outro. Agora há uma pessoa, e eu gostava de começar a minha nova fase divagando sobre ela, com tanta variedade e imaginação como todos os quadros que Polanski imagina para a sua amante aqui neste filme. Todas as possibilidades, todas as cenas. A dança, o sexo, a pose. Estes dois têm sido com certeza felizes. E por isso é que, pelo menos até há 1 semana atrás, Polanski deixou de precisar de fazer filmes como exorcismos. Agora só precisa de falar dos dramas, sem se sentir parte deles. É este Polanski que filma uma mulher porque a ama que eu aprecio. É esta sensibilidade e capacidade de nos dar a beleza verdadeira, aquela que nasce da sinceridade dos sentimentos profundos, vividos por quem tem coragem para isso.

Em 12 de Agosto de 2003 escrevi o comentário que se segue. A frescura ingénua dele comove-me agora. Não o quero apagar:

Deep and subject of analysis

I found this film extremely well done for several reasons I will nominate.

It debates some moral issues, how far is it acceptable for a society still full of consevative people, such as the one performed by Hugh Grant, to acept a relationship such as that of the main characters? It is totally at the border of normality (meaning normality not necessarily what’s good but what’s common). The film also touches strongly the theme of hipocrisie (probably wrong spelled, this word.) once more in the character of Hugh Grant who, despite showing all the time disgut and repugnace for the story he is being told, is always secretly desiring and wanting something equivalent to happen to him (this hipocratic attitude may be the result of growing up in a world and a society where this kind of sexual liberties and practices are repressed and in here once more we are taken to atrong moral issues which take us to rethink the whole thing…).

Apart from this questions this film makes me also think about the relationships between men and women… Is there an everlasting love? or at least an everlasting relationship?… Suddendly I recalled Schopenhauer who claimed that no man could be happy with only one woman… maybe this film is showing that he was right… the pace of the relationship between Mimi and the writer was so high that they just emptied all there possibilities very soon, but if we put that at the scale of a normal marriage, aren’t all the possibilities also tried at the end of 10 20 or 30 years? Can a marriage last happy for both till “death tears them apart” ?…

Besides this few topics of discussion (to which I could add some more if I just remembered them right now) I found this film very well directed with some beautiful scenes… also some strongs scenes that stay with us… Excelent performances for the three leading roles… Kristin Scott Thomas is also good in here but not so as in other films also because her somewhat small part in this one didn’t allow her to show more than she did. This film proves once more Roman Polansky as one of the greatest directors of our times, since he shows he is totally in control of every detail of direction (I enjoyed the increase of the speed together with the increase of intensity of the relationship among the couple). Good dialogues but specially excelent speeches of the writer whenever he becomes the narrator which is often… Also an excelent note for the soundtrack by Vangelis and other well known songs which appear along. A must see.

Este velho comentário no IMDb

A minha opinião: 4/5

Revolutionary Road (2008)

“Revolutionary Road” (2008)

revolutionary

IMDb

encher de vazio

Para mim Sam Mendes faz pouca coisa mal. Ele vê as coisas cinematograficamente, e consegue sempre propor um ambiente, e transcrevê-lo para o filme. Por isso os seus filmes são sempre sobre um ambiente, e o que ele tenta fazer é algo que aprecio imenso: basicamente o filme, como meio, deverá reflectir o filme, como conteúdo. O filme as desilusões, urgências e expectativas dos seus personagens para nós.

É isso que temos aqui: vazio. O filme é sobre personagens pálidos, vidas ridiculamente hipócritas, pessoas infelizes, com medo de enfrentar a sua infelicidade (“no one ever forgets the truth, you only learn to lie better”). A história é desprezável pelos factos em si (talvez o romance tenha tido um impacto social nos seus dias), o que a faz valer a pena é o ambiente que sugere, e que o filme completa.

Assim o esquema é simples. Mediocridade, estilos de vida burgueses de uma classe média ridícula. Falta de ambição assumida e aceitada. Paris como o sinónimo de auto-superação (“it didn’t have to be Paris”). O personagem de Kate descobre as suas próprias frustrações, e isso alimenta todo o drama. Agora, vejam como esta simplicidade está transcrita para linguagens visuais: -muito poucos cenários; a casa, o mato, o local de trabalho, e poucos mais com pouco tempo de ecran. -a estupidez e palidez sublinhada em cada diálogo, excepto pelas linhas de Winslet e Shannon. -a simplicidade nas escolhas da cinematografia. O resultado é muito muito eficiente. Vejam o filme, e verifiquem o que vos fica dele, apenas algumas horas depois de o verem… nada, apenas um sentimento de desconforto, inquietude, frustração por algo que parece faltar no filme. Tal como o personagem de Kate se sentia. Percebem? Kate Winslet é uma das melhores actrizes dos dias de hoje, o papel dela aqui era uma luta entre personalidade e submissão, vontade de transcender e rotina. Ela compreendeu-o tão bem.

Duas coisas interessantes:

Kate e Sam: casal actriz/realizador. Ambos são interessantes como artistas. Há amor. Podemos observá-lo, em cada frame. Ted Goranson sempre realça os realizadores que dirigem as suas esposas, e eu percebo. É uma espécie de motivação extra. Para lá das necessidades artísticas e intenções que despertaram a necessidade do realizador criar o filme, temos uma camada de paixão porque ele quer ligar a sua arte ao seu amor. É um conceito bonito, realmente bonito.

Não temos Conrad Hall aqui. Senti a falta dele. Ok, a intenção era fazer um filme altamente simplificado, por isso imagens fortes e icónicas não são tanto o jogo que Mendes queria jogar aqui. Mas senti falta da poesia da luz, da poesia dos corpos, e da colocação de corpos, e das caras que Hall tinha. Ele deixou-nos muito que apreciar, mas ele e Mendes estiveram tão perfeitamente ligados nos 2 projectos em que trabalharam juntos, que tenho a sensação de que algumas páginas não foram escritas e deveriam. Pena. Roger Deakins fez um trabalho competente, a minha referência a C.Hall não é uma desapreciação pela cinematografia deste filme.

A minha opinião: 4/5

Este comentário no IMDb


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve

Categorias