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“Alfred Hitchcock Presents: The Case of Mr. Pelham (#1.10)” (1955)

“Alfred Hitchcock Presents: The Case of Mr. Pelham (#1.10)” (1955)

ah presents

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género: desconfortável

Ando-me a alimentar destas pequenas aventuras. Mesmo que já tivesse obviamente ouvido falar desta série, nunca a tinha tentado. Para já vi uma meia dúzia de episódios, e por casualidade vários deles realizadores por Hitchcock. Este é um deles. Depois de ter visto estes episódios, considero que eles merecem comentários individuais, apesar de me parecer razoável considerá-los parte de uma “série”. Ou seja, bem para lá do genérico imortal, o esquisso do Hitchcock que Alfred, ele mesmo, desenhou, e a neste momento inseparável banda sonora, há algo em cada episódio (pelo menos os que vi até agora) que os une. Ainda não sou capaz de dizer rigorosamente o que é, mas aparentemente e em geral, cada episódio tenta brincar com as noções básicas do género mistério (a casa cinematográfica de Hitch), misturado com o nonsense e o bizarro. Não assume demasiado estes dois últimos, não tanto como Twilight, mas parece-me que têm maior interesse visual do que os de Twilight, ou não fosse o patrono desta série Hitchcock. De qualquer forma, os episódios são desiguais, e bastante diferentes na sua concepção, diferentes escritores, diferentes realizadores, diferentes actores. Por isso vejo-os como curtas, parte de um universo maior onde elas existem juntas.

Este Mr Pelham é um exemplo muito bom e equilibrado dos diferentes géneros que eles usam. Talvez por isso começo os meus comentários aqui. A direcção de Hitch é bastante discreta. É competente, claro, totalmente destacada de quaisquer valores televisivos banais – que aliás, há 50 anos provavelmente não existiam tão enraizados nas mentes das pessoas como hoje – mas à excepção de alguns planos movimento, perfeitamente executados, o trabalho de câmara é normal. Esses planos movimento são na verdade notáveis, por isso reparem neles, normalmente começam as cenas, com um certo enquadramento, que indica um certo ambiente, e esse enquadramento é corrigido através do movimento da câmara para nos fazer encontrar algo que interessa, como quando Ewell entra pela primeira vez no clube, a câmara ajusta a nossa atenção para Ewell, e põe-nos na acção. A subtileza é notável.

Mas o interesse está na narrativa, a própria história. Tenho a sensação que a ideia aqui era enganar-nos e fazer-nos acreditar que estávamos a ver um caso de polícia, um usurpar de identidades, apenas para nos deixar cair na estranheza absurda do inexplicável. No final, não sabemos o que é que vimos, e podemos vir a não confiar no que vemos. Quem era o Pelham real? Quem era o Hitchcock real, no final? Como se isto fosse uma espécie de “being malkovich” curto.

Funciona, não é fascinante para lá da piada de sentir o ambiente, mas é bom. Ewell… não sei como é que ele conseguiu ser o homem a espreitar por baixo da saia de Monroe. A actuação dele é tão ruidosa e denunciada que dói. As intervenções de Hitch são impagáveis.

A minha opinião: 3/5

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“House M.D.: Broken (#6.1)” (2009)

“House M.D.: Broken (#6.1)” (2009)

house

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sobre o ninho da TV

Isto é um desvio agradável do caminho linear, bem conhecido, e imutável da série de tv e do seu personagem principal. Este é o problema de séries que desenvolvem os mesmos personagens ao longo de um número enorme de episódios: eles não podem realmente “desenvolver” personagens, têm de dar-nos a sensação de que os personagens estão a mudar, de que os personagens têm um arco de evolução, mas não podem retirar-lhes determinadas características fundamentais, que fazem as audiências apreciar a série em primeiro lugar. Por isso este tipo, House, terá sempre de ser brilhante, azedo, antipático, no entanto com “bom coração” e atractivo. Vamos lá ver, quantas possibilidades temos com estas características? Eles encontraram uma fórmula, tal como a maioria das séries o faz, algo assim: cada episódio apresenta um caso médico raro, House e a sua equipa têm de encontrar a solução, enquanto resolvem as suas vidas, individuais e colectivas. Depois de 4 épocas e meia, eles pensaram que isso já não chegava, por isso começaram a pôr os mistérios médicos no próprio House, eventualmente levando-o ao colapso onde o encontramos no princípio desta 6ª época. Por isso, este episódio (duplo) é como abrir uma janela e deixar ar fresco entrar. Temos o House, e na verdade até temos algum desenvolvimento (muito) básico de personagens. Para fazer isso, somos totalmente retirados do ambiente habitual das épocas anteriores. Por isso, isto é como um telefilme centrado num personagem que já conhecemos. Podemos vê-lo com um grau de autonomia que nenhum outro episódio tem. Este episódio (quase) se aguenta sozinho. Suponho que é suposto ser assim, e por isso é que eles puseram aqui Franka Potente, uma actriz de cinema real, num papel principal, para tornar a peça credível como unidade autónoma. Eles concebem um conjunto de tipos loucos, banais mas credíveis, e assim seguem a fórmula “voando sobre um ninho de cucos”.

Para este episódio duplo, simplesmente, eles elevaram os valores de produção, e deram um cuidado especial à fotografia e iluminação, e em alguns momentos o enquadramento. Isto confirma a minha ideia. Mas o problema é que Katie Jacobs não é uma realizadora real, ela enquadra e edita tudo com a mesma mundanidade das séries, que funcionam como linhas de produção, não como arte real. Este “filme” é inútil como filme, apesar do esforço. E apesar de Hugh Laurie ser credível e ter a simpatia do público, o seu personagem é um personagem de tv, nascido para a tv. Transpor o House para o cinema é tão curiosamente estranho como vermos um médico viciado em drogas e genial no num manicómio.

A minha opinião: 3/5

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Suknickár (2005)

“Suknickár” (2005)
(Skirter)

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tecidos

Este é um filme feito por um tipo que não é um cineasta assumido. Ele gosta de tentar meios diferentes, que vão desde a rádio até ao filme, da colagem à palavra escrita. Por isso deveremos esperar uma certa liberdade, ou independência dos códigos cinematográficos normais, que os cineastas reais seguem. Isso é algo que me fazia logo querer ver este.

Gosto do que foi tentado aqui. Uma espécie de sensualidade, alcançada a partir de visões parciais do corpo feminino. Provavelmente essa é a própria definição de sensualidade, e foi tomada literalmente aqui. O facto de que o filme é uma curta, e não obedece a um guião linear ou completo protege esta visão, já que não há na realidade personagens (femininos) para serem desenvolvidos. O resultado é que podemos imaginar seja o que for, e será sempre mais perfeito do que a realidade (independentemente do que fosse) de termos caras para corresponder aquelas pernas tão cuidadosamente fotografadas, meio tapadas por tecido também meticulosamente fotografado, de diferentes texturas e vistos com diferentes níveis de pormenor. Pelo é tecido, e torna-se tecido em muitos momentos.

Por isso a ideia básica era boa. Mas já o vi melhor feito, por este mesmo realizador. “Prílepeck”, que eu vi há 2 anos num grande ecran, é mutio mais eficiente, e creio que isso tem a ver com duas coisas: -a história básica era mais carinhosa em prilepek, porque ele aí centrava as coisas num tipo que incidentalmente procura o amor, nas pernas das mulheres q passam. Por isso ali ele alivia a obsessão pelas pernas, e isso realça a sensualidade. -aqui o filme é acção real, pequenos planos, algumas vezes abstractos, mas acção real. Em “prilepek” tinhamos stop motion. Cenas reais captadas com uma câmara fotográfica. Nada de 24fps, ao invés tínhamos pedaços de realidade, que nos davam ainda menos para ver, e mais para imaginar. É um truque eficiente, que não temos neste filme, e isso quebra o efeito, para mim.

A minha opinião: 3/5

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Tango & Cash (1989)

“Tango & Cash” (1989)

tango cash

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Arma Mortífera + Die Hard

Isto é velha guarda agora. É bom ver, nesta altura já tem o pó que dá sabor aquilo que normalmente é conhecido como “clássico”.

O estranho aqui é que se este filme fosse feito hoje, dificilmente seria considerado acção. Tirando a última cena, de “vejam-me a disparar” vulgar, a maioria do filme passa-se com diálogos engraçados e incisivos. Isso acontece porque o filme está construído na tradição Arma Mortífera. Dois personagens, personalidades opostas, unidos pelos ideais de justiça, separados pelos seus métodos. Uma mulher pelo meio, convenientemente colocada (como a irmã de Sly) para aguçar a disputa entre os homens (a filha de Glover na AM). A diferença é que em vez de Gibson/Stallone, aqui temos Stallone/Russell. O primeiro par era acção vs comodidade, e aí estava a piada; aqui temos dois tipos já conhecidos pelo aspecto físico, e a fricção vem da competição, porque cada tenta provar ser melhor que o outro. Num outro plano, é engraçado ver o filme porque tanto Sly como Russell riem-se do seu próprio personagem no filme, por isso temos um sentido de ironia e relaxe em relação aos filmes de acção dos anos 80 que me agrada. Tudo o resto vai com essa premissa, planos de estilo, concebidos para fotografar músculos e o diálogo suporta isso. Uma espécie de Rambo com o diálogo de Mclane.

A outra coisa que importa aqui é a curiosidade de vermos a realização de um antigo colaborador de Tarkovsky! Um homem que começou a carreira partilhando créditos na escrita dos filmes de um dos melhores realizadores de sempre, e que participou mesmo nas suas primeiras experiências realmente importantes. Depois, Konchalovsky foi para os Estados Unidos, e fez uma carreira com um pé em Hollywood. Isso já é surpreendente. Para além disso ele acaba por dirigir Stallone e Kurt Russell. Essas condições fazem este filme valer a pena em si mesmo. A desilusão é que aparentemente o que se poderia esperar de Konchalovsky e a sua herança russa não existe. A direcção é firme, mas não especialmente inspirada. Contudo a carreira dele é interessante pelas suas características únicas.

A minha opinião: 3/5

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Up (2009)

“Up – Altamente” (2009)

up

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quebrar o écran

Tinha algumas expectativas em relação a este. Não achei que pudesse ser tão meditativo como Wall.E, mas estava a espera de ver o que a Pixar poderia fazer. Eles são os líderes da animação digital, e praticamente todos os seus filmes trouxeram algo de novo, em relação à experiência anterior. Aqui, não esperava que o filme, no todo, fosse tão cativante como os últimos 2, mas relamente achei que podia ficar positivamente surpreendido com o 3d. A estrutura agradava-me: este era o primeiro filme deles em 3d, e o enredo básico parecia anunciar que desafio eles iriam aceitar: uma casa voadora, que viaja uma boa parte do globo, voa sobre cidades, aterra numa enorme e profunda cascata. Apenas pela descrição já é espacial. Já que tivemos o Ratatouille apenas há 2 anos, pensei e esperava que a abordagem aqui fosse espacial, apoiada pelas possibilidades do 3d. Bem, enganei-me. Afinal o filme é o mais plano de todos os filmes Pixar dos últimos 6 anos, ainda mais plano que Nemo (que eu penso que tinha possibilidades semelhantes e falhou de formas semelhantes). o 3D é um mero realçar de cenas planas, composições mundanas, e trabalho de câmara que não impressionaria nem que a câmara fosse real. Pode ser que eu estivesse desfazado daquilo que se pretendia aqui, do que o estúdio procurava, mas realmente esperava mais. O que quero dizer é, no cinema onde vi o filme, vi um anúncio em 3D, da Vodafone, que brincava com o logotipo esférico deles. Num dado momento, temos muitas esferas no ecran, e o 3D fá-las “saltar” do ecran, e parecer que me vão atingir. Esses 10 segundos estão mais próximos do que eu penso que o 3D consegue fazer do que todo o filme.

Bem, há coisas apelativas, a curta introdutória é, como costume, bastante significativa, neste caso tendo algo que ver com o acto de criar, como sinónimo de nascimento. Temos nuvens, que criam, e cegonhas, que entregam. Uma nuvem especificamente cria o que nenhuma outra faz, sempre seres perigosos, e a cegonha sofre todo o tempo. Interpretem como queiram, mas para mim é significativo se considerarmos os artistas (criadores) e a relação com uma audiência e a resposta às expectativas do público.

Visualmente, o filme é bonito, não texturado da forma sublime como estava feito em Wall.E, mas bastante arrojado na forma como usa a cor. Ainda penso que a Dreamworks está alguns passos à frente na modelação de caras, mas estes personagens estão cada vez mais vivos.

Creio que acharão o filme divertido, se é o que querem. Eu sinto falta de algum arrojo de outros filmes.

A minha opinião: 3/5

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He’s Just Not That Into You (2009)

“He’s Just Not That Into You” (2009)

not into you

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caminhos preenchidos

Transversalmente a comédias populares de largas audiências (O Amor Acontece), a trabalho sério e comercial (como Babel), ou a filmes de autor (Almodóvar), tem havido uma tendência crescente para investir o mundo dos filmes com uma certa ideia de ligações finas entre pessoas que ultrapassa a própria compreensão delas. A ideia de que estamos todos ligados com graus maiores ou menores de intensidade a muitas pessoas que não conhecemos. Em vez de termos qualquer tipo de Deus sobre nós que nos controla e decide o nosso destino, a divindade neste mundo é a coincidência. Acções casuais e imprevisíveis guiam as nossas vidas, como Johanson ganhar o prémio do supermercado porque outra pessoa lhe deu a vez. O resultado narrativo destas construções é que nos torna a nós, audiências, os cartógrafos de territórios desconhecidos, já que sempre detectamos quando alguma nova ligação é revelada (muitas vezes coisas queos próprios personagens desconhecem). É uma estratégia rica e cheia de possibilidades.

Gosto do molde, gosto da estratégia, porque permite uma infinidade de situações dramáticas, e bem dominada pode tornar-se uma espécie de neo-neo-noir (já aconteceu), onde avançamos um pouco na tentativa de atirar personagens para situações impensáveis. Dessa perspectiva, a da construção narrativa, este filme não é um exemplo especialmente interessante. Todas as ligações existem para justificar a presença de tantos personagens diferentes, sem que isso signifique que eles venham a ser confrontados, mais tarde, com essas ligações que nós conhecemos. Em vez disso, funciona aqui como uma forma de nos acenar com diferentes histórias, que não têm necessariamente de estar ligadas ou de haver essa possibilidade. É como uma exposição de relações ou, neste caso, de métodos de sedução.

A história em si é sobre vidas vazias, que procuram o preenchimento emocional, aqui simbolizado pelo ter um namorado/a. O exemplo paradigmático é a vida da rapariga que narra a história, discutivelmente a que está mais perdida, e certamente a que mais desesperadamente busca a “outra metade”. Todos os casos são distintos na forma como os personagens os enfrentam, e na sua conclusão, desde a narradora que tem o romance hollywoodesco que vende pipocas, até Johanson, que voluntariamente decide ficar sozinha.

É pálido e não particularmente interessante, mas gostei da coerência entre as não tão interessantes vidas que se contam.

A minha opinião: 3/5

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Lady and the Tramp (1955)

“Lady and the Tramp” (1955) (A dama e o vagabundo)

lady and tramp

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doce pó

Um filme com a história de relação com a audiência em geral que este desliga-se das regras que normalmente respeito ao comentar filmes. Quando escrevo, nunco pretendo fazer o que se possa chamar uma “crítica”. Em vez disso, tento isolar e apontar algumas poucas notas sobre coisas que fizeram o filme nos meus olhos, na minha mente, nas minhas emoções. Escrever ajuda-me a compreender, e essa compreensão melhora o meu visionamento. Assim torno-me (espero) um melhor espectador. Baseio as minhas opiniões nos filmes em si, só comento sobre o que vejo.

Porque menciono isto? Porque agora mesmo estou a comentar um filme que neste momento é mais uma memória colectiva que um filme em si mesmo. Revê-lo fez-me compreender que já não nos lembramos e falamos da Dama e o Vagabundo, falamos do que a nossa memória nos diz. No que diz respeito aos filmes de animação, eu pertenço a uma das últimas gerações para quem um certo número de filmes (muitos da Disney) pairavam sobre as nossas cabeças como o estereótipo de valores morais e de representação cinematográfica. O que significa isto? Significa que se não quisessemos avançar na nossa pesquisa, filmes como este era O filme. Uma espécie de dogma, intocável e verdadeiro sob qualquer ponto de vista. Tudo bem em relação a isso, porque temos a liberdade de entrar e sair do mundo desses filmes livrementes. Ler os comentários médios no IMDb sobre estes filmes enquadra o que acabei de dizer.

Eu preciso de voltar a filmes como este de vez em quando, é uma memória de infância. Mas muito do que eu recordo não está aqui. O filme é incrivelmente plano, especialmente agora que a Pixar nos induziu uma profundidade digital. Os personagens são modelados docemente, e realmente havia uma espécie de humanidade na forma como eles eram criados, por isso relacionamo-nos com eles de boa vontade. Mas o filme em si é muito mais pequeno do que a minha memória me dizia. A própria cena do esparguete, suponho que as rábulas e homenagens a ela a alargaram a um ponto que na verdade ela nunca teve. É impressionante como a percepção colectiva das coisas adultera a nossa memória delas.

Este foi um doce regresso a um mundo que não existe. No entanto é bom viver lá de vez em quando.

A minha opinião: 3/5

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Cockfighter (1974)

“Cockfighter” (1974)

cockfighter

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fundo branco

Tenho uma grande simpatia pelo tipo de cinema que a que este filme aponta. Respeito as intenções, gosto sempre de viver os ambientes que filmes como este tentam criar. Mas quando este tipo de filme falha, nunca é um falhanço glorioso, nem interessante. As coisas deslizam para campos aborrecidos e vazios.

No que toca à direcção e, para mim, actuações, este filme falha totalmente. Não porque seja incompetente, simplesmente porque não é cativante, não há uma ideia visual que Hellman tente explorar. Este é o seu único filme que vi até agora; aqui ele liga a narrativa ao personagem, o actor (que entra também em vários dos seus outros filmes). É o que certos críticos definem como “estudar um personagem”. Bem, eu acho que isso pode ser feito, se o personagem for interessante, e isso depende do quão interessante é o actor, como actor e como pessoa. Isto reduz drasticamente as possibilidades de ter sucesso com este tipo de filme. Para mim, Warren Oates não é suficientemente interessante para eu o seguir voluntariamente. Isto tornou o filme desinteressante no seu conteúdo, que é a vida de um simplório treinador de galos.

Mas algo redime todas as falhas. a cinematografia é discreta e linda em vários aspectos. Almendros era um dos cinematógrafos que magistralmente conseguia afastar-se do protagonismo e ainda assim construir um ambiente valioso no qual queremos entrar. Em parceria com Truffaut ele deu-nos alguns momentos impagáveis de fotografia minimal, no sentido em temos transcendência a partir de um certo “naturalismo”. Impressionante. Se virem este filme poderão ser levados a crer, como eu fui, que há partes nele que são trabalho burocrático que Almendros teve de fazer para narrar o personagem aborrecido que Hellman propõe, mas outros momentos são brilhantes e merecem ser vistos. Entre esses momentos estão as lutas de galos. Os grandes planos dos galos são lindos, e uma edição cuidada faz as cenas de luta realmente pesadas e duras. Os cenários interiores, quando associados a intimidades, são sempre confortáveis e evocam um certo ambiente. À parte dessas cenas, vocês vão querer ver uma específica: é junto a um lago, o protagonista e a sua amante acariciam-se, e falam sobre a sua vida e relação. O plano começa como um grande plano das suas caras, sobre um fundo totalmente branco. Depois a câmara lentamente abre o plano, revela o ambiente, e é aí que percebemos o lago. Tudo isto é feito com uma subtileza que é raro ver. Este plano ficará comigo por muito tempo.

A minha opinião: 3/5 vejam-no, pela cinematografia, apenas.

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Die Gebrüder Skladanowsky (1995)

“Die Gebrüder Skladanowsky” (1995)

skladanowsky

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movimento abstracto

Wenders diverte-se, e enquanto o faz reflecte sobre alguns princípios gerais do cinema como arte. Por várias vezes ele fez filmes interessantes que são em si mesmos objectos cinematográficos e reflexões sobre a natureza do objecto cinematográfico. A sua preocupação primária está nas imagens. Sempre que ele aprofunda a complexidade das suas narrativas, ele quer realçar as imagens. Esses são os casos do recente Palermo Shooting e do notável Amigo Americano: imagens que ilustram uma história sobre imagens. Quando ele não constrói essa narrativa inteligente e directamente sensível ao meio, ficamos com meditações puramente baseadas em imagens. Por vezes elas funcionam, outras arrastam-se.

Aqui funciona parcialmente porque o projecto, intencionalmente, não tem uma forma maior para lá da entrevista que a velha Skladanowsky dá. Todos os pedaços a preto e branco são construídos como episódios e dentro deles encontramos outros episódios (os filmes originais dos Skladanowsky). Aparentemente tudo começou como um projecto académico, e isso explicaria a falta de uma forma maior, assim como o falhanço de alguns troços pequenos. Isso não explica, contudo, o final quase insuportável.

Mas há algo que me interessa aqui. Wenders pega em algo que ficou esquecido quase no início do cinema: Imagens como movimentos abstractos, abstraídos de uma narrativa. Isso é algo que eu penso que merece algum tempo de exploração, e obviamente também Wenders o pensa. Assim, entre os velhos pedaços dos filmes pioneiros, interessou-me o troço da dança. Curiosamente, esse é o pedaço que recebe mais atenção mesmo na história infantil dos flashbacks em preto e branco. É o filme que teve de ser refeito. A roupa da bailarina ajuda ao efeito. É notável, como funciona no olho. Tenho gasto tempo a ver experiências como esta. Para além disso, há pouco mais que ver aqui. E achei totalmente mal utilizado o contraste entre o material a preto e branco e os pedaços a cor da entrevista, que tem um aspecto desconfortável de vídeo que me afastou. O p&b já tinha um aspecto granulado e velho, não era preciso promover um contraste tão acentuado para que se percebesse a ideia.

A minha opinião: 3/5

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Tarantellen af ‘Napoli’ (1903)

“Tarantellen af ‘Napoli’”  (1903)

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a outra opção

Ver estas velhas tentativas, o início do movimento por imagens, é sempre um privilégio. Estes filmes frágeis tiveram de viver 100 anos para chegar até mim por isso, independentemente do que contenham, devem ser mantidos como documentos vivos de tempos não tão filmados.

No entanto há questões fundamentais que devemos colocar ao ver estes filmes. Tínhamos aqui uma arte nos seus inícios, apesar de eu suspeitar que muitos dos pioneiros envolvidos não adivinhassem que estavam a começar mais que uma revolução técnica. Como arte, esta inovação tinha de lidar com a relação entre um criador, intermediado pela sua arte, e um observador. Nesse sentido, quais eram os temas? Hoje em dia, a maioria dos filmes parte da ideia que tem de contar uma história. Muitas das boas coisas feitas hoje lidam com a reinvenção das formas de contar essas histórias. Mas estes filmes primários e rudimentares normalmente lidavam com outra coisa: movimento visual. Literalmente, sem outras desculpas. O que tenho observado é que o cinema é uma arte inicialmente herdada e começada por pessoas que eram já artistas visuais, ou técnicos com preocupações visuais. Poetas, não romancistas. Por isso eles procuraram temas que fossem visualmente adequados à ideia de movimento. Nesse contexto, a dança era um motivo bastante usado.

Esta pequena peça é um filme desse tipo. Vi-o junto com outro do mesmo realizador, um filme de Wenders que explora o trabalho de 3 pioneiros alemães, e uma colecção de filmes do notável Paul Nadar. Todos estes filmes partilham a presença de números de dança como a chave para uma reacção visual. O incrível é que, apesar destes filmes terem bandas sonoras adicionadas, todos funcionam no total silêncio, sem a ajuda da música. Dança, ballet clássico, neste caso, funcionam no olho mais do que o fazem no ouvido. Isso é fantástico.

Neste número específico, não temos uma história para lá do contexto da própria dança, que trata a infatuação de um casal. Em vez disso temos pés, coreografia, que já não é representada para uma sala de audiência, mas para um ponto fixo, e compreendemos como isso afecta a dança. Para mim, esse é o interesse deste filme. Suponho que se é um bailarino ou alguém especialmente interessado em ballet clássico poderá encontrar aqui algum motivo de interesse em perceber o que mudou nesta área no último século. Eu vi-o pelo simples prazer de observar movimento abstracto, como uma pintura viva; este não é o melhor exemplo que vi ultimamente, mas é bastante interessante.

Estranho pensar que os “contadores de histórias” ganharam a batalha pelo estabelecimento das convenções nas mentes dos espectadores. Estranho mas compreensível. As pessoas gostam que lhes contem histórias, e o espectador comum lida mal com as abstracções quando elas os atingem como abstracções e não como abstracções disfarçadas (histórias!)

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve

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