Arquivo da categoria '2/5'

Les ventres (2009)

“Les ventres” (2009)

cinanima2009

Cinanima2009

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bach é singular, não serial

Este filme foi um falhanço enorme para mim, mas um interessante. Não é assim tão comum ver coisas assim, quando sentimos que vimos algo que ficou longe de me preencher, mas sabemos que o realizador queria fazer bem, e queria fazer algo ambicioso. Por isso, vou sempre preferir filmes como este em vez de trabalho copiado em série como muito do que vemos.

O filme está em território quase de terror. É um conto bem construído sobre como tudo o que é parte da nossa vida, neste caso a comida que consumimos, se vai tornando mais e mais artificial, até chegarmos ao ponto simulado de imaginarmos que nos estamos a comer a nós mesmos sem notarmos. Por isso temos um jogo curioso de escalas, em que o homem começa como comedor (de caracóis) até se tornar um canibal inconsciente. Pensem o que quiserem da metáfora, a mim não me interessa especialmente embora reconheça a validade do raciocínio. Mas é um bom tema dramático.

O que me interessou foi a música, a forma como foi deliberadamente cortada e integrada na narrativa. Ele escolheu Bach. Para mim, Bach é o zénite da música ocidental, para sempre insuperável na compreensão das possibilidades e no estudo dessas possibilidades, uma por uma, de uso de harmonia, ou melodia, ou ambos ao mesmo tempo. A peça que o realizador escolhe, o prelúdio nº2 do primeiro livro de prelúdios e fugas, é parte de um dos trabalhos mais importantes de sempre da história da música. É aí que Bach se endereça às suas ideias de sobreposições de linhas melódicas que funcionam tanto como frases independentes como harmonicamente. O que se passa é que parece haver duas formas de encarar Bach: uma é considerá-lo um compositor altamente racional que, através dessa racionalidade atinge uma transcendência mítica, religiosa, do outro mundo. a outra forma é considerar Bach pela sua importância no desenvolvimento da música ocidental, mas compreender a música como mecânica, sem alma, até repetitiva, o que o torna um compositor de interesse histórico. Para mim ele é a primeira situação. Este filme assuma a segunda versão, e é aí que me separo. Bach como a banda sonora pervertida de um mundo canibal, revirado do avesso e decadente? Não, não me parece. Apreciei o esforço de transformar a música para a fazer corresponder ao contexto, mas não aceito a associação com repetição, mundos frios, ruas vazias com fachadas repetitivas, mesas de jantar enormes onde todos parecem iguais e comem o mesmo. Para mim isto não é Bach.

A minha opinião: 2/5

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Blow (2001)

“Blow” (2001)

blow

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Depp merecia mais

Estava à espera de uma coisa diferente aqui. Creio que fui enganado pela imagem chave associada a este filme, uma com Depp e Penélope deitados lado a lado, a olhar para nós, sobre um fundo vermelho. A imagem disse-me que eu ia ver um filme sobre pessoas, sobre duas pessoas, eventualmente ligadas, eventualmente apaixonadas. Eventualmente eu ia ver uma história de amor, um filme centrado numa relação.

Foi uma promessa muito melhor que a desgraça que o filme é. Absolutamente inconsequente, tira-nos tempo e não nos dá nada em troca. É totalmente incompetente em tudo, excepto pelo elemento redentor que é ver Depp e Franka Potente a actuar.

O filme segue totalmente o modelo de filme de gangsters de Scorcese, aquele forjado no Goodfellas. É uma mistura de estilo, uma certa ideia de charme na máfia, associada à violência que vem com isso. Na prática, seguimos um certo personagem, e entramos em vários aspectos da vida dele. Literalmente entramos na cabeça dele, já que a voz off é um elemento importante para fazer isto funcionar. Entramos na cabeça dos personagens tanto como entramos na mecânica do mundo que nos é mostrado. Uma referência claro a isto é que temos aqui Liotta a representar o pai de Depp, o mesmo Liotta que era o personagem de Depp em Goodfellas. Vêm? O que se passa é que, com Goodfellas, esse mundo era polido, brilhante, tão sedutor como decadente. Os personagens eram peças reluctantes de um inevitável jogo de xadrez. E nós eramos um deles. O filme era visceral, a violência era inevitável. Aqui tudo é preguiçoso. Não vale a pena estar neste filme, não me interessa nada do que vejo. O mundo do filme é incompleto, não sentimos pulso verdadeiro em nada do que nos é dado. Não temos amor ou amizado, apenas sexo e palavras amigáveis. Não temos violência, só murros e truques, não temos comprometimento, as coisas simplesmente acontecem.

Mas no meio de tudo isto, temos Depp, e uma muito interessante e pouco exposta Potente. Os únicos momentos puros do filme são aqueles em que o ecran é partilhado pelos dois. Há compreensão mútua entre eles, que ultrapassa o guião, ou as frases ordinárias que eles têm de dizer. Ultrapassa a vista curta dos produtores. Infelizmente, Potente não aparece o suficiente, e é-nos retirada do ecran demasiado cedo. Depp luta para existir como artista no resto do filme. O contraste entre ele e os outros mostra-me que eu queria estar a ver outro filme, onde alguém realmente se importasse com o que Depp pode fazer. Não este. Este é o filme errado. Penélope Cruz aqui é só gritos, aspecto físico (que aliás é usado de forma nada lisonjeira), e o contraste com o personagem de Potente. 2 das 3 mulheres que definem a vida de Jung (a outra é a filha). Penélope faz essencialmente o que ela pena que deve ser feito, e isso é bom quando o realizador sabe onde quer chegar (como Almodóvar ou mesmo Woody). Aqui não. Precisávamos de um filme em que Depp estivesse deitado lado a lado com Potente, e essa imagem tivesse alguma importância.

A minha opinião: 2/5

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The Shock Doctrine (2007)

“The Shock Doctrine” (2007)

shock doctrine

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península das flores

Como cinéfilo, a primeira questão que se me coloca em relação a este filme é o que é exactamente isto: uma curta? um anúncio publicitário a um site? um alertador de consciências? Talvez se o realizador fosse mais anónimo o filme caísse definitivamente entre o segundo e o terceiro. Mas eu considero que Cuarón terá ambições cinematográficas em seja o que for que faça. E na verdade o que ele tentou aqui é bastante interessante, e já foi conseguido antes com uma perfeição insuperável há 20 anos, por Jorge Furtado.

Para mim este filme é uma curta que, para funcionar, tem de obedecer a regras de publicidade. Por isso tem necessariamente uma mensagem curta, que tem de atingir o espectador e ficar com ele, e não deixar qualquer tipo de dúvida sobre o que os realizadores querem passar. Aqui essa mensagem é simplificada ao mínimo, já que é suposto consultarmos o site a seguir, e os textos de Naomi Klein depois de o vermos. Por isso, afinal de contas isto deve ser un anúncio.

Que problemas temos aqui? O filme vai directo ao assunto, talvez demasiado. Tudo nos é dado sem a mínima preocupação de saber se vamos acreditar ou se temos argumentos para acreditar. Eu aprecio a Naomi. Talvez ela carregue demasiado na tecla da conspiração, que sempre me causa suspeitas – tenho teorias da conspiração contra os teoristas da conspiração. Mas em geral, creio que ela é uma pessoa lúcida e que as ideias dela são fundamentalmente honestas, e já agora, provavelmente bastante perto da verdade. Mas aqui nesta curta, é suposto acreditarmos em tudo que nos é dito, sem raciocinarmos por um segundo. É um produto anti capitalista que funciona com as mesmas ferramentas do sistema capitalista. É aquilo que combate. No entanto, eu estaria disposto a acreditar que 6 minutos e meio não chegam para estabelecer uma teoria ou para me levar a acreditar nela, mas em 1989 Jorge Furtado construiu uma em 13 minutos. Vejam esse filme. É perfeito, é credível, cada linha, cada opinião que nos dão, e é suportada por conceitos adjacentes. Raciocina connosco, e apela aos sentidos no processo, é perfeitamente balançado, o filme. Mas lá está, Furtado era um publicitário, não um realizador, ele tinha experiência com mensagens comprimidas.

Este filme não vai desiludi-los totalmente, mas vejam “Ilha das Flores” para ver este feito na perfeição.

A minha opinião: 2/5

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X (1963)

“X” (1963)

x ray man

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caleidoscópio

Parece-me que houve uma tentativa válida e honesta neste filme, de fazer algo eminentemente visual. A história tem a ver literalmente e unicamente com visão, é sobre o que as pessoas vêm, o que poderiam ver, e como isso afectará o seu mundo. Assim, temos o Frankenstein e o monstro no mesmo corpo, um médico obcecado com ver sob a superfície. A metáfora é bastante clara e básica, mas apesar disso é tolerável: aquele que quer ver tudo acaba por ver nada. Toda a luz é equivalente a nenhuma.

O problema, provavelmente, é a distância enorme entre as ideias dos escritores e a solução visual encontrada pelos realizadores. Eu sei que este filme tem um baixo orçamento, feito pelo mestre disso, mas também me parece que o dinheiro, ou a falta dele, dificilmente pode tornar-se a desculpa para tentativas desinteressantes de fazer um filme visual. Não é a pobreza de um cenário ou a fotografia básica que desviam os bons realizadores de tentar coisas interessantes. Para lá disso, este filme não é assim tão barato. Mas o problema é que os planos são concebidos de forma banal, muito ortodoxos, feitos para cumprir calendário e não para tentar ser imaginativo.

No entanto há aqui uma tentativa interessante, ainda que falhada. Suponho que, porque isto foi feito nos anos 60, o rock progressivo era apelativo para a juventude, o alvo maior deste filme, há uma tentativa de colocar o raio x de Milland como uma ilusão psicadélica. Por isso todos os planos “ponto de vista” são vistos como uma decomposição abstracta da realidade em cores, com um efeito adicional de caleidoscópio. Os momentos em que esses pedaços são inseridos são feitos como partes delirantes de Xavier. Não me parece que seja suficientemente interessante para eu dar mais atenção a este filme, mas apreciei o esforço, é o melhor que temos aqui.

Visão e transcendência. Ciência e religião. Neste caso, eu não me importaria com essa ligação, é inconsequente aqui.

Apreciei os pedaços cómicos, quando Xavier vê as pessoas nuas a dançar. Funcionaria de forma perfeita se pudessem mostrar tudo, não apenas os pedaços inúteis como aqui, mas tudo bem.

A minha opinião: 2/5

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La noche del terror ciego (1971)

“La noche del terror ciego” (1971)

noche terror

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bate na mulher, e espera que te mordam

Em nenhum outro género como a “série b” temos a paixão original dos criadores tão directamente transposta para as audiências. Está tudo ali. Talvez porque há pouca mediação na produção destes filmes, eles são a cara dos criadores, vê-los é como estar lá quando eles foram feitos.

Outra coisa incrível nestes filmes é a quase total liberdade dos seus criadores, em relação às audiências. O que quero dizer é que, dado um determinado género, “terror” neste caso, sabemos que as pessoas que o procuram querem um certo número de elementos. Mas depois desses elementos (normalmente visuais) estarem garantidos, os realizadores podem fazer o que quiserem. Claro que temos de levar com os baixíssimos valores de produção, mas isso é parte da experiência. É a paixão que importa, o facto de que o filme Tenha sido feito conta. E claro, especialmente após tantos anos, todos os aspectos falsos da produção, das vozes à caracterização são adoráveis, um trabalho de amor de pessoas que adoram o que fazem.

Assim, considerem o género terror, estes filmes vão desde o “susto no escuro” até ao trabalhar de um ambiente. É isso que temos aqui. O filme investe tudo em atribuir uma aura misteriosa à aldeia abandonada, que é na verdade um convento. Cada cena fora do local fala sobre o próprio local, a forma como todos parecem ficar assustados com a simples menção do nome da terra faz-nos querer descobrir os seus mistérios. Assim, temos paisagens campestres bonitas, personagens que circulam por elas por razões aparentemente incompreensíveis, uma história passada incongruente que envolve as duas personagens femininas principais, e que implica lesbianismo, certamente para motivar a filmagem do flashback (aí estão as tais demonstrações sexuais que as audiências querem). Sexo, velhos mitos, contos esotéricos, velhas múmias a circularem.

E o convento. É aqui que as coisas começam a desiludir para mim. Isto porque eles escolheram um grande tema, templários, mas não conseguem levar a exploração visual ao nível da promessa. Os templários têm uma tradição profunda de esoterismo, do oculto, e isso reflecte-se em vários níveis, e para os nossos olhos contemporâneos, a face mais visível desse esoterismo é a arquitectura deles, o que sobra dela. Agora, se não o sabem, a certa altura os templários foram perseguidos e mortos e oficialmente extintos e rechaçados por todos os países da Europa, com a excepção da Escócia e de Portugal. Sob diferentes nomes, eles continuaram em Portugal a sua actividade, e na verdade tornaram-se anonimamente fundamentais no que se seguiu, as empresas marítimas e o início da globalização moderna no século XV. O que eles fizeram foi enorme. Por isso, mais do que qualquer outro sítio, Portugal tem uma grande concentração de lugares mágicos, locais esotéricos, arquitectura de influência templária. Confiem em mim, já estive em muitos desses sítios e senti-os lucidamente, são incríveis. Mas neste filme, Ossorio escolhe filmar tudo em Portugal, excepto o único sítio que interessa, o velho convento, que ele filma em Espanha, e que não tem nenhuma relação com os templários. Que pena. É essa a minha queixa. Excepto pelos velhos arcos de uma igreja degradada que ainda se seguram, não tem interesse o sítio, são velhas pedras e velhos pedaços de paredes, sem aparente significado. Em Portugal, e filmou perto de locais incríveis, como pôde não usá-los? Isso seria algo de “culto”. Mas não, não temos nenhum do ritualismo circular da arquitectura templária. Imaginem aquelas múmias cegas a representarem os rituais dos cavaleiros originais. isso seria assustador, independentemente da falsidade das vozes, ou da artificialidade dos bonecos.

O machismo é gritante, e seria cómico se não correspondesse mesmo à realidade das sociedades espanhola (e portuguesa!) há 40 anos. Cada homem existe para dominar as mulheres que o rodeiam. Temos o tipo rude, bigode, bate nas mulheres, viola-as, e ainda consegue ser desejado por elas. E temos o playboy retro que seduz duas ao mesmo tempo. As mulheres são objectos, as camisas são rasgadas para que os seis possam aparecer. Bem, isto é exploitation básica, mas parte do macho não é. Era mesmo assim.

A minha opinião: 2/5

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Victory (1981)

“Victory” (1981)

victory

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dança aborrecida

Este filme mistura desporto e ideologia, significando isso que o jogo (futebol neste caso) é a metáfora de temas morais e humanos. Aquele que ganha o jogo prova a justiça das suas atitudes. Nazis contra aliados, os nazis fazem batota. À parte de alguma ambiguidade no personagem de von Sydow, não há concessões na maldade dos Nazis. Não há possibilidade de redenção entre eles, nenhum personagem vale a pena. Desse ponto vista, da forma como lida com a perspectiva do público sobre a Alemanha Nazi (não as hierarquias de topo, mas os outros), o filme está exactamente no mesmo nível que filmes como Casablanca. É uma questão do orgulho vencer a maldade, da justiça prevalecer sobre a batota.

O filme começa com a marcação de um jogo de futebol, e termina com esse jogo, por isso todo o filme é a preparação para ele. O jogo é um evento teatralizado, tem lugar em Paris para que possamos ter uma audiência a apoiar o lado “certo”. Em termos dramáticos, isto tem o mesmo efeito que teria uma performance de teatro, ou um discurso público (como se a vitória aliada final fosse o equivalente do discurso de Chaplin no Grande Ditador). Então porque é que este filme falha onde tanto Casablanca e o Grande Ditador funcionavam? Bem, simplesmente porque este é de 1981, a guerra já terminou há muito, o regime Soviético estava já a viver os seus últimos anos reais, e o contexto é totalmente diferente. Já não interessavam declarações desesperadas de honra contra um regima que nessa altura era já de um tempo passado. Não creio que os filmes da 2ª guerra seja um tema morto, ainda hoje saem, renovados e frescos. Mas este apresenta uma abordagem simplista e directa que apenas era justificável durante a guerra, quando o horror nazi estava ainda em curso. Este, no seu contexto e na sua formalização é tão simplista e banal como um filme de propaganda.

O filme representa futebol. Creio que é tão complicado filmar futebol como dança. Mas o futebol foi muito menos usado, por isso temos (ainda) menos soluções interessantes para o filmar. O que se passa é que tanto a dança como o futebol implicam movimento, os jogadores mais elegantes são, eles mesmos, dançarinos, que consideram a bola, o adversário directo, e a situação geral no campo. Para capturar este movimento de forma interessante é preciso confiar numa certa fluidez da câmara. Isto pode ser feito de duas formas: -enquadramentos fixos, onde o movimento do jogador tem de fazer valer o plano (opção segura e aborrecida); -a câmara joga com o jogador, e com os outros elementos, e assim participa na “dança”. Sinceramente, nunca vi esta segunda opção bem feita com futebol. Este filme perde uma oportunidade incrível para o fazer. Isso porque nele participa um dos jogadores mais elegantes de sempre. Alguém que dançava como ninguém antes ou depois dele, não tão fluido como Maradona (ou Messi), mas eventualmente mais excitante no momento do “um para um”. Ele faz alguns truques curiosos para a câmara, mas nenhum é aproveitado de forma interessante pela câmara, e esses momentos perdem-se no aborrecimento geral do filme. Gostava que isto tivesse sido feito bem.

Isto seria apenas um desapontamento menor, mas o que se passa é que este filme foi realizado por alguém que costumava pensar em cinema, para lá de meramente realizar. Huston fez coisas importantes. Mas a verdade é que aquilo em que ele era especial era no lado narrativo, na forma como a história é formada, e como é contada. Para além disso, é sabido que para o final da carreira dele ele foi várias vezes um operário a trabalhar para o cheque. Pena.

A minha opinião: 2/5

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Valkyrie (2008)

“Valkyrie” (2008)

valquíria

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ilustrações

Não encontrei aqui nada de que não estivesse à espera, e nada do que eu esperava encontrar estava ausente. Isto é uma má premissa para comentarmos um filme. O que se passa é que não espero muito de Bryan Singer. Sim, ele deu-nos “os suspeitos do costume” que tinha algum interesse narrativo na forma como os flashbacks eram usados e na forma como redefenimos tudo o que vimos com a reviravolta final. Mas mesmo aí a direcção era de estilo, o que significa que ele prefere o efeito ao significado, a aparência à profundidade. Mas claramente ele é um daqueles tipos que se deixam levar pelo seu entusiasmo imenso, mas que depois não tem inteligência para submeter a suas emoções a uma estrutura coerente. Como ele pensam muitos espectadores, especialmente aqueles que se arrebanham para ver um filme como este. Daí termos um sucesso de bilheteira.

Mas se quiserem ir um pouco mais longe, não vão encontrar muita coisa com interesse no filme. O que interessa aqui é a história em si. O que estes tipos tentaram fazer foi grande, não pelo acto em si (certamente muitos alemães queriam fazer o mesmo se pudessem) mas porque eles eram alemães privilegiados, que poderiam ter simplesmente jogado o jogo Nazi. Claro que o fim da guerra estava perto e eles sentiam isso, por isso matar Hitler era também uma forma de proteger o futuro daqueles que o rodeavam. Em todo o caso, foi uma tentativa corajosa. Mas isso pode ser contado por um simples documentário como o que temos nos extras do DVD. O filme é uma mera ilustração dos eventos. É como aquelas encenações de eventos históricos dos documentários do canal História, com um orçamento (muito) maior. Mas tirando isso é totalmente inútil, a não ser por um reduzido valor de entretenimento.

Bem, os escritores tentaram construir uma tensão ao não nos permitir saber e verificar como estava Hitler depois da explosão. Essa tensão está relativamente bem feita, porque elege um narrador, e faz-nos viver as vidas dos dissidentes. Mas a verdade é que já sabíamos o que tinha acontecido, logo até isso falha.

Depois da incrível participação de Cruise en Tropic Thunder, eu esperava que ele continuasse a redimir a carreira, mas aqui ele volta à rotina habitual. Pena.

Se procuram cenários “realistas” e boas ilustrações, creio que este filme cumpre perfeitamente. Se não, creio que podem saltá-lo.

A minha opinião: 2/5

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Natural City (2003)

“Natural City” (2003)

2080

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mundo de papel plano

Nos meus comentários, por várias vezes referi o interesse que me desperta o cinema coreano actual (ainda não me sinto confortável para investigar o seu passado). Nos últimos anos, penso que alguns dos melhores filmes que se fazem são coreanos. Entre a vasta produção do país, temos 2 realizadores com quem me comprometo seriamente. Tenho pensado nas razões deste interesse porque os filmes coreanos sempre me despertam interesse, mesmo quando são maus. Para já, penso que o cinema coreano reflecte a cultura coreana. E essa cultura baseia-se num balanço rigoroso entre valores ocidentais e orientais. A Coreia, em muitos aspectos, é um país aparentemente governado por princípios ocidentais. No entanto, na raiz, é uma cultura oriental, com o mesmo berço do Japão ou da China. Por isso estes filmes que eu aprecio, para lá das suas próprias características, reflectem este balanço, e em essência duas visões de sociedade totalmente opostas.

Por vezes os filmes usam mais uma construção espiritual coreana, que para mim é ainda oriental no seu núcleo. Outras vezes, os filmes tentam maravilhar ao superar as estruturas narrativas ocidentais. Kim Ki Duk e Wook Park são os melhores exemplos em cada extremo. O motivo porque menciono isto é porque este filme está totalmente inserido neste contexto. Mas aqui o equilíbrio cai totalmente para o lado ocidental, e não o faz de forma satisfatória. O filme segue a cosmologia de Blade Runner, na forma como o mundo funciona, na forma como as pessoas desse mundo encaram a própria realidade do mundo e mesmo na forma física desse mundo. Mas onde Blade Runner tinha a ver com questões de memória, sonho-real, versões paralelas e constante redefinição de realidades, aqui tudo isso é trocado por uma história de “amor” puro. Nenhuma da ambiguidade de Dick, ao invés uma história plana telenovelesca acerca de um homem que ultrapassa as rejeições e se compromete a salvar a sua amante proibida, uma “replicante” que morrerá em breve. Não há truques na forma como a história se desenrola, não há surpresas para nos maravilhar, não há origamis aqui. De qualquer forma, também não temos o olho para a grande escala de Ridley Scott ao serviço da visão de Phil Dick. Temos uma mera celebração de cenários grandes, mundos estranhos (que não são fascinantes, já agora), e uma câmara lenta à maneira de Matrix. Há pouco que ver aqui.

A minha opinião: 2/5

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Batman (1989)

“Batman” (1989)

batman burton original

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recordação da escuridão

Eu vi este filme quando era muito novo, e já não o via há bastante tempo, por isso tenho uma relação pessoal com ele. Eu evolui e o filme evoluiu comigo, na minha mente.

Realmente passou bastante tempo. E a memória que tinha dele é muito mais obscura do que o filme mostra. Porquê? Eu mudei; os filmes mudaram. É por isso. Supõe-se que este contém um mundo negro, muitos chamam-lhe gótico. Sim, tem um ambiente negro em vários pontos, Burton é um especialista em produzir certo tipo de ambientes. Mas já não funciona agora como um mundo negro de mentes negras, se é que alguma vez funcionou. Agora este filme tem a atracção dos filmes adolescentes:  sabemos onde tudo vai parar, mas queremos vê-lo de qualquer forma. E o mundo é mais brilhante que tantos filmes não especialmente celebrados por serem “negros” como este é. Suponho que isso tem a ver com a forma como a narrativa se constrói. Este filme apoia-se no aspecto visual, e isso normalmente é uma questão de moda. Muda, e quando muda, o filme vai segurar-se, ou não, baseado no seu conteúdo cinematográfico. Burton confia que mostrar o mundo vai fazer-nos entrar nele. Bem, eu realmente entrei há 15 anos atrás, agora apenas me lembro que o fiz, mas já não sei onde fica a porta. Suponho que Nolan, depois dos desastres de Schumacher, realmente substituiu com solidez a visão de Burton. Ele introduziu a instabilidade na narrativa, em “dark knight” ele construiu toda a narrativa em torno dessa instabilidade. Ele compreendeu como poderia suportar todo um mundo visual adicionando consistentemente reviravoltas, na verdade fazendo todo o filme ser uma enorme reviravolta.

A actuação de Nicholson é plastificada como o seu personagem. É baseada no charme individual, não numa mente perturbada. O seu vilão é um joker, mas sem ironia. Ledger realmente empurrou o personagem para os campos onde Brando ou Depp se movem.

É interessante ver este filme, já que mostra a ligação entre cinema, memórias cinematográficas, e as nossas próprias vidas.

A minha opinião: 2/5

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Mummies: Secrets of the Pharaohs (2007)

“Mummies: Secrets of the Pharaohs” (2007)

mummies

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imax 3D

Esta foi a minha primeira experiência com IMAX, e com 3D. Ando uns anos atrasado, eu sei.

Ter essa experiência foi o único motivo porque fui ver este filme. Fiquei, e ainda estou, abismado com as possibilidades do meio. Não poderia saber o que esperar, apesar de ter pensado várias vezes nisso. O que me fascinou não foi o “real” que a experiência pode ser, mas o “hiper-real” que ela se pode tornar. O cinema vive de realçar sensações comuns até níveis em que nós reagimos. Em cinema, as cores e os contrastes devem ser realçados, tal como as dinâmicas narrativas e dramáticas (como no teatro). O 3D, associado com o mega ecran abre novas possibilidades, é um potencial técnico que inventa toda uma área de lugares negros que os cineastas inteligentes podem explorar. Não é excitante? Desta experiência, recordo 2 aspectos que penso poderem ser de grande interesse.

Um é o poder de uma paisagem, não porque surge alargada, não porque é “real”, mas porque a imagem certa, editada na sequência certa, pode ter um impacto superior. Imaginem as explosões no Zabriskie Point do Antonioni, com todos aqueles pontos de vista, realçadas até ao limite que nos faz explodir a cabeça. Espero que a indústria e o mercado cinematográfico tornem o IMAX suficientemente viável para que seja utilizável para que os nossos “autores” possam pensar especificamente para ele, para explorarem a profundidade do meio, em vez dos efeitos superficiais que imagino foram usados até agora.

O outro aspecto é como este meio poderá revolucionar as relações entre espaço e cinema. Como poderemos reformular a forma como fazemos um filme tornar-se “espacial” através da forma como nos movemos num espaço. O que quero dizer é, mesmo num documentário com imagens mundanas como este eu senti o poder de nos movermos ao redor de um espaço. Claro que aqui temos a exibição da arquitectura egípcia, que vive do mistério, da exploração, e isso é altamente cinematográfico. E o filme por sua vez foi pensado para produzir alguns efeitos associados ao formato. Mas não pude deixar de pensar nas possibilidades. O que fariam os melhores realizadores? Que faria Orson Welles, se tivesse tido a possibilidade de filmar IMAX? Ou Hitchcock, ou de Palma, que ainda está por aqui e a trabalhar, quem sabe…

O documentário em si está nivelado pelo modelo do canal História, com a voz off que debita factos, imagens do que resta da velha civilização, e encenações de antigos acontecimentos. Mundado, excepto pelos efeitos pensados especialmente para funcionarem no formato, que são novos para mim, mas que suponho que se tornarão vulgares assim que repita a experiência suficientes vezes, com outros filmes.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve

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