Arquivo da categoria '1/5'

Bave circus (2008)

“Bave circus” (2008)

cinanima2009

Cinanima

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movimentos normais

As possibilidades da animação na construção de mundos diferentes ou simplesmente diferentes relações entre elementos comuns do nosso mundo (como neste caso) são infinitas. Um dos truques mais comuns é animar elementos do nosso quotidiano e estabelecer relações especiais entre esses elementos e nós. Lembro-me de um pequeno filme onde essa relação funcionava perfeitamente, In Memoriam, porque referia-se directamente ao tema: era sobre um marionetista cujas marionetas ganhavam vida quando ele não estava a ver, e cumpriam os sonhos mais queridos do seu criador. Aqui a associação é bastante baseada no simples jogo de escala dos caracóis em relação ao rapaz, e a simulação de um circo com as possibilidades de uma simples casa na árvore. Não é um cenário imediatamente fascinante, mas penso que era possível usá-lo para o que se pretendia. Mas o cenário não é suficientemente interessante, penso que a definição do espaço não é suficientemente contrastada, e falta alguma escuridão em todas as cores. Na verdade, há uma cena interessante: um caracol, que salta alto, a câmara começa a cena a olhar para baixo e gira até que vemos o caracol na contra luz, contra um buraco na cobertura da casa. Foi um bom momento porque a luz simula as luzes da ribalta de um circo. Tirando isso, os movimentos são bastante pobres, acho que nos dias que correm podemos esperar mais das animações digitais que deliberadamente trabalham temas de movimento como as acrobacias de circo.

A minha opinião: 1/5

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“Alfred Hitchcock Presents: The Gentleman from America (#1.31)” (1956)

“Alfred Hitchcock Presents: The Gentleman from America (#1.31)” (1956)

ah presents

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má escolha

Este não é um dos melhores episódios da série. Na verdade, o falhanço deste episódio provavelmente realça a pouca distância que há, neste tipo de história, entre um episódio estranho e agradável, e um nonsense simplesmente caricato e inconsequente.

O que retenho como aspecto dominante de muitos dos episódios é que nos é permitido definir o grau de manipulação humana ou eventos supranaturais inexplicados que ocorrem (ou esse grau é-nos revelado). Assim, neste caso, suspeitamos que o americano está a ser manipulado, mas também nos perguntamos se não estaremos nós mesmos a ser também manipulados. O enredo é previsível, mas deixa alguns pontos escuros, que poderiam ser suficientes para nos fazer ter dúvidas. Há realmente um fantasma? Será que os manipuladores iriam cair na sua própria armadilha e ser apanhados no meio de algo que não compreendessem? Será que o americano iria ultrapassar os trapaceiros e conseguir algo mais inteligente? Aparentemente eles escolheram a solução mais aborrecida. O americano faz exactamente o que os caçadores de dinheiro pretendiam, tudo acontece de acordo com o livro (não aquele que ele lê, antes fosse). Temos uma reviravolta menor, a de descobrir o que acontece ao americano depois da noite na mansão, mas em vez de nos darem ironia, eles moralizam. Má escolha, para mim.

Assim, o episódio falha no enredo e, para mim, falha em construir a tensão na casa fantasma. Isso tem que ver com direcção, mas também provavelmente devido ao próprio fantasma, que é ridículo segundo os valores de produção actuais, e por isso envelheceu mal.

A minha opinião: 1/5

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Driven (2001)

“Driven” (2001)

driven

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não é F1, é nascar

Corridas de carros e filmes. Desporto e filmes. Se pensarmos um pouco, é uma mistura poderosa. Desporto tem a ver com movimento, é como uma dança, e isso é cinematográfico, na verdade é um dos campos cinematográficos mais ricos. Tem emoção directa, o que significa que não sabemos o que esperar, mesmo que tomemos partidos. Há um aspecto forte de suspense que rodeia cada jogo, cada desporto, e as corridas de carros não são excepção. Mas há um enorme senão: ninguém (supostamente) sabe até onde chegará. Tudo pode acontecer no desporto, vive do momento, mais do que qualquer performance, ao vivo ou gravada, musical, teatral ou qualquer outra. Por isto, para manter a emoção do desporto viva e verdadeira, não podemos encená-lo. E não podemos fazer um filme sem termos praticamente tudo encenado. Aí está a diferença. Dança, música, teatro, tudo é performance, tudo tem a ver com fazer algo que estava já combinado. O cinema herda isto. Por isso é que precisamos de mentes interessantes (ou intuitivas) para termos arte interessante, quando mesmo os mais talentosos desportistas podem perfeitamente ser uns pacóvios intelectuais. Também é por causa disto que para mim é impossível, pelo menos com os meios que temos hoje, criar um filme (não documentário) que eficientemente junte desporto (qualquer um) e filme. Provavelmente por isso também é que os Wachovsky exploraram as corridas de carros confiando em novas tecnologias, porque sabiam que as ferramentas normais não seriam eficientes (ainda não vi “speed racer”). E sim, temos Chariots of Fire, mas aí o desporto é uma casualidade, e funciona como uma performance congelada, que a música realça. Filmes de desporto puros, não conheço nenhum que seja remotamente interessante.

Ainda menos quando temos a atitude deste filme. Isto é uma desgraça tão grande, muito para lá dos problemas da mistura entre desporto e filmes. Por isso temos Reynolds, a representar um ex macho herói das pistas, que é provavelmente o único papel que ele já representou. Temos Stallone, que é o velho herói de guerra, que volta à acção, para salvar o dia quando precisam dele. E temos um conjunto de outros personagens cliché, estrelas ascendentes, tipos que lutam para ser eles mesmos, e para se sentirem livres. Em todo o caso, vejam isto: todos os arcos pseudo dramáticos existem num mundo de relações humanas. Amor vs Sucesso, Orgulho, afirmação pessoal. Aborrecido, vulgar, feito num nível abaixo do tolerável. Não há a menor tentativa para filmar as corridas de uma forma interessante. É tudo explosões e lesões, moedas que ficam nos pneus, colisões, aborrecido, inútil.

Ah, a cena de salvamento pelos dois líderes do campeonato consegue parecer ridícula mesmo no meio deste filme ridículo.

A minha opinião: 1/5

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America’s Sweethearts (2001)

“America’s Sweethearts” (2001)

sweethearts

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vidas falsas falsificadas

Há um cliché comum nos comentários a filmes, normalmente feito pelo espectador médio, os alvos para filmes como este, que é algo como: é bom ver o filme porque me permite não pensar e esquecer o mundo real. Algo assim. Isto é um engodo, claro. Ninguém que pense vai parar de pensar mesmo em frente a um pedaço de entretenimento banal como este filme, e aqueles que normalmente não questionam as coisas, não o farão independentemente do filme que se ponha em frente a eles. Mas compreende-se o significado do conceito de “não pensar”, e este filme tem um lugar de ouro no (imenso) armazém de filmes concebidos não serem interessantes, apenas entretenimento. Isto acontece porque os criadores não puseram pistas interessantes para nós seguirmos, não há nada aqui.

Mas a verdade é que mesmo nos pântanos crescem flores, por isso há duas coisas em que reparei:

Uma é John Cusack. Ele é bom, e trás algo novo até a papéis desgastados como o que tem aqui. Ele tem uma forma estranha de se colocar entre a narrativa do filme e nós, audiências. Nem é uma pessoa real (como nós, espectadores) nem um personagem totalmente integrado no filme. Em vez disso, parece que ele é uma espécie de David Attenborough do cinema, alguém que está na cena de acção, mas confortavelmente protegido por uns arbustos, enquanto comenta a perigosa refeição dos leões. Ele é excelente.

Pegando nesta situação de Cusack creio que encontramos o cerne do filme. Temos 2+2 personagens que oscilam todo o tempo entre duas realidades distintas dentro do filme: a do estrelato, e a da “vida real” no filme. Absolutament etudo, todas as piadas, todos os pedaços de romance, todas as discussões, todos os pontos do enredo giram à volta da ideia de que actores famosos como os personagens de Cusack e Zeta Jones têm duas faces, duas vidas; uma que se mostra a todo o mundo, brilhante e polida, e a realidade aborrecida, infeliz, e não integrada. No final, Zeta Jones agarra-se à falsa realidade da fama, e por isso é que ela fica com o personagem espanhol, igualmente falso; e Cusack fica com o personagem de Julia Roberts, alguém que viveu na sombra do estrelato toda a vida, vendo e vivendo os ambientes das estrelas todo o tempo sem se tornar parte deles. Há um palco público onde todas as hipótese (por parte do público e dos personagens) tomam lugar. É uma regra de ouro deste tipo de filmes.

Assim, na minha maneira de ver, temos isto: a vida “real” dos personagens de Jones e Cusack está para o seu perfil como estrelas como este filme está para ideias cinematográficas interessantes. Aborrecido, mortiço, vazio, mas que tenta parecer brilhante, polido, e atractivo. Mas ele entretém, e mesmo se começamos a pensar nele, não vamos tirar muito dele, por isso creio que cumpre os objectivos.

A minha opinião: 1/5

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Murder at 1600 (1997)

“Murder at 1600″ (1997)

1600

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casa vazia

Mais uma mistura banal de cenas de acção desinteressantes com um ambiente de falso suspense associado ao enredo político.

O que se passa nestes filmes é que nenhum dos elementos que supostamente deveriam cativar-nos é minimamente interessante para fazer o filme valer a pena. Assim temos:

- a acção é um cheiro de acção, ou menos. Apenas umas poucas cenas de tiros, literalmente tiros, o personagem de Diane Lane é especialista em tiro, e todas as cenas de acção são aborrecidas e baseadas nisso;

- a história é vulgar e inútil. Vejam a estupidez disto: tem a ver com uns gajos que tramam o presidente dos EUA tramando o filho dele, ao implicá-lo no assassínio de uma das suas amantes. Dessa forma eles chantagiam o presidente, forçando-o a escolher entre a sua posição e a reputação da família. A ideia era substitui-lo para que os maus pudessem entrar na Coreia do Norte com meia dúzia de soldados para libertar outros soldados… Ah, e o cérebro do mal era um amigo e colaborador estreito do bom presidente;

- o ponto anterior não deveria interessar. Posso contar dezenas de filmes com enredos igualmente estúpidos que valem a pena o tempo, porque sobre esses enredos vazios colocam outras coisas interessantes. Mas aqui nada o suporta. Aquilo que o Wesley Snipes faz só funciona quando a escrita o permite (demolition man), a direcção é banal e aborrecida, nada para ver aqui.

Diana Lane tem uma presença. Ela não é uma actriz especialmente interessante, mas posa bem, e tem um olhar enigmático, que atrai. Ela teria sido uma grande femme fatal, se tivesse trabalhado há 60 anos.

A minha opinião: 1/5

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I Am Legend (2007)

“I Am Legend” (2007)

i-am-legend-bigposter

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Wayne + Harry Potter

Confesso que tinha algumas expectativas em relação a este. Não vi os filmes antigos que supostamente este referencia, mas apesar disso tenho grande simpatia por filmes contidos no espaço e nos personagens. Este tinha um bom princípio: Nova Iorque, totalmente abandonada, recuperada pela Natureza depois do colapso da humanidade, e usada apenas por um homem! As possibilidades visuais são fantásticas, e o arco dramático também, apesar de aqui o sucesso depender em grande medida do que o actor fizesse. Will Smith é um artesão, não um artista, e o que se pode fazer com um personagem assim está fora do campeonato dele. Também estava fora do campeonato de Tom Hanks, e mesmo Nicholson apenas se aproximou de fazê-lo bem.

Admito, o resultado visual satisfaz, eles resistiram à tentação de exagerar nos efeitos especiais e criar uma cidade mais selvagem do que deveria. Alguns pedaços de cidade foram realmente bem imaginados. Mas eles podiam apenas ter feito isso, mostrar-nos uma exposição, não precisavam de envolver a cidade com o enredo miserável, história, etc…

O maior problema é o absurdo de um personagem meio louco, que começa sozinho e termina como o herói de toda a humanidade. No caminho ele (1) descobre a cura para o vírus, sozinho! e (2) salva fisicamente a sua descoberta para que a humanidade restante possa continuar a viver e aprenda com o seu exemplo. Que herói! Ele sofre, ele sobrevive, ele tem moral, ele é cientista, ele é um mártir. Eu acho que isto podia soar exagerado se fosse colocado num western pre-Leone, mas aqui, agora, chega a doer. É um tipo de discurso directo que eu posso aturar em filmes antigos que tenham outras qualidades, mas que não suporto aqui.

Por isso o virus não mata apenas, em alguns casos transforma os humanos em vampiros, para que possamos ter a cidade vazia durante o dia, enquanto a noite nos dá caras assustadoras e desafios físicos para Smith, assim como explosões. Demasiado forçado, demasiado desfocado.

Os sons que Mike Patton faz para os vampiros são curiosos (li algures que ele criou os sons).

A minha opinião: 1/5

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Collateral Damage (2002)

“Collateral Damage” (2002)

colateral damage

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o bom e o mau

Este foi um dos últimos filmes do ‘governador’. É interessante a forma como o filme sublinha a abordagem simplista aparente do pensamento republicano americano.

É uma história de vingança. Um homem que perdeu a sua família às mãos de um terrorista; ele é o americano comum, oh ele viu a família morrer, ele culpa-se porque se atrasou. É banal e visto mais de muitas vezes. Ele retalia, faz o que um “grande americano” faria, e procura a vingança. Ele descobre algumas coisas no processo, descobre que a matança da sua família era já uma vingança, e prova que é melhor que os terroristas colombianos ao poupar a vida de uma mãe e seu filho. Este homem é superior não é? Agora, para irmos mais longe (**spoilers aqui**), a mãe cuja vida ele poupa faz jogo duplo e é afinal a peça central de um enredo de terror que ele pensava estar nas mãos do terrorista “mau”. A esta altura vocês não votariam no Arnie? deviam, já viram o que está em jogo. Suponho que por esta altura, Schwarzenegger já teria o cargo político em mente, por isso imagino que este enredo não é inocente. Especialmente não num filme lançado no ano seguinte ao 11 de Setembro. Devo admitir que um filme assim deve deslizar perfeitamente em mentes de manteiga.

A acção é aborrecida, vejam o Stallone, o Arnold ou o Seagal dos anos 80 para terem este melhor feito.

A minha opinião: 1/5

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Mankind Is No Island. (2008)

“Mankind Is No Island” (2008)

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enganador

Este filme é material danificado. Tudo nele parece confiável e poderoso, mas um revisionamento cuidadoso vai revelar o falso que é.

O filme nasce, aparentemente, de uma ideia visual inteligente, suportada pela edição. Imagens capturadas em duas cidades, que se misturam para nos dar uma mensagem. E a edição é a ferramenta cinematográfica chave para passar essa mensagem. Mas o engano é, para além de umas poucas imagens de pessoas sem abrigo e de verdadeiras cenas de rotina urbana, todo o material é na verdade palavras filmadas editadas para fazer frases legíveis. E todo o ritmo é dado Não pelas palavras filmadas, mas pela música que as suporta. Por isso, podemos ser levados a pensar que isto tem algum valor cinematográfico em geral quando, na verdade, é uma tentativa preguiçosa, disfarçada de trabalho amador honesto. Levei vários visionamentos para perceber o que estava mal.

Uma queixa menor é que a mensagem é paternalista, catatónica, sem garra. Diz-nos o que já sabemos e não o faz de nenhuma perspectiva interessante. Está embrulhada na noção estúpida de tratar os espectadores como crianças, de uma forma que nem mesmo as crianças (ou sobretudo as crianças) deveriam ser tratadas. Muitos espectadores gostam de ser tratados assim, e provavelmente é por isso que o filme teve o sucesso que teve. Eu não gosto.

Se querem um pedaço de edição onde as imagens são a chave da emoção e a música é só um suporte, vejam este anúncio:

Tirem o som num segundo visionamento e vejam como a edição se segura. Façam-no com este “mankind…” e vejam como o filme morre. O IMDb não lista anúncios comerciais, mas comparando o filme que estou a comentar com o exemplo que estou a dar, talvez devessem.

A minha opinião: 1/5

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Contrato (2009)

“Contrato” (2009)

CARTAZ FILME CONTRATO (final)

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a Ética e a Estética

É difícil sentir-me mais triste com um filme do que aquilo que me sinto com este. Queria tanto que este fosse pelo menos tolerável, mas queria ainda mais que conseguisse agarrar a dimensão da literatura que o suporta. Este filme é terrivelmente cego e não o esquecerei, pelas piores razões.

Dinis Machado era um homem notável. Um homem que viveu e, incidentalmente, escreveu. Era inteligente e a sua escrita, para além do Molero, preenche sempre os espaços que é suposto preencher. Ele sabia que as histórias de detectives e os filmes noir têm tudo que ver com a forma como construímos a história, e não com a história em si. Não é suposto preocuparmo-nos (e não o fazemos) com os personagens de um filme noir para além do papel que eles têm na narrativa. São seres abstractos, ali para cumprir um objectivo, fora da sua existência como personagens. Que feliz fico quando leio Machado, que bem e irónico ele era quando compreendia que era indiferente assinar McShade ou Pato Donald. Que bem ele distinguia entre os ossos e a carne.

Agora, se outra pessoa qualquer estivesse envolvida neste projecto terrível, eu não me importaria muito. Estou habituado à inabilidade comum em transportar a profundidade de certos escritores para cinema, na verdade acho notável quando isso é bem feito. Mas envergonha-me profundamente ver o notável Nicolau Breyner falhar totalmente nesta tarefa. Ele é um homem que compreende a actuação em cinema como apenas um grupo muito restrito de pessoas em Portugal compreendem. Claramente ele não compreende a realização, não controla o arco narrativo maior, e a prova disso é que os muito poucos momentos toleráveis nesta confusão estão centrados em pequenos pedaços de boas actuações (lideradas pela sua própria). Ele constrói um lugar para o seu personagem aparecer como a mente rejeitada, um homem que teve de viver da estética para secretamente gozar a sua própria ética. Que perto isto está da vida de vários bons actores portugueses. Nem tudo é mau, e fiquei contente que Cláudia Vieira acabasse por aparecer simpática, sem ser uma actriz. Talvez ficasse bem num bom projecto.

O filme é baseado numa história baseada em D.Quixote. Este livro é um monumento, Dinis Machado compreendia-o, assim como muitas gerações de escritores que enraizaram a sua escrita naquilo que Cervantes materializou. Borges certamente o fez, assim como Cortázar – apesar de Machado ser sempre muito mais associado ao primeiro, eu penso que ele é bem mais parecido com o segundo. De qualquer forma, as ideias de Borges de escrever sobre escrita (levada a proporções infinitas), histórias sobre contar histórias, são as águas em que Machado mergulhava. É aí que deviam encaixar as memórias deste hitman, é essa a importância simbólica da antiguidade neste filme. Não tem a ver com a história, tem a ver com as histórias com que tem a ver. Pensem nisso. Não é apenas a estética da história que se questiona. Fundamentalmente, isto tem a ver com a ética e os significados de contar histórias. Georgios Thanatos fala disso, é um dos pouquíssimos pedaços de diálogo que até contempla algo que interessa, neste guisado de reminiscências de guerra doentias, sobreexposição de corpos e mortes inúteis. Como pôde Nicolau Breyner não ver isto?

Um espectador português médio vai desprezar este comentário como inútil, pseudo-intelectual e vai suportar essa posição baseado no facto de que estou a avaliar uma peça de entretenimento como se fosse uma peça de cinema “sério”. Antes que votem “não” no IMDb, tenho a dizer que creio que não há entretenimento real sem pensamento sério por trás. Agora votem não.

Incidentalmente, em Outubro passado estava fora do país e não soube que Dinis Machado morreu nesse mês. Só o descobri ao ler sobre este filme. Dupla tristeza. Ele estava entre nós, agora não está. Este é um dia triste na minha vida de filmes.

A minha opinião: 1/5

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Zigeunerdans af troubaduren (1906)

“Zigeunerdans af troubaduren” (1906)

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dispensável

Este é outro filme muito velho, de Peter Elfet, que captura pedaços de dança de bailarinos clássicos profissionais, através do então novo meio de “imagens em movimento”.

A principal coisa que havia que lidar aqui, nesta fase, era a reconversão das coreografias para serem representadas para a câmara. Isso significa que eles tinham de actuar num espaço reduzido, comparado com o palco de um teatro, e actuar para um ponto específico, em vez de toda uma sala.

Este exemplo específico não funciona, os cenários concebidos não são minimamente cinematográficos, já que reduzem o espaço (apesar das árvores pintadas tentarem aumentá-lo) e trazem um ruído à composição que reduz a importância da bailarina e dos seus movimentos, que seriam certamente a única razão de ser do filme.

Vejam “Tarantellen af ‘Napoli’” para algo melhor do mesmo criador, ou vejam as experiências de Paul Nadar com os mesmo temas se quiserem ficar impressionados com estas experiências pioneiras. Para mim, este é dispensável.

A minha opinião: 1/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve

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