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Blow (2001)

“Blow” (2001)

blow

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Depp merecia mais

Estava à espera de uma coisa diferente aqui. Creio que fui enganado pela imagem chave associada a este filme, uma com Depp e Penélope deitados lado a lado, a olhar para nós, sobre um fundo vermelho. A imagem disse-me que eu ia ver um filme sobre pessoas, sobre duas pessoas, eventualmente ligadas, eventualmente apaixonadas. Eventualmente eu ia ver uma história de amor, um filme centrado numa relação.

Foi uma promessa muito melhor que a desgraça que o filme é. Absolutamente inconsequente, tira-nos tempo e não nos dá nada em troca. É totalmente incompetente em tudo, excepto pelo elemento redentor que é ver Depp e Franka Potente a actuar.

O filme segue totalmente o modelo de filme de gangsters de Scorcese, aquele forjado no Goodfellas. É uma mistura de estilo, uma certa ideia de charme na máfia, associada à violência que vem com isso. Na prática, seguimos um certo personagem, e entramos em vários aspectos da vida dele. Literalmente entramos na cabeça dele, já que a voz off é um elemento importante para fazer isto funcionar. Entramos na cabeça dos personagens tanto como entramos na mecânica do mundo que nos é mostrado. Uma referência claro a isto é que temos aqui Liotta a representar o pai de Depp, o mesmo Liotta que era o personagem de Depp em Goodfellas. Vêm? O que se passa é que, com Goodfellas, esse mundo era polido, brilhante, tão sedutor como decadente. Os personagens eram peças reluctantes de um inevitável jogo de xadrez. E nós eramos um deles. O filme era visceral, a violência era inevitável. Aqui tudo é preguiçoso. Não vale a pena estar neste filme, não me interessa nada do que vejo. O mundo do filme é incompleto, não sentimos pulso verdadeiro em nada do que nos é dado. Não temos amor ou amizado, apenas sexo e palavras amigáveis. Não temos violência, só murros e truques, não temos comprometimento, as coisas simplesmente acontecem.

Mas no meio de tudo isto, temos Depp, e uma muito interessante e pouco exposta Potente. Os únicos momentos puros do filme são aqueles em que o ecran é partilhado pelos dois. Há compreensão mútua entre eles, que ultrapassa o guião, ou as frases ordinárias que eles têm de dizer. Ultrapassa a vista curta dos produtores. Infelizmente, Potente não aparece o suficiente, e é-nos retirada do ecran demasiado cedo. Depp luta para existir como artista no resto do filme. O contraste entre ele e os outros mostra-me que eu queria estar a ver outro filme, onde alguém realmente se importasse com o que Depp pode fazer. Não este. Este é o filme errado. Penélope Cruz aqui é só gritos, aspecto físico (que aliás é usado de forma nada lisonjeira), e o contraste com o personagem de Potente. 2 das 3 mulheres que definem a vida de Jung (a outra é a filha). Penélope faz essencialmente o que ela pena que deve ser feito, e isso é bom quando o realizador sabe onde quer chegar (como Almodóvar ou mesmo Woody). Aqui não. Precisávamos de um filme em que Depp estivesse deitado lado a lado com Potente, e essa imagem tivesse alguma importância.

A minha opinião: 2/5

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The Shock Doctrine (2007)

“The Shock Doctrine” (2007)

shock doctrine

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península das flores

Como cinéfilo, a primeira questão que se me coloca em relação a este filme é o que é exactamente isto: uma curta? um anúncio publicitário a um site? um alertador de consciências? Talvez se o realizador fosse mais anónimo o filme caísse definitivamente entre o segundo e o terceiro. Mas eu considero que Cuarón terá ambições cinematográficas em seja o que for que faça. E na verdade o que ele tentou aqui é bastante interessante, e já foi conseguido antes com uma perfeição insuperável há 20 anos, por Jorge Furtado.

Para mim este filme é uma curta que, para funcionar, tem de obedecer a regras de publicidade. Por isso tem necessariamente uma mensagem curta, que tem de atingir o espectador e ficar com ele, e não deixar qualquer tipo de dúvida sobre o que os realizadores querem passar. Aqui essa mensagem é simplificada ao mínimo, já que é suposto consultarmos o site a seguir, e os textos de Naomi Klein depois de o vermos. Por isso, afinal de contas isto deve ser un anúncio.

Que problemas temos aqui? O filme vai directo ao assunto, talvez demasiado. Tudo nos é dado sem a mínima preocupação de saber se vamos acreditar ou se temos argumentos para acreditar. Eu aprecio a Naomi. Talvez ela carregue demasiado na tecla da conspiração, que sempre me causa suspeitas – tenho teorias da conspiração contra os teoristas da conspiração. Mas em geral, creio que ela é uma pessoa lúcida e que as ideias dela são fundamentalmente honestas, e já agora, provavelmente bastante perto da verdade. Mas aqui nesta curta, é suposto acreditarmos em tudo que nos é dito, sem raciocinarmos por um segundo. É um produto anti capitalista que funciona com as mesmas ferramentas do sistema capitalista. É aquilo que combate. No entanto, eu estaria disposto a acreditar que 6 minutos e meio não chegam para estabelecer uma teoria ou para me levar a acreditar nela, mas em 1989 Jorge Furtado construiu uma em 13 minutos. Vejam esse filme. É perfeito, é credível, cada linha, cada opinião que nos dão, e é suportada por conceitos adjacentes. Raciocina connosco, e apela aos sentidos no processo, é perfeitamente balançado, o filme. Mas lá está, Furtado era um publicitário, não um realizador, ele tinha experiência com mensagens comprimidas.

Este filme não vai desiludi-los totalmente, mas vejam “Ilha das Flores” para ver este feito na perfeição.

A minha opinião: 2/5

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X (1963)

“X” (1963)

x ray man

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caleidoscópio

Parece-me que houve uma tentativa válida e honesta neste filme, de fazer algo eminentemente visual. A história tem a ver literalmente e unicamente com visão, é sobre o que as pessoas vêm, o que poderiam ver, e como isso afectará o seu mundo. Assim, temos o Frankenstein e o monstro no mesmo corpo, um médico obcecado com ver sob a superfície. A metáfora é bastante clara e básica, mas apesar disso é tolerável: aquele que quer ver tudo acaba por ver nada. Toda a luz é equivalente a nenhuma.

O problema, provavelmente, é a distância enorme entre as ideias dos escritores e a solução visual encontrada pelos realizadores. Eu sei que este filme tem um baixo orçamento, feito pelo mestre disso, mas também me parece que o dinheiro, ou a falta dele, dificilmente pode tornar-se a desculpa para tentativas desinteressantes de fazer um filme visual. Não é a pobreza de um cenário ou a fotografia básica que desviam os bons realizadores de tentar coisas interessantes. Para lá disso, este filme não é assim tão barato. Mas o problema é que os planos são concebidos de forma banal, muito ortodoxos, feitos para cumprir calendário e não para tentar ser imaginativo.

No entanto há aqui uma tentativa interessante, ainda que falhada. Suponho que, porque isto foi feito nos anos 60, o rock progressivo era apelativo para a juventude, o alvo maior deste filme, há uma tentativa de colocar o raio x de Milland como uma ilusão psicadélica. Por isso todos os planos “ponto de vista” são vistos como uma decomposição abstracta da realidade em cores, com um efeito adicional de caleidoscópio. Os momentos em que esses pedaços são inseridos são feitos como partes delirantes de Xavier. Não me parece que seja suficientemente interessante para eu dar mais atenção a este filme, mas apreciei o esforço, é o melhor que temos aqui.

Visão e transcendência. Ciência e religião. Neste caso, eu não me importaria com essa ligação, é inconsequente aqui.

Apreciei os pedaços cómicos, quando Xavier vê as pessoas nuas a dançar. Funcionaria de forma perfeita se pudessem mostrar tudo, não apenas os pedaços inúteis como aqui, mas tudo bem.

A minha opinião: 2/5

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“Alfred Hitchcock Presents: Triggers in Leash (#1.3)” (1955)

“Alfred Hitchcock Presents: Triggers in Leash (#1.3)” (1955)

ah presents

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saca e eu disparo

Aqui temos uma versão interessante da fórmula de 30 minutos que define esta série. Parece-me que as pessoas envolvidas podiam fazer qualquer coisa com o episódio específico que lhes cabia. Eram exercícios de resolução de uma curta medida de tempo para desenvolver uma ideia que, para funcionar, teria de ser clara, limpa, cativante e eficiente. Ou não ser nada disto mas feito de uma forma a que as audiências se questionassem. Tinha de funcionar. À medida que investigo mais isto, penso que provavelmente podemos ver todos os episódios da série e ficar no final com um glossário interessante de manipulação narrativa cinematográfica, ainda que provavelmente não tanto em termos visuais, o que é compreensível porque: -dos realizadores que trabalharam na série, não há assim tantos com carreiras interessantes; -isto É televisão, as coisas são filmadas e editadas a ritmos muito superiores aos filmes.

Aqui temos uma ideia interessante. Construir (e manter!) uma tensão baseada em nada. Um único cenário, para prevenir distracções, e uma disputa que nos fará seguir os dois cowboys, e querer saber qual deles (ou nenhum) vai quebrar e sacar primeiro. O facto de usarem um único espaço é já importante, porque denota já uma tentativa de criar algo tenso (e intenso). Pelo facto deste ser um episódio de 25 minutos (mais as intervenções de Hitch) eles não precisam de assegurar quaisquer planos de contextualização fora deste espaço para permitir aos espectadores respirarem. Nós aguentamos 25 minutos dentro do mesmo espaço.

O interessante aqui é ver os truques narrativos e modos que eles escolheram para construir a tensão, ou aliviá-la quando necessário, e a inteligência da conclusão. Assim, a tensão aumenta dependendo da posição dos cowboys no espaço e, mais importante, da posição de Maggie em relação aos cowboys. Por isso há aqui um posicionamento muito espacial dos personagens que eu aprecio, e que a câmara apoia. Tememos por Maggie, quando ela está mesmo atrás de Del, e tememos quando ela está entre os dois. Comédia: isto é uma comédia, afinal, e temos um equilíbrio bastante curioso entre o tiroteio iminente e a estranheza de termos, por exemplo, dois tipos que não conseguem comer em condições porque não podem parar de se olhar nos olhos. A comédia acontece não porque eles actuam de forma cómica, mas porque a situação o implica. Esse é um excelente tipo de comédia. E claro, a reviravolta final, quando pensamos que vimos algo, é-nos dito que fomos tão enganados como os cowboys.

Os comentários de Hitch, especialmente o final, são uma vez mais impagáveis, aqui realçados pela reviravolta nonsense realmente engraçada. O valor destes comentários é que não são meras anotações do que vimos, são uma continuação da narrativa, depois do fim do episódio.

A minha opinião: 4/5

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“Alfred Hitchcock Presents: The Gentleman from America (#1.31)” (1956)

“Alfred Hitchcock Presents: The Gentleman from America (#1.31)” (1956)

ah presents

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má escolha

Este não é um dos melhores episódios da série. Na verdade, o falhanço deste episódio provavelmente realça a pouca distância que há, neste tipo de história, entre um episódio estranho e agradável, e um nonsense simplesmente caricato e inconsequente.

O que retenho como aspecto dominante de muitos dos episódios é que nos é permitido definir o grau de manipulação humana ou eventos supranaturais inexplicados que ocorrem (ou esse grau é-nos revelado). Assim, neste caso, suspeitamos que o americano está a ser manipulado, mas também nos perguntamos se não estaremos nós mesmos a ser também manipulados. O enredo é previsível, mas deixa alguns pontos escuros, que poderiam ser suficientes para nos fazer ter dúvidas. Há realmente um fantasma? Será que os manipuladores iriam cair na sua própria armadilha e ser apanhados no meio de algo que não compreendessem? Será que o americano iria ultrapassar os trapaceiros e conseguir algo mais inteligente? Aparentemente eles escolheram a solução mais aborrecida. O americano faz exactamente o que os caçadores de dinheiro pretendiam, tudo acontece de acordo com o livro (não aquele que ele lê, antes fosse). Temos uma reviravolta menor, a de descobrir o que acontece ao americano depois da noite na mansão, mas em vez de nos darem ironia, eles moralizam. Má escolha, para mim.

Assim, o episódio falha no enredo e, para mim, falha em construir a tensão na casa fantasma. Isso tem que ver com direcção, mas também provavelmente devido ao próprio fantasma, que é ridículo segundo os valores de produção actuais, e por isso envelheceu mal.

A minha opinião: 1/5

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“Alfred Hitchcock Presents: The Case of Mr. Pelham (#1.10)” (1955)

“Alfred Hitchcock Presents: The Case of Mr. Pelham (#1.10)” (1955)

ah presents

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género: desconfortável

Ando-me a alimentar destas pequenas aventuras. Mesmo que já tivesse obviamente ouvido falar desta série, nunca a tinha tentado. Para já vi uma meia dúzia de episódios, e por casualidade vários deles realizadores por Hitchcock. Este é um deles. Depois de ter visto estes episódios, considero que eles merecem comentários individuais, apesar de me parecer razoável considerá-los parte de uma “série”. Ou seja, bem para lá do genérico imortal, o esquisso do Hitchcock que Alfred, ele mesmo, desenhou, e a neste momento inseparável banda sonora, há algo em cada episódio (pelo menos os que vi até agora) que os une. Ainda não sou capaz de dizer rigorosamente o que é, mas aparentemente e em geral, cada episódio tenta brincar com as noções básicas do género mistério (a casa cinematográfica de Hitch), misturado com o nonsense e o bizarro. Não assume demasiado estes dois últimos, não tanto como Twilight, mas parece-me que têm maior interesse visual do que os de Twilight, ou não fosse o patrono desta série Hitchcock. De qualquer forma, os episódios são desiguais, e bastante diferentes na sua concepção, diferentes escritores, diferentes realizadores, diferentes actores. Por isso vejo-os como curtas, parte de um universo maior onde elas existem juntas.

Este Mr Pelham é um exemplo muito bom e equilibrado dos diferentes géneros que eles usam. Talvez por isso começo os meus comentários aqui. A direcção de Hitch é bastante discreta. É competente, claro, totalmente destacada de quaisquer valores televisivos banais – que aliás, há 50 anos provavelmente não existiam tão enraizados nas mentes das pessoas como hoje – mas à excepção de alguns planos movimento, perfeitamente executados, o trabalho de câmara é normal. Esses planos movimento são na verdade notáveis, por isso reparem neles, normalmente começam as cenas, com um certo enquadramento, que indica um certo ambiente, e esse enquadramento é corrigido através do movimento da câmara para nos fazer encontrar algo que interessa, como quando Ewell entra pela primeira vez no clube, a câmara ajusta a nossa atenção para Ewell, e põe-nos na acção. A subtileza é notável.

Mas o interesse está na narrativa, a própria história. Tenho a sensação que a ideia aqui era enganar-nos e fazer-nos acreditar que estávamos a ver um caso de polícia, um usurpar de identidades, apenas para nos deixar cair na estranheza absurda do inexplicável. No final, não sabemos o que é que vimos, e podemos vir a não confiar no que vemos. Quem era o Pelham real? Quem era o Hitchcock real, no final? Como se isto fosse uma espécie de “being malkovich” curto.

Funciona, não é fascinante para lá da piada de sentir o ambiente, mas é bom. Ewell… não sei como é que ele conseguiu ser o homem a espreitar por baixo da saia de Monroe. A actuação dele é tão ruidosa e denunciada que dói. As intervenções de Hitch são impagáveis.

A minha opinião: 3/5

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“House M.D.: Broken (#6.1)” (2009)

“House M.D.: Broken (#6.1)” (2009)

house

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sobre o ninho da TV

Isto é um desvio agradável do caminho linear, bem conhecido, e imutável da série de tv e do seu personagem principal. Este é o problema de séries que desenvolvem os mesmos personagens ao longo de um número enorme de episódios: eles não podem realmente “desenvolver” personagens, têm de dar-nos a sensação de que os personagens estão a mudar, de que os personagens têm um arco de evolução, mas não podem retirar-lhes determinadas características fundamentais, que fazem as audiências apreciar a série em primeiro lugar. Por isso este tipo, House, terá sempre de ser brilhante, azedo, antipático, no entanto com “bom coração” e atractivo. Vamos lá ver, quantas possibilidades temos com estas características? Eles encontraram uma fórmula, tal como a maioria das séries o faz, algo assim: cada episódio apresenta um caso médico raro, House e a sua equipa têm de encontrar a solução, enquanto resolvem as suas vidas, individuais e colectivas. Depois de 4 épocas e meia, eles pensaram que isso já não chegava, por isso começaram a pôr os mistérios médicos no próprio House, eventualmente levando-o ao colapso onde o encontramos no princípio desta 6ª época. Por isso, este episódio (duplo) é como abrir uma janela e deixar ar fresco entrar. Temos o House, e na verdade até temos algum desenvolvimento (muito) básico de personagens. Para fazer isso, somos totalmente retirados do ambiente habitual das épocas anteriores. Por isso, isto é como um telefilme centrado num personagem que já conhecemos. Podemos vê-lo com um grau de autonomia que nenhum outro episódio tem. Este episódio (quase) se aguenta sozinho. Suponho que é suposto ser assim, e por isso é que eles puseram aqui Franka Potente, uma actriz de cinema real, num papel principal, para tornar a peça credível como unidade autónoma. Eles concebem um conjunto de tipos loucos, banais mas credíveis, e assim seguem a fórmula “voando sobre um ninho de cucos”.

Para este episódio duplo, simplesmente, eles elevaram os valores de produção, e deram um cuidado especial à fotografia e iluminação, e em alguns momentos o enquadramento. Isto confirma a minha ideia. Mas o problema é que Katie Jacobs não é uma realizadora real, ela enquadra e edita tudo com a mesma mundanidade das séries, que funcionam como linhas de produção, não como arte real. Este “filme” é inútil como filme, apesar do esforço. E apesar de Hugh Laurie ser credível e ter a simpatia do público, o seu personagem é um personagem de tv, nascido para a tv. Transpor o House para o cinema é tão curiosamente estranho como vermos um médico viciado em drogas e genial no num manicómio.

A minha opinião: 3/5

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Frenzy (1972)

“Frenzy” (1972)

frenzy

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olho de Londres

Hitchcock é um dos realizadores mais visuais de sempre. A sua imaginação estava totalmente enraizada no desenvolvimento visual. Agarrados à compreensão e interpretação visual do mundo como ele, temos apenas uma mão cheia de outros realizadores. Por visual, quero dizer que ele imagina um mundo em que o enquadramento, o ambiente, tudo depende do que vemos, e como vemos. Isso é a base. A história, enredo, etc, só entram mais tarde, apenas para permitir o preenchimento do conceito visual.

Por isso, quando vemos qualquer filme de Hitchcock, é importante e realmente fascinante reflectir e adivinhar o que estava ele a pensar exactamente. Melhor ainda, Porque é que ele quis fazer cada filme? Com Frenzy, consigo pensar em algumas razões:

-talvez a mais importante para Hitch: o sentido (real) de local. Este é o primeiro filme dele em que a maioria das cenas foram filmadas em locais reais, todas em Londres, sobretudo ao redor de Covent Garden. Este é o filme em que ele regressou a Londres. Ele queria embeber o filme com Londres, por isso temos relativamente poucos pontos de enredo que se passam em cenários interiores, ao contrário no normal em Hitchcock, para quem os exteriores costumavam ser cartões falsos que funcionavam apenas para termos planos de contextualização. Aqui temos pela primeira (e única?) vez na carreira de Hitch, uma cidade que pulsa. Na verdade era um conceito relativamente novo, esse de capturar cidades reais, pessoas reais, e colocá-las em contexto de ficção. Creio que no final, Hitch fez um trabalho competente e, acima de tudo, honesto. Ele escolheu o Garden, relacionado com a sua infância, antes de ele se tornar o que é hoje. Temos um sentimento genuíno em relação a isso. Aparte dos múltiplos planos no mercado, gostei da cena inicial, soa a regresso a casa. O plano de helicópetro, aéreo, e totalmente contextualizador, em que começamos distantes e vamos baixando para a cidade, até termos um plano aproximado de um grupo de pessoas, em que Hitch faz a sua normal aparição. Isto soa carinhoso, é uma homenagem a Londres, certamente Hitch pensou nisto. E a música ajuda nessa parte. Em geral é competente, mas sente-se a falta de Herrmann;

-as duas sequências mais celebradas são também as mais puramente visuais que Hitchcock concebeu para este filme. O plano “goodbye Babs” é brilhante, um pedaço puro do cinema visual que Hitch fazia. Ele sabia que queria ter a câmara a descer as escadas e de costas, depois de ter subido. Ele sabia que isso nos diria mais do que qualquer cena explícita que ele pudesse conceber. Por isso é brilhante, a forma como a sequência começa com o primeiro plano dos olhos de Babs, na porta da casa do assassino sabemos que veremos Babs viva pela última vez, descemos, chegamos à rua (com um “truque de edição Rope”), e sentimo-nos devastados. E tudo é visual. Vêm? a sequência do camião de batatas é menos eficiente e pura para mim, mas é um exercício de humor visual e de McGuffin, humor negro, e aquele suspense lindo, que não nos permite pensar para lá da visão.

No entanto, este filme é menos limpo do que outros. A imaginação visual já não cai sobre todo o filme, apenas pedaços intermitentes. É bom que Hitch tenha aberto as possibilidades de exploração de uma cidade, ou de um ambiente, a partir de locais reais, os seus últimos filmes são doces, mas já não são perfeitamente concebidos como as suas experiências mais profundas.

A minha opinião: 4/5

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Driven (2001)

“Driven” (2001)

driven

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não é F1, é nascar

Corridas de carros e filmes. Desporto e filmes. Se pensarmos um pouco, é uma mistura poderosa. Desporto tem a ver com movimento, é como uma dança, e isso é cinematográfico, na verdade é um dos campos cinematográficos mais ricos. Tem emoção directa, o que significa que não sabemos o que esperar, mesmo que tomemos partidos. Há um aspecto forte de suspense que rodeia cada jogo, cada desporto, e as corridas de carros não são excepção. Mas há um enorme senão: ninguém (supostamente) sabe até onde chegará. Tudo pode acontecer no desporto, vive do momento, mais do que qualquer performance, ao vivo ou gravada, musical, teatral ou qualquer outra. Por isto, para manter a emoção do desporto viva e verdadeira, não podemos encená-lo. E não podemos fazer um filme sem termos praticamente tudo encenado. Aí está a diferença. Dança, música, teatro, tudo é performance, tudo tem a ver com fazer algo que estava já combinado. O cinema herda isto. Por isso é que precisamos de mentes interessantes (ou intuitivas) para termos arte interessante, quando mesmo os mais talentosos desportistas podem perfeitamente ser uns pacóvios intelectuais. Também é por causa disto que para mim é impossível, pelo menos com os meios que temos hoje, criar um filme (não documentário) que eficientemente junte desporto (qualquer um) e filme. Provavelmente por isso também é que os Wachovsky exploraram as corridas de carros confiando em novas tecnologias, porque sabiam que as ferramentas normais não seriam eficientes (ainda não vi “speed racer”). E sim, temos Chariots of Fire, mas aí o desporto é uma casualidade, e funciona como uma performance congelada, que a música realça. Filmes de desporto puros, não conheço nenhum que seja remotamente interessante.

Ainda menos quando temos a atitude deste filme. Isto é uma desgraça tão grande, muito para lá dos problemas da mistura entre desporto e filmes. Por isso temos Reynolds, a representar um ex macho herói das pistas, que é provavelmente o único papel que ele já representou. Temos Stallone, que é o velho herói de guerra, que volta à acção, para salvar o dia quando precisam dele. E temos um conjunto de outros personagens cliché, estrelas ascendentes, tipos que lutam para ser eles mesmos, e para se sentirem livres. Em todo o caso, vejam isto: todos os arcos pseudo dramáticos existem num mundo de relações humanas. Amor vs Sucesso, Orgulho, afirmação pessoal. Aborrecido, vulgar, feito num nível abaixo do tolerável. Não há a menor tentativa para filmar as corridas de uma forma interessante. É tudo explosões e lesões, moedas que ficam nos pneus, colisões, aborrecido, inútil.

Ah, a cena de salvamento pelos dois líderes do campeonato consegue parecer ridícula mesmo no meio deste filme ridículo.

A minha opinião: 1/5

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Suknickár (2005)

“Suknickár” (2005)
(Skirter)

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tecidos

Este é um filme feito por um tipo que não é um cineasta assumido. Ele gosta de tentar meios diferentes, que vão desde a rádio até ao filme, da colagem à palavra escrita. Por isso deveremos esperar uma certa liberdade, ou independência dos códigos cinematográficos normais, que os cineastas reais seguem. Isso é algo que me fazia logo querer ver este.

Gosto do que foi tentado aqui. Uma espécie de sensualidade, alcançada a partir de visões parciais do corpo feminino. Provavelmente essa é a própria definição de sensualidade, e foi tomada literalmente aqui. O facto de que o filme é uma curta, e não obedece a um guião linear ou completo protege esta visão, já que não há na realidade personagens (femininos) para serem desenvolvidos. O resultado é que podemos imaginar seja o que for, e será sempre mais perfeito do que a realidade (independentemente do que fosse) de termos caras para corresponder aquelas pernas tão cuidadosamente fotografadas, meio tapadas por tecido também meticulosamente fotografado, de diferentes texturas e vistos com diferentes níveis de pormenor. Pelo é tecido, e torna-se tecido em muitos momentos.

Por isso a ideia básica era boa. Mas já o vi melhor feito, por este mesmo realizador. “Prílepeck”, que eu vi há 2 anos num grande ecran, é mutio mais eficiente, e creio que isso tem a ver com duas coisas: -a história básica era mais carinhosa em prilepek, porque ele aí centrava as coisas num tipo que incidentalmente procura o amor, nas pernas das mulheres q passam. Por isso ali ele alivia a obsessão pelas pernas, e isso realça a sensualidade. -aqui o filme é acção real, pequenos planos, algumas vezes abstractos, mas acção real. Em “prilepek” tinhamos stop motion. Cenas reais captadas com uma câmara fotográfica. Nada de 24fps, ao invés tínhamos pedaços de realidade, que nos davam ainda menos para ver, e mais para imaginar. É um truque eficiente, que não temos neste filme, e isso quebra o efeito, para mim.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve

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