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Being John Malkovich (1999)

“Being John Malkovich” (1999)

malkovich

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viagem ao teu (outro) eu

Há filmes que definem o que o que os meus sonhos vão ser. Outros ajudam-me a persceber de que são esses sonhos feitos. Talvez estas duas ideias sejam mais parecidas do que eu penso. No entanto, este filme é do segundo tipo. Pelo menos para mim. Eu sou um romântico, incurável. Choro perante o amor, incorrespondido, verdadeiro. Para além disso, estes últimos meses têm sido um período difícil na minha vida, tempo de mudança, indecisão, não sobre amor, mas tudo o resto. Por isso automaticamente eu sou o personagem de Cusack, alguém a quem não deixam controlar as minhas marionetas.  Tudo isto já torna este filme especial para mim.

Mas isto é cinema, e é isso que faz o filme para mim, aqui. Assim, naquilo que toca ao cinema, o que temos é uma mistura entre um realizador inspirado e competente, dois dos melhores actores a trabalhar hoje (Cusack e Keener), uma mente interessante, que até se empresta para ser o palco do filme, literalmente (Malkovich), e um dos melhores argumentistas de sempre.

Até um certo limite, a escrita de Kaufman assemelha-se à de Medem. Ambos concebem o mundo como um céu negro infinitamente polvilhado de pontos estrelados luminosos. Depois, sobre esse céu, pegam num marcador e unem pontos, até que tenham desenhado as suas constelações pessoais, até que tenham desenhado as suas almas no céu. Se estivermos dispostos a perceber o que eles pretendiam com cada ponto que escolheram tornar seu, vamos saber que estamos num mundo diferente, não separado do nosso, porque o intersecta, mas estaremos realmente “dentro” da cabeça de alguém. Não a vamos controlar, não vamos manipular, mas seremos abensonhados. A diferença, no entanto, entre Medem e Kaufman, é que o primeiro dirige sempre os filmes que escreve. Por isso temos sempre uma visão coordenada que toca cada pedaço do que vemos. Kaufman colabora, e no processo ganha o que os realizadores têm para dar, mas corre o risco de ser mal compreendido. Neste filme, todas as compensações e interpretações pessoais por parte dos intervenientes principais parecem-me perfeitamente balançadas. Esta é uma experiência doce, algo que não vão esquecer.

Spike Jonze tem uma carreira como realizador de video clips, e isso reflecte-se, ele leva a representação das dramatizações das marionetas de Cusack para um nível alto, e essa é uma peça fundamental da metáfora. Marionetas, a ilusão de uma vida criada no palco, levada para vidas encenadas no mundo real. A forma como Schwartz tem de se tornar outra pessoa para poder ser ele mesmo, para poder expressar-se livremente. Para poder ter a ilusão de amor verdadeiro! Que drama profundo, este. A forma como Maxine controla os controladores, engana os enganadores, manipula todos, mesmo os que supomos serem manipuladores; apenas para descobrir que não o deveria ter feito. A forma como Lotte é definitivamente a mais manipulada, e por isso é a única não corrompida. A forma como, em última análise, Malkovich não existe. A forma como Lester é o mais próximo de Deus que temos no filme.

Indecisões, meio caminho entre lugares, meios pisos. Canais entre pessoas, pessoas como recipientes que podem conter várias personalidades. Criar literalmente a nossa própria realidade, ao atenuar as definições do Eu. Isto tem tanto a ver com amor como com o processo de viver esse amor. Tanto a ver com a verdade como com o que a verdade significa. Tanto a ver com uma história como com a forma como se contam histórias. Isto é tanto um filme como é um ensaio sobre filmes, sobre cinema. Isto é uma obra prima de auto-referência.

A minha opinião: 5/5 provavelmente “o despertar da mente” supera este, mas este filme fará parte de ti, se o deixares.

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Death and the Maiden (1994)

“Death and the Maiden” (1994)

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rodear uma ideia

Esta é uma das casas cinematográficas deste realizador. Ele nada confortavelmente nestas águas. Polanski necessita de muito poucos elementos para introduzir uma grande tensão em qualquer filme. Por isso é que ele procurou várias vezes na carreira guiões como este.

Isso é uma grande qualidade, a capacidade de pegar em muito poucos elementos do cenário, neste caso uma casa pequena e a paisagem que a rodeia, e construir uma narrativa sobre isso. É isso que temos. A história é suficientemente simples para não produzir distracções, e a paisagem é vasta e suficientemente deserta para fazer o mesmo. O que temos é todo um contexto que rodeia uma certa ideia de verdade incerta, realidade provisória (para os nossos olhos). Por isso é que nunca paramos de nos questionar se Weaver está certa ou errada, se Kingsley é um violador ou uma vítima. Também Stuart se questiona, que tem de ultrapassar as mesmas dúvidas que nós, espectadores, e isso fá-lo o nosso representante no filme. Nós somos juízes das nossas sentenças. Toda a crueldade de um regime inventado de um suposto país sul americano existe apenas para credibilizar o mundo do filme. Isto não tem a ver com a denúncia de crimes, nem com uma discussão política, como tem sido dito. Também muito tem sido discutido acerca da verdade que o diálogo final revela, ou não; para mim ele deixa as possibilidades abertas, embora sugira sinceridade.

Como ideia, esta é tão simples como parece, e como todas as ideias simples, é difícil de formalizar, mantendo a simplicidade. É aí que as coisas se tornam interessantes, quando vemos os dispositivos cinematográficos que rodeiam e colaboram com a simplicidade da dúvida pura que este enredo teatral sugere.

Primeiro, temos o núcleo da história enquadrado, no início e no fim, pela música nuclear, um quarteto que dá nome ao filme, e que dá consistência ao drama do personagem de Sigourney.

Temos a manipulação da paisagem, com o seu farol. O sentido de isolamento verde, a poética do local, que vai crescendo em nós, já que nos é dada em pequenos pedaços, até se tornar o palco final do drama real.

A casa. Esta parte interessa, já que este é um filme de um realizador que realmente sabe manipular o espaço e inclui-lo no drama. Isto vale para um quarto de hotel, um barco, ou uma pequena casa. É isto que ele tem feito ao longo da sua vida, em “a faca na água”, a triologia dos apartamentos, bitter moon e este. É algo que admiro imenso, a capacidade para incluir o espaço que rodeia os personagens nos seus dramas e discussões. Essa é uma das formas mais profundas de incluir o espaço (arquitectónico) em cinema. Orson Welles, Hitchcock (às vezes), Polanski… todos eles confiam na sua câmara para isso.

Temos as actuações no centro do sucesso deste filme. Cada um dos 3 actores envolvidos estão no seu melhor aqui, cada sabe exactamente como se deve colocar, e interpreta perfeitamente o que lhe é pedido para fazer as coisas funcionar. Ambiguidade, para Ben Kingsley, cabeça perturbada para Sigourney Weaver, inacção e indecisão para Stuart Wilson.

Este filme é menos conseguido do que outros, mas Roman nunca deixa de nos dar o seu olhar especial, e isso vale sempre a pena ver.

A minha opinião: 4/5

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Bitter Moon (1992)

“Bitter Moon” (1992)

bitter moon

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Exorcismo

O início da minha vida séria como espectador de filmes foi um momento especial. Ingénuo, e provavelmente não deliberado. Os filmes que vi nesses primeiros anos ficaram-me gravados como uma cicatriz inapagável. São especiais para mim porque em todos eles revejo perfeitamente as sensações que tinha no momento em que os vi. Por vezes, as ironias da minha vida  acabam por se misturar estranha e irresistivelmente com as histórias das histórias dos filmes. Alguns filmes, de Medem, Almodóvar, Wilder, até Turturro e este Polanski definiram com grande medida o percurso dos meus sonhos desde que os vi. Esta última década correspondeu a um determinado ciclo da minha vida, agora definitivamente encerrado. E este filme sobre o qual já uma vez esterilmente escrevi reassume um papel importante para mim. Por isso o revi ontem.

Revejo este filme filme praticamente uma semana depois da detenção de Roman. Este aspecto representa certamente um fechar de ciclo para Polanski, e não é irrelevante que eu tenha procurado o filme que iniciou, em cinema, esse ciclo. Também para mim se inicia uma nova parte da minha vida, e já que esta que agora terminou começou comigo a ver este, entre outros filmes, achei tornar o revisionamento um exorcismo do momento conturbado e de mudança que agora atravesso.

O que a mim me parece é que com Polanski, cada filme novo é (ou era) uma luta pessoal para extrair as ansiedades da sua vida nesse momento específico. Cada nova tragédia, ou cada novo acontecimento na vida dele, corresponde a uma nova obra, que ele solta, mais ou menos imperfeita, mas sempre totalmente alinhada com aquilo que ele é. Curiosamente, muito se tem dito acerca do autobiográficos que são os últimos 2 filmes dele, mas a mim parece-me que a verdadeira vida dele está reflectida, subtilmente, de forma pura e real nos seus filmes mais antigos. Este conta. Este está na fase inicial de um período que imagino feliz na vida dele. Este filme, com muitos elementos que o densificam, é sobre Seigner, a então jovem mulher de Polanski. 4 personagens, num cenário perfeitamente contido, ideia que adoro (alternado com uma história passada). 3 desses personagens estão obcecados pela quarta, precisamente a nossa amante no tempo que dura este filme. Claro que há um sentido de humor muito característico, que provavelmente Roman herda da sua ascendência polaca. Esse humor reflecte-se nas cenas de fantasia sexual, que ora são inapelavelmente ridículas e cómicas ou estão num limbo desconfortável em que não sabemos se devemos encará-las pelo que pretendem ser, ou pela ironia divertida que Polanski parece atribuir-lhes. Mas o humor também está nos intragáveis trechos de narração off que comprovam a mediocridade de Oscar como escritor Seja como for, no centro desta história temos uma femme, incontornavelmente semelhante a Sharon Tate, um exorcismo das tragédias do passado, um recuperar de vidas que ele perdeu, ou deixou a meio. Isto não é muito mais biográfico do que filmes que retratam temas dramáticos que ele também viveu? Muito mais significativo do que “O pianista” ou o “Oliver Twist”. Veremos que Polanski teremos quando esta história acabar.

Para mim, a vida era diferente quando vi este a primeira vez. Tudo era possível, tudo era sonhado. Eu, era o Oscar chegado a Paris, para quem tudo seria tão natural como sonhar, para quem a idealização de uma vida coincidia com a materialização dela, e seria apenas um passo inevitável a passagem de um para o outro. Agora há uma pessoa, e eu gostava de começar a minha nova fase divagando sobre ela, com tanta variedade e imaginação como todos os quadros que Polanski imagina para a sua amante aqui neste filme. Todas as possibilidades, todas as cenas. A dança, o sexo, a pose. Estes dois têm sido com certeza felizes. E por isso é que, pelo menos até há 1 semana atrás, Polanski deixou de precisar de fazer filmes como exorcismos. Agora só precisa de falar dos dramas, sem se sentir parte deles. É este Polanski que filma uma mulher porque a ama que eu aprecio. É esta sensibilidade e capacidade de nos dar a beleza verdadeira, aquela que nasce da sinceridade dos sentimentos profundos, vividos por quem tem coragem para isso.

Em 12 de Agosto de 2003 escrevi o comentário que se segue. A frescura ingénua dele comove-me agora. Não o quero apagar:

Deep and subject of analysis

I found this film extremely well done for several reasons I will nominate.

It debates some moral issues, how far is it acceptable for a society still full of consevative people, such as the one performed by Hugh Grant, to acept a relationship such as that of the main characters? It is totally at the border of normality (meaning normality not necessarily what’s good but what’s common). The film also touches strongly the theme of hipocrisie (probably wrong spelled, this word.) once more in the character of Hugh Grant who, despite showing all the time disgut and repugnace for the story he is being told, is always secretly desiring and wanting something equivalent to happen to him (this hipocratic attitude may be the result of growing up in a world and a society where this kind of sexual liberties and practices are repressed and in here once more we are taken to atrong moral issues which take us to rethink the whole thing…).

Apart from this questions this film makes me also think about the relationships between men and women… Is there an everlasting love? or at least an everlasting relationship?… Suddendly I recalled Schopenhauer who claimed that no man could be happy with only one woman… maybe this film is showing that he was right… the pace of the relationship between Mimi and the writer was so high that they just emptied all there possibilities very soon, but if we put that at the scale of a normal marriage, aren’t all the possibilities also tried at the end of 10 20 or 30 years? Can a marriage last happy for both till “death tears them apart” ?…

Besides this few topics of discussion (to which I could add some more if I just remembered them right now) I found this film very well directed with some beautiful scenes… also some strongs scenes that stay with us… Excelent performances for the three leading roles… Kristin Scott Thomas is also good in here but not so as in other films also because her somewhat small part in this one didn’t allow her to show more than she did. This film proves once more Roman Polansky as one of the greatest directors of our times, since he shows he is totally in control of every detail of direction (I enjoyed the increase of the speed together with the increase of intensity of the relationship among the couple). Good dialogues but specially excelent speeches of the writer whenever he becomes the narrator which is often… Also an excelent note for the soundtrack by Vangelis and other well known songs which appear along. A must see.

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A minha opinião: 4/5

Murder at 1600 (1997)

“Murder at 1600″ (1997)

1600

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casa vazia

Mais uma mistura banal de cenas de acção desinteressantes com um ambiente de falso suspense associado ao enredo político.

O que se passa nestes filmes é que nenhum dos elementos que supostamente deveriam cativar-nos é minimamente interessante para fazer o filme valer a pena. Assim temos:

- a acção é um cheiro de acção, ou menos. Apenas umas poucas cenas de tiros, literalmente tiros, o personagem de Diane Lane é especialista em tiro, e todas as cenas de acção são aborrecidas e baseadas nisso;

- a história é vulgar e inútil. Vejam a estupidez disto: tem a ver com uns gajos que tramam o presidente dos EUA tramando o filho dele, ao implicá-lo no assassínio de uma das suas amantes. Dessa forma eles chantagiam o presidente, forçando-o a escolher entre a sua posição e a reputação da família. A ideia era substitui-lo para que os maus pudessem entrar na Coreia do Norte com meia dúzia de soldados para libertar outros soldados… Ah, e o cérebro do mal era um amigo e colaborador estreito do bom presidente;

- o ponto anterior não deveria interessar. Posso contar dezenas de filmes com enredos igualmente estúpidos que valem a pena o tempo, porque sobre esses enredos vazios colocam outras coisas interessantes. Mas aqui nada o suporta. Aquilo que o Wesley Snipes faz só funciona quando a escrita o permite (demolition man), a direcção é banal e aborrecida, nada para ver aqui.

Diana Lane tem uma presença. Ela não é uma actriz especialmente interessante, mas posa bem, e tem um olhar enigmático, que atrai. Ela teria sido uma grande femme fatal, se tivesse trabalhado há 60 anos.

A minha opinião: 1/5

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Demolition Man (1993)

“Demolition Man” (1993)

demolition man

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Elegia ao John Rambo e o Passageiro 57

Este filme tem muita piada. Muita mesmo, se o pusermos no seu contexto, e se considerarmos os protagonistas.

O filme tem, claro, um princípio orwelliano. Em geral, isso é sedutor. É o jogo de imaginar sociedades num futuro mais ou menos distante, vivendo numa situação extrema perfeitamente definida – na verdade o modelo original de Orwell era o bem real regime soviético. Um amigo meu alertou-me para o último nome do personagem de Bullock, certamente não uma coincidência. Creio que há duas variáveis na forma como criamos estes mundos. Um é quando vemos, desde o início, o lado maléfico, e a crueldad desse mundo imaginado, e essa maldade está normalmente associada a um regime (político/militar) cruel. Essas versões emanam do 1984 (“V de Vendetta” por exemplo). A outra versão é quando vamos descobrindo as fragilidades e defeitos maiores de um mundo aparentemente positivo, que começa por nos seduzir. Este filme é um desses casos. Assim, temos um mundo aperfeiçoado, em vez de um ditador temos uma espécie de demiurgo (vestido como um e com o nome de um artista importante, alguém que cria). No processo, vamos descobrindo o que está por trás dessas “perfeições” e compreendemos que um mundo perfeito não é necessariamente um mundo humano. É previsível e não especialmente bem escrito, mas o mundo é credível e permite o desenvolvimento da história.

No entanto, para mim tudo isso é acessório. A piada do filme é o lugar que ocupa no contexto dos filmes de acção americanos. Basicamente, este filme e outros da mesma altura, introduzem uma auto-consciência na acção. O filme ri-se da acção americana dos anos 80, e conta com Snipes e Sly para o fazer! Isso é excelente. É nisso que a escrita do filme tira vantagem da realidade futura onde dois tipos da acção do passado (1 bom e 1 mau) são descongelados. Então, neste novo mundo ninguém tem a mínima ideia dos métodos que eles usavam no passado, e eles têm de explicá-los, por isso falam deles todo o tempo. Esses métodos são “bárbaros”, atrozes para esta nova sociedade purificada, por isso as velhas figuras de acção, são chocantes, repelentes (inicialmente). Agora, considerem que isto foi feito em 1993, os anos 80 já tinham desaparecido, as audiências estavam a mudar, e aquele estereótipo Rambo tinha mudado. Isto significa que as pessoas nessa altura (e agora) já não estavam alinhadas com a cena da acção dos anos 80. Assim, Sandra Bullock e os totós do futuro dela são os nossos representantes no filme. Eles vêm a destruição material inútil que Stallone causa com o mesmo nível de incredulidade dos espectadores. Isso é excelente. No mesmo ano, tivemos o altamente desvalorizado “Último Grande Herói”, protagonizado por outro jarrão da acção dos anos 80. O  mesmo jogo, a mesma piada. Estes filmes são importantes neste contexto específico, eles mudam as páginas de um género.

Lembram-se de quando Richard Crenna parodiou o seu coronel do Rambo nos filmes “Ases pelos Ares”? É esse tipo de auto-consciência que eu estou a falar (pena que Stallone não tenha deixado as coisas aí e ande agora a voltar ao Rambo).

Na verdade, muitas coisas neste filme são banais, mas não me importo. Faz-me rir.

A minha opinião: 4/5

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Je vous salue, Sarajevo (1993)

“Je vous salue, Sarajevo” (1993)

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o enquadramento certo

Godard é um cineasta curioso e imensamente talentoso, mas difícil de compreender, e tantas vezes arrogante e autista. Isto arruina muito do que ele faz, mas ainda nos deixa algumas pérolas.

Esta é uma delas. Um exercício simples de manipulação visual, minimal nos recursos usados e tempo de extensão, mas magnificada no seu poder visual. Esta curta são 2 minutos de enquadramentos múltiplos de uma única fotografia. Cada enquadramento dá-nos uma realidade particular, e faz-nos compreender mundos dentro do mundo que, à medida que a curta avança, percebemos que é apenas uma imagem. Estes 2 minutos de Godard são mais analíticos e significativos do que muitos dos filmes de Wenders que tentam directamente analisar o que significa procurar os significados escondidos das imagens. Porque é que ele não foi tão sóbrio nos 20 anos antes deste filme?

Aqui, como em outros poucos filmes de Godard, fiquei tão impressionado com a forma como ele me manipulou, que perdoei o seu discurso habitual, um de teimosia e egotismo, disfarçado de puro humanitarismo. Não rejeito as intenções dele, só a atitude.

Outra questão se levanta aqui, e no trabalho de Godard ao longo dos anos 90′. Mais do que testar os limites do cinema, aqui ele questiona as suas definições. Baseado nas suas “histórias do cinema”, penso que ele empurra as suas próprias definições de cinema para o campo da pintura. No entanto, penso que ele se torna mais um criador de imagens e um manipulador. A pintura, no seu sentido cinematográfico, tem duas formas de ser compreendida: uma é pela luz/cor/composição, a outra é pela comunicação/manipulação visual. Welles/Toland, Conrad Hall, Gordon Willis. Esses eram pintores. Aqui Godard tenta a manipulação e percorre campos não tão explorados de narrativa cinematográfica.

A minha opinião: 4/5 vejam este.

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Great Expectations (1998)

“Great Expectations” (1998)

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narrativa espacial

Este filme foi realizado por uma das mentes visuais mais interessantes a trabalhar hoje. Cuarón sabe como trabalhar o espaço, sabe movimentar-se nele, sabe como encontrar e/ou criar espaços que ele pode explorar, encontrar os melhores pontos de vista. Neste tema, ele provavelmente herda as investigações de Orson Welles nos dias em que ele dominou a exploração espacial e o enquadramento da arquitectura. É aí que a mente de Cuarón se centra, creio. Enquanto Wenders explora imagens bidimensionais numa forma pura, enquanto Kubrick molda os seus filmes ao redor da narrativa, Cuarón fá-lo com espaço.

Tendo dito isto, este filme específico não é aquele em que ele o faz de forma mais intensa. Não vi este filme quando ele saíu, e neste momento já vi Children of Men e o terceiro Harry Potter. Aqui ele estava provavelmente mais limitador e tinha menos margem de manobra para trabalhar as suas capacidades. No entanto há momentos, agarrados a espaços, que são puras pérolas visuais. Assim, pensem nas cenas da casa do Paraíso Perdido. Vejam como esse espaço está construído para ser explorado, como as salas grandes existe para merecer a pena a câmara dançar com os personagens. Vejam como a escadaria que desce até à fonte do primeiro beijo está ali para permitir à câmara seguir os personagens e explorar o espaço. Estes momentos na escadaria são especialmente wellesianos. O outro espaço explorado é o estúdio de Hawke em Nova Iorque. O espaço é claro e denunciado na forma como o lemos. Por outras palavras, compreendemo-lo com uma única imagem, é aberto, e a sua composição perfeitamente legível. Mas é interessante, pela iluminação e pela escala, e Cuarón compreende-o. Imagino que este espaço é real, e o Paraíso Perdido um cenário.

Estes momentos, que claramente foram os mais impressionantes no filme, para mim, estão pendurados numa história. Seguindo Dickens, essa história tem a ver com a história em si. Os personagens são manipuladores ou manipulados (ou ambos, no caso de Paltrow). É uma história sobre quem está a contar a história. Na construção cinematográfica (não na do livro), os personagens existem para servir a construção narrativa, e pessoalmente creio que, em cinema, é mais eficiente que seja dessa forma. Por isso temos dois narradores principais, mas só temos consciência de um, e Hawke também. É esse o truque, é inteligente e funciona.

Não gosto de Ethan Hawke, admito. Para mim ele não tem talento e, pior, ele actua de forma arrogante. Isto significa que ele não faz nada, mas realmente acredita que nos está a dar algo duradouro. Bem, normalmente esse tipo de actuações afastam-me (na linha de Freeman, Redford, o Cruise mais recente…) mas aqui, considerando que o papel do seu personagem na história, de duplamente manipulado, admito que é uma escolha perfeita. Tal como o actor, o personagem pensa que comanda, mas é na verdade usado. Gwyneth Paltrow é concentrada, iteligente, e parece-me que trabalha duro para integrar os seus personagens, mas o seu trabalho é invisível no produto final. E isso é fantástico…

A minha opinião: 4/5

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Die Gebrüder Skladanowsky (1995)

“Die Gebrüder Skladanowsky” (1995)

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movimento abstracto

Wenders diverte-se, e enquanto o faz reflecte sobre alguns princípios gerais do cinema como arte. Por várias vezes ele fez filmes interessantes que são em si mesmos objectos cinematográficos e reflexões sobre a natureza do objecto cinematográfico. A sua preocupação primária está nas imagens. Sempre que ele aprofunda a complexidade das suas narrativas, ele quer realçar as imagens. Esses são os casos do recente Palermo Shooting e do notável Amigo Americano: imagens que ilustram uma história sobre imagens. Quando ele não constrói essa narrativa inteligente e directamente sensível ao meio, ficamos com meditações puramente baseadas em imagens. Por vezes elas funcionam, outras arrastam-se.

Aqui funciona parcialmente porque o projecto, intencionalmente, não tem uma forma maior para lá da entrevista que a velha Skladanowsky dá. Todos os pedaços a preto e branco são construídos como episódios e dentro deles encontramos outros episódios (os filmes originais dos Skladanowsky). Aparentemente tudo começou como um projecto académico, e isso explicaria a falta de uma forma maior, assim como o falhanço de alguns troços pequenos. Isso não explica, contudo, o final quase insuportável.

Mas há algo que me interessa aqui. Wenders pega em algo que ficou esquecido quase no início do cinema: Imagens como movimentos abstractos, abstraídos de uma narrativa. Isso é algo que eu penso que merece algum tempo de exploração, e obviamente também Wenders o pensa. Assim, entre os velhos pedaços dos filmes pioneiros, interessou-me o troço da dança. Curiosamente, esse é o pedaço que recebe mais atenção mesmo na história infantil dos flashbacks em preto e branco. É o filme que teve de ser refeito. A roupa da bailarina ajuda ao efeito. É notável, como funciona no olho. Tenho gasto tempo a ver experiências como esta. Para além disso, há pouco mais que ver aqui. E achei totalmente mal utilizado o contraste entre o material a preto e branco e os pedaços a cor da entrevista, que tem um aspecto desconfortável de vídeo que me afastou. O p&b já tinha um aspecto granulado e velho, não era preciso promover um contraste tão acentuado para que se percebesse a ideia.

A minha opinião: 3/5

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Haepi-endeu (1999)

“Haepi-endeu” (1999)

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regra e excepção

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Estou a entrar no cinema coreano. Tenho tido aí algumas das experiências melhores com cinema recente. Da colheita corrente de realizadores (pelo menos) competentes, temos Wook-Park e Kim Ki-Duk. Ambos adicionaram coisas boas à minha vida com alguns dos seus filmes. Para além deles, encontrei muita competência e excitação noutros filmes.

Agora vi este. É impressionante, não poderoso e transcendente como Oldboy ou Bin-jip, mas mesmo assim vale a pena.

Vou realçar o como isto está feito. O filme começa e (praticamente) termina com 2 cenas exageradas e intensas: começa com sexo visceral e obcecado e termina com um assassinato brutal. Ambos são realçados para lá do que seria necessário para contar os factos e ambas ultrapassam o que normalmente toleramos em cenas semelhantes. Entre estas cenas, temos cenas de rotina diária comum, até aborrecida. Cozinhar, tomar conta de crianças, trabalhar, comer. Só isso. Assim, as cenas de excepção são momentos extremos de vidas normais. É disso que o filme é feito. O homicídio é uma reacção exagerada, violenta e pouco comum a uma situação relativamente vulgar de adultério. O filme corresponde visualmente a isto e temos uma grande adequação entre o que vemos e o que nos é dito. Isso é suficiente para me agradar.

O filme é imperfeito porque confia puramente no efeito que estas cenas deverão ter em nós. Os riscos estão minimizados a essas duas cenas e a controvérsia que elas podem causar (e causaram). Bem, creio que o filme funciona ainda relativamente bem, mas as cenas não me chocaram assim tanto (os últimos 10 anos trouxeram-nos filmes como Irreversível). Apesar de tudo, o que fica é uma boa experiência, porque todo o filme tem a ver com fazer-nos inoperantes e sem reacção, e de repente agitar-nos e acordar-nos. É um conceito relativamente pobre mas funciona, e mais que tudo, fá-lo de forma cinematográfica, fá-lo no olho.

O trabalho artístico é fabuloso. A cinematografica tem consciência perfeita das cores, saturações, e elementos de composição. É lindo, e algo que vemos com bastante frequência em todos os filmes coreanos, mesmo os piores. Visualmente, o cinema coreano não parece ser tão depurado e abstracto como a imagética japonesa, pelo contrário é uma exploração relaxada e agradável de beleza, com conceitos e influências ocidentais e, no entanto, bastante enraizado em ideias de sociedades orientais. Suponho que corresponde ao que a Coreia do Sul representa culturalmente hoje em dia.

A minha opinião: 3/5

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Back to the Future Part III (1990)

“Back to the Future Part III” (1990)

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pólvora seca

Este era um filme desnecessário. Carrega uma grande dose de nostalgia e emoções para os fãs dos filmes anteriores, nos quais me incluo, mas é o seu único ponto forte. Precisamos conhecer e relacionar-nos com os personagens dos outros filmes para podermos apreciar minimamente este, e isso não é muito bom sinal.

Zemeckis/Gale não são génios, ou mestres do seu ofício. Eles começaram na sombra do negócio de fantasia de Spielberg. Mas os 2 primeiros ‘regresso ao futuro’ foram inovadores no ritmo que deram ao desenvolvimento da comédia. É em como tudo se sobrepõe que está a piada. O segundo filme faz algo ainda melhor, e nunca visto, que é literalmente colocar um filme sobre outro. Isso foi formidável, e o melhor feito narrativo que eles conseguiram.

Este não traz nada novo ou interessante. Sim, ainda temos a energia e vitalidade extraordinários de Michael J. Fox e Chris Lloyd e, mesmo devido ao tempo de ecran partilhado, provavelmente esta é a melhor colaboração dos 3 filmes. Mas não há nenhum ângulo interessante, os personagens relacionados (Biff, os McFlys) são apenas espelhos directos dos personagens do futuro. O ponto de vista interessante desapareceu. Provavelmente eles tiveram pressões de estúdio para fazer este, mas sabiam que não tinham muito para dizer. E a prova disso é que vi recentemente toda a triologia e este está velho e gasto e já não tem piada, ao contrário dos outros 2.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve

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