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Victory (1981)

“Victory” (1981)

victory

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dança aborrecida

Este filme mistura desporto e ideologia, significando isso que o jogo (futebol neste caso) é a metáfora de temas morais e humanos. Aquele que ganha o jogo prova a justiça das suas atitudes. Nazis contra aliados, os nazis fazem batota. À parte de alguma ambiguidade no personagem de von Sydow, não há concessões na maldade dos Nazis. Não há possibilidade de redenção entre eles, nenhum personagem vale a pena. Desse ponto vista, da forma como lida com a perspectiva do público sobre a Alemanha Nazi (não as hierarquias de topo, mas os outros), o filme está exactamente no mesmo nível que filmes como Casablanca. É uma questão do orgulho vencer a maldade, da justiça prevalecer sobre a batota.

O filme começa com a marcação de um jogo de futebol, e termina com esse jogo, por isso todo o filme é a preparação para ele. O jogo é um evento teatralizado, tem lugar em Paris para que possamos ter uma audiência a apoiar o lado “certo”. Em termos dramáticos, isto tem o mesmo efeito que teria uma performance de teatro, ou um discurso público (como se a vitória aliada final fosse o equivalente do discurso de Chaplin no Grande Ditador). Então porque é que este filme falha onde tanto Casablanca e o Grande Ditador funcionavam? Bem, simplesmente porque este é de 1981, a guerra já terminou há muito, o regime Soviético estava já a viver os seus últimos anos reais, e o contexto é totalmente diferente. Já não interessavam declarações desesperadas de honra contra um regima que nessa altura era já de um tempo passado. Não creio que os filmes da 2ª guerra seja um tema morto, ainda hoje saem, renovados e frescos. Mas este apresenta uma abordagem simplista e directa que apenas era justificável durante a guerra, quando o horror nazi estava ainda em curso. Este, no seu contexto e na sua formalização é tão simplista e banal como um filme de propaganda.

O filme representa futebol. Creio que é tão complicado filmar futebol como dança. Mas o futebol foi muito menos usado, por isso temos (ainda) menos soluções interessantes para o filmar. O que se passa é que tanto a dança como o futebol implicam movimento, os jogadores mais elegantes são, eles mesmos, dançarinos, que consideram a bola, o adversário directo, e a situação geral no campo. Para capturar este movimento de forma interessante é preciso confiar numa certa fluidez da câmara. Isto pode ser feito de duas formas: -enquadramentos fixos, onde o movimento do jogador tem de fazer valer o plano (opção segura e aborrecida); -a câmara joga com o jogador, e com os outros elementos, e assim participa na “dança”. Sinceramente, nunca vi esta segunda opção bem feita com futebol. Este filme perde uma oportunidade incrível para o fazer. Isso porque nele participa um dos jogadores mais elegantes de sempre. Alguém que dançava como ninguém antes ou depois dele, não tão fluido como Maradona (ou Messi), mas eventualmente mais excitante no momento do “um para um”. Ele faz alguns truques curiosos para a câmara, mas nenhum é aproveitado de forma interessante pela câmara, e esses momentos perdem-se no aborrecimento geral do filme. Gostava que isto tivesse sido feito bem.

Isto seria apenas um desapontamento menor, mas o que se passa é que este filme foi realizado por alguém que costumava pensar em cinema, para lá de meramente realizar. Huston fez coisas importantes. Mas a verdade é que aquilo em que ele era especial era no lado narrativo, na forma como a história é formada, e como é contada. Para além disso, é sabido que para o final da carreira dele ele foi várias vezes um operário a trabalhar para o cheque. Pena.

A minha opinião: 2/5

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Tango & Cash (1989)

“Tango & Cash” (1989)

tango cash

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Arma Mortífera + Die Hard

Isto é velha guarda agora. É bom ver, nesta altura já tem o pó que dá sabor aquilo que normalmente é conhecido como “clássico”.

O estranho aqui é que se este filme fosse feito hoje, dificilmente seria considerado acção. Tirando a última cena, de “vejam-me a disparar” vulgar, a maioria do filme passa-se com diálogos engraçados e incisivos. Isso acontece porque o filme está construído na tradição Arma Mortífera. Dois personagens, personalidades opostas, unidos pelos ideais de justiça, separados pelos seus métodos. Uma mulher pelo meio, convenientemente colocada (como a irmã de Sly) para aguçar a disputa entre os homens (a filha de Glover na AM). A diferença é que em vez de Gibson/Stallone, aqui temos Stallone/Russell. O primeiro par era acção vs comodidade, e aí estava a piada; aqui temos dois tipos já conhecidos pelo aspecto físico, e a fricção vem da competição, porque cada tenta provar ser melhor que o outro. Num outro plano, é engraçado ver o filme porque tanto Sly como Russell riem-se do seu próprio personagem no filme, por isso temos um sentido de ironia e relaxe em relação aos filmes de acção dos anos 80 que me agrada. Tudo o resto vai com essa premissa, planos de estilo, concebidos para fotografar músculos e o diálogo suporta isso. Uma espécie de Rambo com o diálogo de Mclane.

A outra coisa que importa aqui é a curiosidade de vermos a realização de um antigo colaborador de Tarkovsky! Um homem que começou a carreira partilhando créditos na escrita dos filmes de um dos melhores realizadores de sempre, e que participou mesmo nas suas primeiras experiências realmente importantes. Depois, Konchalovsky foi para os Estados Unidos, e fez uma carreira com um pé em Hollywood. Isso já é surpreendente. Para além disso ele acaba por dirigir Stallone e Kurt Russell. Essas condições fazem este filme valer a pena em si mesmo. A desilusão é que aparentemente o que se poderia esperar de Konchalovsky e a sua herança russa não existe. A direcção é firme, mas não especialmente inspirada. Contudo a carreira dele é interessante pelas suas características únicas.

A minha opinião: 3/5

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Batman (1989)

“Batman” (1989)

batman burton original

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recordação da escuridão

Eu vi este filme quando era muito novo, e já não o via há bastante tempo, por isso tenho uma relação pessoal com ele. Eu evolui e o filme evoluiu comigo, na minha mente.

Realmente passou bastante tempo. E a memória que tinha dele é muito mais obscura do que o filme mostra. Porquê? Eu mudei; os filmes mudaram. É por isso. Supõe-se que este contém um mundo negro, muitos chamam-lhe gótico. Sim, tem um ambiente negro em vários pontos, Burton é um especialista em produzir certo tipo de ambientes. Mas já não funciona agora como um mundo negro de mentes negras, se é que alguma vez funcionou. Agora este filme tem a atracção dos filmes adolescentes:  sabemos onde tudo vai parar, mas queremos vê-lo de qualquer forma. E o mundo é mais brilhante que tantos filmes não especialmente celebrados por serem “negros” como este é. Suponho que isso tem a ver com a forma como a narrativa se constrói. Este filme apoia-se no aspecto visual, e isso normalmente é uma questão de moda. Muda, e quando muda, o filme vai segurar-se, ou não, baseado no seu conteúdo cinematográfico. Burton confia que mostrar o mundo vai fazer-nos entrar nele. Bem, eu realmente entrei há 15 anos atrás, agora apenas me lembro que o fiz, mas já não sei onde fica a porta. Suponho que Nolan, depois dos desastres de Schumacher, realmente substituiu com solidez a visão de Burton. Ele introduziu a instabilidade na narrativa, em “dark knight” ele construiu toda a narrativa em torno dessa instabilidade. Ele compreendeu como poderia suportar todo um mundo visual adicionando consistentemente reviravoltas, na verdade fazendo todo o filme ser uma enorme reviravolta.

A actuação de Nicholson é plastificada como o seu personagem. É baseada no charme individual, não numa mente perturbada. O seu vilão é um joker, mas sem ironia. Ledger realmente empurrou o personagem para os campos onde Brando ou Depp se movem.

É interessante ver este filme, já que mostra a ligação entre cinema, memórias cinematográficas, e as nossas próprias vidas.

A minha opinião: 2/5

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Bad Timing (1980)

“Bad Timing”  (1980)

bad-timing

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de dentro para fora

Roeg tem uma mente perturbada. Ou pelo menos gosta de entrar em mentes perturbadas. A sua maior qualidade é algo que aprecio imenso num realizador: ele pinta a sua tela, mas também designa onde nos devemos sentar a olhar para ela. Ele constrói a atmosfera e uma nave para nós entrarmos nela. É esse o nosso sentimento. Mas depois há algo mais interessante. Pensamos que estamos confortáveis como espectadores passivos do que ele mostra, mas o que ele faz, sobretudo através do trabalho de câmara e da edição (que é fabulosa neste filme), é tentar empurrar-nos para o jogo, e fazer-nos correr os mesmos riscos e trabalhos dos personagens do filme. Essa vontade de colocar o espectador no centro do que interessa é algo comum hoje em dia, mas creio que Roeg era um visionário naquele tempo, incluindo este filme.

Temos um psicoanalista, que é um atalho para dizer que é alguém que trabalha as relações de dentro para fora. Ele é obcecado, tem ciúmes retroactivos, e o filme é a evolução de como ele luta consigo mesmo para montar uma história conveniente que o permita ficar com a mulher, algo que eventualmente ele não consegue. Nós sabemos como as coisas vão terminar desde o início, por isso o filme utiliza o estratagema de nos permitir conhecer o final e depois, pelos flashbacks, guiar-nos até esse ponto. A edição é frenética e algo psicadélica, algo que Roeg poderá ter aprendido na sua experiência em Londres nos anos 60. E a intenção era precisamente fazer a nossa mente visual funcionar como a mente perturbada do personagem de Garfunkel.

Um ponto extra e significativo, algo que Ted Goranson gosta de notar, e que me começa também a apaixonar, é a empatia de Roeg com a actriz, Theresa Russell, que levaria ao casamento. Realmente conseguimos perceber isso. A sua personagem não é o centro da história, esse é Garfunkel, mas nem o percebemos a não ser que pensemos nisso. O personagem de Garfunkel era, neste momento, uma representação dos desejos de Roeg por esta bela mulher.

O filme que melhor representa essa relação e, simultaneamente, é o melhor de Roeg, para mim, é Insignificance. Este Bad Timing é um dos mais celebrados, mas tem um poder menor comparado com o outro. É uma boa experiência, mas sugiro que o vejam como introdução ao outro.

A minha opinião: 3/5

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Gabriela, Cravo e Canela (1983)

“Gabriela, Cravo e Canela” (1983)

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swing intelectual e tropical

Isto foi celebrado no seu dia em grande parte, provavelmente, porque Sónia Braga está aqui.

Na verdade temos uma combinação de elementos que tornam a experiência valer a pena: Tom Jobim e Jorge Amado. Eles são parte de uma tradição relativamente recente brasileira, que consiste em colocar conceitos interessantes em formas populares, coisas que as pessoas podem reconhecer e identificar como “pop” mas que na verdade é o trabalho de mentes criativas e intelectuais. Por isso é que temos “música popular brasileira”, que inclui a bossa nova, que é na verdade um ramo totalmente desenvolvido por mentes intelectuais, com empatia por formas de expressão populares. Jorge Amado faz algo semelhante com a literatura. Ele escreve material que é telenovelesco (e na verdade é bastante adaptado a obras menores de televisão) mas ao mesmo tempo ele trabalha as palavras e constrói a sua própria língua, que flui pelo ouvido como bossa nova (mesmo quem não perceba português pode compreender isto).

Esta capacidade de ser profundo e popular ao mesmo tempo é a maior qualidade de Jobim e Amado, para mim. O problema é que estas mentes podem ser facilmente mal compreendidas, e tomadas por certo naquilo que querem dizer, se as mentes que os interpretam forem ligeiras. Por isso admiro este filme, porque as pessoas envolvidas compreenderam de que tratava. Não que seja uma obra totalmente conseguida, em algum aspecto. Muitas vezes soa crua, e o tipo de sexualidade explícita sem sexo explícito que temos aqui tem sido tão explorada nos últimos 25 anos que soa datado agora.

Também não creio que Braga pudesse explodir agora como o fez nesses dias, as concepções sexuais para a mulher latina (preconceitos!) evoluiram para alguém que será necessariamente sensual e intelectual (Alice Braga, a sobrinha de Sónia é provavelmente um bom exemplo). Sónia representa um tipo rural, é espontânea, tem sovacos não depilados, é iliterada, existe no filme pelas fricções e tensões sexuais que causa.

Bem, o sexo está no coração da escrita de Amado. Ele escolhe um ambiente fechado e conservador, uma espécie de águas paradas sociais, e atira uma pedra a esse charco (Braga). Por isso ela, através de uma sensualidade inconsciente, comanda o jogo, e mexe o enredo. Já que eles queriam explorar o efeito que Sónia tinha nos públicos desses dias, este é um esquema terrivelmente eficiente (algo parecido com o que se está a passar estes dias e a uma escala doméstica com Soraia Chaves, em Portugal).

Queixas: Barreto tem um bom olho cinematográfico, e ele trabalha visualmente os seus planos e eu aprecio isso, mas ele não tinha a certeza se queria fazer um filme sobre Sonia Braga e o que gira em torno dela ou um filme sobre uma mulher sensual numa vila fechada. Creio que ele tentou misturar os dois, e isso é um falhanço. Vou tentar chegar ao seu “Dona Flor…”, mesmo contexto, com Amado e Braga também, e vou ver o que ele fez aí. Eles também tentaram evitar explicar porque Gabriela, estando tão apaixonada, iria para a cama com outro homem, sobretudo sendo o melhor amigo de Mastroianni. Temos uma pista curta, mas não conclusiva. É ‘apenas’ um buraco no enredo e não valorizo isso normalmente, mas aqui soou mal, era importante compreendermos Gabriela aqui.

Uma nota paralela: tenho um interesse especial no urbanismo colonial português. Na verdade estou a trabalhar neste momento numa tese sobre uma dessas cidades, uma das melhores (ilha de Moçambique). Esta pequena cidade que temos aqui (Parati, não Ilhéus) parece um bom exemplo também, que aparentemente foi altamente influenciado na sua concepção pela Maçonaria. Vejam o filme apenas por esse tema se estão interessados no tema. Alguns planos realmente estão muito bem conseguidos.

A minha opinião: 3/5

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Beetle Juice (1988)

“Beetle Juice” (1988)

beetle

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Mundo danificado

Tenho passado algum tempo com Burton. Gosto dele, sinto-me estranhamente atraído ao que ele propõem, apesar de não poder deixar de notar as falhas notáveis.

Em resumo: ele cria mundos, por vezes é excitante apenas por isso, otras nem tanto. Mas todos os seus filmes são uma visão honesta do seu criador, e isso é algo que valorizo muito. Mas ele não é um grande realizador. Puramente como realizador, ele não consegue ser mais que competente, porque não trabalha os temas específicos da direcção (edição, câmara, direcção de actores…) com a mesma paixão e ponto de vista especial que põe na modelação dos mundos que nos dá.

Vejam este. Ele era ainda um realizador relativamente jovem (esta foi, ao que parece, a sua segunda longa). Ele não concebeu o mundo deste filme tão requintadamente como o fez com outros mais tarde. E o filme é um falhanço relativo para mim porque, uma vez que essa noção rica de estar dentro de uma mente torcida, o resto não se segura.

Ah, uma coisa salva tudo: a actuação de Michael Keaton. Nunca o vi actuar como ele fez aqui. Ele considera esta a sua melhor actuação e eu concordo. É uma grande performance física e verbal, que agarra a audiência tal como faz com os personagens do filme, e por isso o enredo desenvolve-se sobre a ideia de alguém que tenta (e falha) resistir a dar-lhe atenção. Muito bom.

As animações são queridas em alguns pontos, e têm o sabor de velhas animações, que parecem artificiais, mas nas quais estamos dispostos a acreditar. Recentemente vi um filme muito mau, Monster X, feito por alguém que poderia ter tirado deste algumas lições sobre honestidade na criação cinematográfica.

A minha opinião: 3/5

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Kagemusha (1980)

“Kagemusha” (1980)

kagemusha

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o filme como um quadro

Vi o meu primeiro Kurosawa há 7 anos. Tenho 24 e logo isso é uma quantidade relevante de tempo. Apesar de tudo, sinto que sou um principiante, também porque apenas tenho um par de anos a ver seriamente filmes, tentando aprendê-los e aprender com eles. Por isso este comentário é mais uma aproximação, seguramente ingénua, mas para fixar algumas ideias que tive ao ver pela primeira vez este Kagemusha.

24.10.2008

-Kurosawa trabalha como um pintor. É bem conhecido que ele pintava a maioria do que filmava, e isso ajudava-o a criar na mente o que ele queria trazer para o olho. As pinturas, em si mesmas, valema pena ver; um extra no DVD tinha uma edição dessas pinturas com o diálogo do filme sobreposto, para mostrar o filme. É uma boa experiência em si. Assim todos os planos são perfeitamente considerados. A composição é fantástica, equilibrada como só um artista poderia conseguir;

-num certo sentido, este é o primeiro Kurosawa a cores, porque é o primeiro em que ele realmente joga com a cor, e a faz parte da composição. As experiências anteriores em cor funcionariam igualmente bem em p/b. Aqui não. Reparei como as cores transportam as acções, como os enquadramentos perfeitamente balançados ganham vida por causa das cores. Os céus são fantásticos, claro, e o sonho nas nuvens também. O ambiente artificial faz o filme parecer um esboço, como na verdade foi, já que é conhecido que Kurosawa estava a preparar com este o grande projecto (Ran).

-A edição é fantástica; os enquadramentos são quase sempre parados, o seu olho funciona como o de um pintor, mas a edição sequencia todos os planos perfeitamente e isso faz-nos acreditar q a seguir a determinado plano, só há um possível para fazer as coisas funcionarem, e esse é o que vemos. É uma estrutura sublime, sólida como uma rocha, e se trabalharem mentalmente, vão ver que não tirariam ou acrescentariam nada. Kurosawa talvez o fizesse. Penso que a edição era um processo mental para ele, ele pintava magnificamente o storyboard, mas na sua mente também construía o esquema da edição. Por isso é que ele conseguia editar de noite o que tinha filmado durante o dia.

-a história é, como muitas, sobre actores que actuam. O papel de um líder tem em si mesmo tudo que ver com actuar. Essa necessidade de sentar-se numa batalha, imóvel, sem mostrar medo, é mostrar algo aos súbditos, e aos inimigos, que pode não corresponder à verdade. Aqui temos um duplo a fingir que é esse líder.

-Coppola e Lucas merecem agradecimentos por permitirem que isto tenha acontecido. Contudo, quando eles falam é claro que Coppola tem muito mais consciência do que trata o filme e o trabalho de Kurosawa, enquanto que Lucas fascina-se com os efeitos visíveis. Isto é significativo. Eu nunca fiz um filme, quem me dera poder, mas não creio que criar um tenha muito que ver com a lente que se usa, ou como se gerem câmaras múltiplas num plano, mas provavelmente tem mais que ver com o que se quer dizer (e como). O primeiro tema é técnico. O segundo mexe com a alma. Por isso é que, dos dois, Coppola foi o que reconheceu as falhas gerais deste bom filme – avassalador se pensarmos nele como uma mesa de experiências, a tela de um pintor.

A minha opinião: 4/5

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The Purple Rose of Cairo (1985)

“The Purple Rose of Cairo” (1985)

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O país das maravilhas na Alice

Depois de ver o desastre insípido que Woody gravou em Barcelona, tinha que compensar o meu desapontamento, e vim ver este. Nao o tinha visto antes, mas sabia que valeria a pena ver, que teria a inventividade e o ponto de vista especial que quase sempre Allen poe nos seus filmes. Este filme é uma experiência valiosa. O ponto de partida é excitante apenas por lermos uma sinopse, e o que ele faz é fantástico.

Assim temos uma mulher que vive a sua vida, a sua vida real, baseada nos muitos filmes que vê. Ela substitui a sua triste realidade de pobreza e de um marido machista, infiel e perguiçoso, com os filmes que vê, e que vive. Assim, temos um personagem ‘real’ (na realidade enquadrada pelo filme exterior) que vive num mundo das suas fantasias derivadas de filmes. Nada fora do comum. Depois, é-nos introduzido um filme específico dentro desse filme. Este filme é visto vezes sem conta por Mia, até ao ponto em que um personagem desse filme entra no mundo real fora desse filme. Assim, a fantasia entra no mundo real. Isto é novo, é inventivo e é fantástico de ver. Os personagens do filme dentro do filme sao conscientes da sua realidade, sabem que sao intérpretes, e a partir do momento que a ordem normal das coisas dentro do seu filme é quebrada, eles sentem-se perdidos (para o egiptólogo, os argumentistas eram Deus). Isto é um grande princípio, num filme que, por coincidência, é de uma grande qualidade visual, pouco comum (para o meu gosto), na maioria dos filmes de Woody Allen (com excepçao para Manhattan e uns poucos mais).

A minha opiniao: 4/5

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Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988)

“Mujeres al borde de un ataque de nervios” (1988 )

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Intenções dobradas

Todos os verdadeiros artistas confiam, em maior ou menor grau, na sua intuição. Há aqueles cuja magia repousa inteiramente nas escolhas intuitivas que fazem. É maravilhoso podermos confiar na intuição de alguém (ainda mais quando a nossa própria intuição funciona também). Depois temos aqueles que começam numa base racional, e só depois de criarem uma rede de segurança em que possam confiar é que colocam algo dos seus sentimentos mais profundos aí. Creio que este segundo tipo corresponde à maioria das mentes criativas. Por um longo período de tempo, pensei que Almodóvar pertencia ao primeiro tipo de realizador. Depois de ver este filme, definitivamente coloco-o no segundo tipo. Para um espectador desinformado, como eu era quando entrei no mundo dos filmes de Almodóvar, ele pode surgir como se não existisse uma estrutura especialmente reconhecível por trás do que vemos. Os meus visionamentos recentes dos seus filmes convenceram-me do contrário, especialmente este. Este é um filme em que (ao contrário dos outros) a mecânica da história tem a ver com como ela se desenvolve. É uma comédia, tudo bem, e constrói um mundo de coincidências e factos ligados que vêm sempre a ser importante, com o desenrolar da história.

Assim, temos uma narrativa de histórias circulares, intersecções, e coincidências. Os primeiros 5 ou 6 minutos do filme, incluindo os créditos iniciais, são especialmente fantásticos na forma como vemos isso. Temos uma montagem pop de pedaços de revistas, pedaços de vidas, caras, pedaços coloridos. Isto introduz-nos no ritmo do filme, que é frenético em sentido de comédia (isto mostra-se pela história, não a edição). Depois somos introduzidos à nossa personagem principal, ao redor da qual tudo se desenvolve: ela dobra filmes, o que significa que ela empresta a voz a outros corpos. Ela era (vimos a compreender) a amante de um homem que faz o mesmo. E temos aí um fantástico pedaço de filme, em que seguimos esta voz off a dobrar, e o filme que ela está a dobrar, já com o som dobrado. Ela está a dobrar sozinha, a voz masculinha está silenciosa (ouvi-la antes, no início da sequência, também desacompanhada da voz feminina aí). Isto é um trabalho minucioso. Uma sequência fantástica. Colocou-me no ambiente, pensei eu. Isto porque somos enganados por esta primeira cena. A seguir a isto, tudo se transforma num ambiente de comédia (que segue as comédias screwball americanas, isto é assumido por Almodóvar).

As maiores preocupações cinematográficas de todos os filmes de Pedro Almodóvar caem em trabalhar a narrativa de formas que sejam novas, sedutoras, e visuais. Todos os seus films (especialmente os dos anos 80) eram puras experiências, completamente diferentes da experiência anterior. Aí, Pedro estava ligado a um certo ambiente, uma forma psicadélica de vida, certamente derivada da sua experiência dentro da Movida, o underground madrileno dos anos 70. Apesar disso ele estava já a tentar construir novas formas narrativas. Há uma certa característica recorrente em todos os seus filmes: ele gosta da ideia de ter actores cujos personagens actuam. Actrizes que representam actrizes, personagens que pretendem ser algo diferente. Os seus modos narrativos têm muito que ver com isto. Aqui ele foi muito inteligente em como realçou este aspecto. A primeira cena que mencionei estabelece esta ordem, a mãe louca que tenta passar por sã para cumprir a sua loucura, e o filme tem uma conclusão numa cena em que todos estão a actuar e a mentir à polícia. Perto do início, a mulher louca (que finge viver 20 anos antes do seu tempo) diz ao seu pai: “Mentes tão bem, papá! Por isso é que gosto de ti”. Almodóvar escreveu o guião…

A falha aqui está em tudo ser mecânico. Este desenvolvimento por coincidências circulares, e um enredo escondido que acaba por se revelar e nos revelar a verdade não está exactamente em linha com os melhores esforços visuais de Almodóvar. Creio que ele sabe isso, ele chegou mesmo a dizer que este guião foi bastante mais fácil de escrever do que, por exemplo, o de Kika (que tem um conteúdo narrativo bem mais implícito). Assim, narrativamente, isto É Almodóvar, mas não o seu melhor. Mas tem pinceladas lindas, intenções sublinhadas (e sublimadas), e levarei aqueles minutos iniciais onde quer que vá.

A minha opinião: 4/5

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Wall Street (1987)

“Wall Street” (1987)

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previsível como sempre

Não gosto de Oliver Stone. Tenho motivos para isso.

Ele é sempre previsível na forma como os seus filmes se desenvolvem. Ele usa um tipo de estereótipo de anti-herói, necessariamente americano, necessariamente imperfeito, mas no final sempre capaz de reconhecer essas falhas e fazer a coisa certa. Stone é um dos expoentes máximos dos últimos 15 anos de relevância americana no mundo. Não me interessa muito esta atitude, acho que há muito mais na cultura americana e muitas mais vantagens americanas do que estes clichés que me cansam observar, repetidamente, por tipos como Stone.

Ele constrói os seus filmes com uma vulgaridade cinemática atroz. Não há visões inteligentes, na verdade não há conceitos visuais que integrem as ideias do filme. O filme simplesmente se desenvolve, não há trabalho de câmara especial, preocupações artísticas, etc.

Este filme especificamente, corresponde à descrição que fiz. É um filme vulgar, de um realizador vulgar, que tem no entanto uma sequência redentora: a primeira vez que vemos Wall Street. É uma sequência que começa com planos reveladores normais, mas depois vamos para o interior, e temos algum tempo com um pedaço fabuloso de edição, que mostra o dia-a-dia da bolsa. Gostei desse pedaço, porque há uma forma visual de passar um ambiente, que está de acordo com o que vemos. Claro que a ideia que se passa da bolsa de valores é comum, mesmo clichá, mas a narrativa visual (ambiente visual?) é muito boa. Esta sequência merece ser vista, tudo o resto é tão vulgar como sempre. Suponho que é preciso ver Platoon para termos o projecto redentor da carreira de Stone. Este não o é.

Ah, e a “arte da guerra”, aplicada ao mercado de acções, é tão amador que não vale a pena comentar.

A minha opinião: 3/5 aquela cena no início…

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve

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