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X (1963)

“X” (1963)

x ray man

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caleidoscópio

Parece-me que houve uma tentativa válida e honesta neste filme, de fazer algo eminentemente visual. A história tem a ver literalmente e unicamente com visão, é sobre o que as pessoas vêm, o que poderiam ver, e como isso afectará o seu mundo. Assim, temos o Frankenstein e o monstro no mesmo corpo, um médico obcecado com ver sob a superfície. A metáfora é bastante clara e básica, mas apesar disso é tolerável: aquele que quer ver tudo acaba por ver nada. Toda a luz é equivalente a nenhuma.

O problema, provavelmente, é a distância enorme entre as ideias dos escritores e a solução visual encontrada pelos realizadores. Eu sei que este filme tem um baixo orçamento, feito pelo mestre disso, mas também me parece que o dinheiro, ou a falta dele, dificilmente pode tornar-se a desculpa para tentativas desinteressantes de fazer um filme visual. Não é a pobreza de um cenário ou a fotografia básica que desviam os bons realizadores de tentar coisas interessantes. Para lá disso, este filme não é assim tão barato. Mas o problema é que os planos são concebidos de forma banal, muito ortodoxos, feitos para cumprir calendário e não para tentar ser imaginativo.

No entanto há aqui uma tentativa interessante, ainda que falhada. Suponho que, porque isto foi feito nos anos 60, o rock progressivo era apelativo para a juventude, o alvo maior deste filme, há uma tentativa de colocar o raio x de Milland como uma ilusão psicadélica. Por isso todos os planos “ponto de vista” são vistos como uma decomposição abstracta da realidade em cores, com um efeito adicional de caleidoscópio. Os momentos em que esses pedaços são inseridos são feitos como partes delirantes de Xavier. Não me parece que seja suficientemente interessante para eu dar mais atenção a este filme, mas apreciei o esforço, é o melhor que temos aqui.

Visão e transcendência. Ciência e religião. Neste caso, eu não me importaria com essa ligação, é inconsequente aqui.

Apreciei os pedaços cómicos, quando Xavier vê as pessoas nuas a dançar. Funcionaria de forma perfeita se pudessem mostrar tudo, não apenas os pedaços inúteis como aqui, mas tudo bem.

A minha opinião: 2/5

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Cape Fear (1962)

“Cape Fear” (1962)

cape1

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velhos jarrões

Remakes, ou filmes que foram refeitos, são uma boa experiência apenas por esse facto. Se vimos ambos, podemos ver 2 filmes em paralelo, e o filme reflexivo de imaginar como o segundo filme foi feito, o que estavam os “refazedores” a pensar. Foi assim que vi este. Já tinha visto o remake de Scorcese, antes de ver este, a partir desse momento nunca poderia ver este de forma isolada, no lugar que ele ocupava sozinho. Apenas posso imaginar.

No entanto, imaginei o que estaria Scorcese a pensar. Creio que a intenção dele não era outra senão uma questão de actualização, e cumprir o que na versão original era apenas sugerido. Tudo era mais gráfico em 1991, claro, por isso Scorcese actualizou a violência, e mostrou o que as audiências apenas estavam preparadas para serem levadas a crer, em 1960. Mas a grande coisa que Scorcese fez foi introduzir a tensão entre o Max Cady e a filha. Juliette Lewis realmente impressiona. Neste original temos o desejo sexual do personagem de Mitchum, mas é unilateral, uma simples atracção de uma mente suja a uma criança inocente. E esta é basicamente a questão:

nesta versão antiga tudo é uma questão de bem-mal. É uma abordagem mais pobre (até os motivos para a vingança são menos dúbios do que na versão de Scorcese). Bem, até os actores são menos flexíveis do que aquilo que pedimos a um bom actor moderno. Peck e Mitchum nasceram ambos artisticamente para um cinema em que o “personagem” era algo que era parte das suas personalidades como “estrelas” assim como dos seus papéis. Por isso a actuação deles é rígida, e muito limitada. Eles estão ali para exibirem os seus personagens públicos. Assim, por exemplo, se consideramos Mitchum, ele não está a tentar convencer a audiência de um certo tipo de maldade sofisticada. Ao invés, ele está a dar-nos um perfume de dureza maléfica enquanto tenta ser ele mesmo: o “Homem” bruto mas sedutor. Peck tem a vida mais facilitada, é suposto gostarmos dele por isso ele só tem de ser ele mesmo.

Este é um filme que perdeu as ambiguidades e buscas morais do filme negro original, mas que ainda não chegou a nenhuma nova fase, que inclui actuações modernas (o efeito Brando não se aplicou a estes tipos) e novas formas de construir narrativa. Para mim, soa simplesmente desactualizado, e não me disse muito.

A minha opinião: 2/5

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The Shoes of the Fisherman (1968)

“The Shoes of the Fisherman” (1968)

shoes_fisherman

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propaganda e vida real

Temos que admirar a forma inteligente como esta história antecipa a realidade. A compreensão de que um “infiltrado” do outro lado da cortina, colocado no sítio certo, com o poder correcto, poderia fazer a diferença no desfecho da guerra fria.

Bem, a maioria do que vemos neste filme é lavagem cerebral romântica. O cliché do homem bom, bem intencionado e humilde que, apesar de estar no topo do mundo e da liderança política, ainda se mantém o farol do amor e das vidas dos desfavorecidos. Por isso é que vemos este papa a viver uma vida normal, na cidade “real” e sobretudo, é esse o significado da última cena, que segue “O grande ditador”. Mas com Chaplin, nós Realmente tínhamos um artista comprometido, alguém que nesse momento se preocupava tanto com o que defendia que arriscou tudo o que era como celebridade e mesmo como artista, apenas para passar a mensagem, de verdadeira humanidade. Aqui, temos uma maquinação perversa da história (não li o livro, isto refere-se apenas ao filme). Por isso, aquele discurso final deveria, e eventualmente soa como o grito de rebelião de um homem que tenta e quebra as correntes do interesse maior, em favor dos desfavorecidos. Mas o filme é em si mesmo parte de um esquema que permite a lavagem cerebral desses desfavorecidos, e a colocação da Igreja como o líder espiritual, superior. Bem, os interesses da igreja em relação à Guerra Fria e depois eram políticos, eram mundanos, não eram altruístas. Nem nesta situação nem em qualquer momento dos seus 2000 anos de história.

Mas é notável (e suponho que isto vai para o escritor) a precisão da previsão. Como é que ele assumiu que um papa sairía das cadeias de sofrimento da união soviética? Ele saberia algo? Como é que ele criou a biografia de um homem que realmente se assemelha a João Paulo II? Isso realmente é notável.

As opções cinematográficas são boas. O filme é bastante texturado, tenta filmar muitas coisas no local, e joga com as cores, e as texturas dos espaços interiores do Vaticano, surpreendeu-me as preocupações visuais nesses temas. Também me interessou o uso de filmagens reais repetidamente, sempre que (suponho) havia a necessidade de mostrar pessoas “reais” na praça de S.Pedro. Se foi por necessidades de orçamento, ou uma opção consciente, não sei, mas o facto é que esses momentos com captações reais fizeram toda a construção deslizar para uma sensação deliciosa de documentário que, se lhe adicionarmos os últimos 30 anos de história, farão este um trabalho muito mais forte. Para realçar isto, temos um contador de histórias designado, um repórter que literalmente nos conta os factos, de um ponto de vista público. Esse repórter tem uma história pessoal, que seguimos, e que se mistura com a história do papa a certa altura. Isso não é inocente.

Bem, podemos escolher realçar a eficiência da construção cinematográfica, e como ela é provavelmente mais poderosa hoje do que era nos seus dias, devido aos factos que sabemos hoje. Ou podemos simplesmente ficar com o facto de que filmes como este são propaganda velada, que procuram moldar as opiniões das pessoas sem se assumirem como propaganda. Eu retenho essa nota, mas apreciei a experiência.

A minha opinião: 3/5

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Le Gendarme de St. Tropez (1964)

“Le Gendarme de St. Tropez” (1964)

gendarme

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o que me lembro, e o que sinto agora

De todos os géneros, a comédia é o que mais facilmente se desactualiza. Isso acontece porque as convenções em cada momento no tempo (e para cada cultura) são muito voláteis, mudam rapidamente. E, por alguma razão, não acumulamos novas noções sobre as velhas, é como quem diz, com humor, uma vez instituídas novas convenções, rejeitamos as velhas (ao contrário, por exemplo, do filme de detective). Isto significa que o que faz as pessoas rirem agora, não funcionará num curto espaço de tempo. Ainda sou novo, e já vi isso acontecer, com filmes que vi quando adolescente. Mas depois temos outro aspecto a reconhecer: o facto de que as audiências se adaptam a novas convenções independentemente da sua idade (desde que continuem a ver novos filmes e vivam vidas sociais activas), mas ganham uma memória cinematográfica. Assim, muitas vezes, as pessoas “sabem” que vão rever um filme que “é” engraçado, elas lembram-se que se riram quando o viram pela primeira vez.

Eu vi este filme com a minha mãe, e registei este efeito nela. Para mim, este era algo que eu tinha visto há 10 anos, para ela, é uma memória de infância, quando estes filmes do gendarme era frescos.

Agora já não o são. As críticas sociais são totalmente desactualizadas nas sociedades portuguesas, mesmo na portuguesa!, por isso essa é uma carta fora do baralho.

O tipo de expressão física que Funés usa já não é tão suportável. A actuação física agora joga muito mais com o corpo como objecto (tipo Jim Carey) mais do que com a colocação de personagens em situações engraçadas, como aqui (Chaplin fazia as duas coisas).

Na verdade eu simpatizo com o personagem detestável dele. O polícia raçudo, desprezável, sobre-protector da sua filha (isso é comentário social também), que se preocupa com aparências. É uma questão de atitude, e Louis de Funés era um representador válido.

Uma coisa é notável neste filme no seu contexto: St. Tropez. O que é notável, para além de praias bonitas e estilo de vida desejável, é como o cinema uma peça importante, mesmo fundamental na máquina publicitária que os franceses montaram para promover o local. Começando com ‘e deus criou a mulher’, e com vários outros filmes, incluindo este. Aqui até temos uma canção sobre a vila, obviamente feita para promover tanto o filme como o lugar. Por isso (como com ‘e deus…) temos elementos chave que era importante realçar: praia, areia, ambiente de verão, barcos, alta sociedade, juventude relaxada e de mente aberta, raparigas atractivas. A história existe para exibir estes elementos. Bem, se formos hoje a St. Tropez e compararmos com o que temos neste filme (e especialmente em ‘e deus…’) temos que admitir que eles fizeram a campanha muito bem.

A minha opinião: 3/5

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Marnie (1964)

“Marnie” (1964)

marnie

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Só uma aresta

Este é um filme menos apreciado de Hitchcock. Creio que falha num ponto que certamente interessava a Hitch, mas acerta noutro nível. De qualquer forma, creio que o que interessava mais a Hitchcock for precisamente o que falhou.

Quem leu as minhas outras opiniões sobre filmes de Hitch sabe que ele trabalhou em fases muito claras, motivadas por temas que lhe interessava dominar. Assim, creio que ele teve uma fase de exploração espacial que começa com ‘Rope’, outra baseada em ambiente/estilo (culminando com North by Northwest) e uma terceira fase onde coloco este filme.

Nesta fase, o mestre tenta encontrar soluções visuais/narrativas para entrar no abismo da alma humana. Imagino que, sendo já um mestre em manipulação visual e narrativa, e tendo criado ensaios sobre como o olho funciona (Rear Window, Rope, Dial M…) estava agora interessado em como poderia colocar o avesso de um personagem nos olhos de uma audiência. O curioso é que nesta fase ele conseguiu o seu melhor na primeira tentativa, Vertigo, um dos melhores filmes de sempre. O que ele fez depois nunca foi tão preciso e interessante, para mim. Nem Psycho, nem Birds, nem este Marnie.

O sucesso de Vertigo é que o personagem de Novak nos engana a nós como engana ao personagem de Stewart e por isso vagueamos nas mesmas ruas labirínticas de ignorância de Stewart. Esse é o truque que ele usa, e a sua capacidade superior para fazer as coisas desenvolverem-se visualmente completa a obra.

Por isso, o ponto onde este filme falha é onde era mais ambicioso: em tentar fazer-nos funcionar como Marnie, e ver o mundo pelos seu solhos. Não temos aqui um dispositivo narrativo que permita a Hitch usar os seus maravilhoso sistemas de narração visual para fazer a coisa funcionar. Por isso é que ele usa o ecran vermelho sempre que quer sublinhar o estado de espírito de Marnie. Excepto por esses momentos que não são suficientes para nos transportar, pelo menos a audiências de hoje, como espectadores somos meros observadores dos factos da vida de uma mulher que percebemos que está perturbada, sem sentirmos essa perturbação.

Também, e isto poderá ser culpa de Hedren/censura, não conseguimos ligar-nos (eu pelo menos não) à sexualidade distorcida e reprimida por baixo da frigidez de Marnie. Talvez o filme que o tema merecia não pudesse ser feito em 1964. O cavalo como um elemento de escape à repressão sexual da sua mãe, o comportamento de repulsa como o cerne da sua capacidade para atrair homens, ou a cena da violação (tanto pelo personagem de Sean como a violação subentendida da sua infância). Pena, mas não sei se Hedren seria capaz de conseguir o efeito pretendido mesmo sem os constrangimentos da censura. Simplesmente parece-me que ela não é esse tipo de mulher (talvez Novak ou Kelly o pudessem ter feito).

O que funciona é aquilo em que Hitchcock nunca falhou: a sua economia visual, e como ele nos agarra na visão e nos leva onde quer. Há cenas que são notáveis por si mesmas. Assim, vejam a cena inicial, como ele estabelece o que Marnie faz, o seu método, o seu disfarce, e a introdução ao personagem de Sean Connery e ao que ele sabe. Vejam a cena do roubo no escritório de Rutland, como o enquadramento é perfeito (em termos de decidir exactamente o que devemos ver) constrói uma cena tensa e puramente visual. E vejam o plano grua relativamente celebrado na festa, realmente é magistralmente económico e significativo. O filme é um falhanço relativo pelo que disse, mas estas cenas fazem-no valer.

A minha opinião: 3/5

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Two for the Road (1967)

“Two for the Road” (1967)

twofortheroad

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emoção cinematográfica

Esta é uma das experiências mais efectivas e carinhosas que já tive com filmes. Posso passar uma vida a tentar perceber porque é que funciona tão bem. E será uma boa vida.

Este é um dos grandes filmes que Stanley Donen promoveu e ajudou a criar nos seus anos em Inglaterra. Ele fez vários esforços em produções independentes que, ao mesmo tempo, tentavam vender-se e encontrar um lugar no mercado de cinema global, mas por outro lado eram projectos pessoais onde Donen podia explorar o que queria.

Pela relação entre cinema e emoções humanas, creio que creio que este é o melhor filme dele (dos filmes que vi até agora). É uma peça honesta de cinema, que tem o que eu peço: -é efectiva em formas que ressoam dentro de mim muito depois de o ver, como um eco que atravessa a mente e a alma; -funciona e explora o cinema como um meio em evolução, e propõem coisas novas; -encena uma história numa forma que eu nunca tinha visto.

Assim, o que temos (como sempre com Donen) não é uma única visão individual em jogo. Em vez disso temos o resultador de 2 mentes brilhantes coordenadas (Donen e Mancini) e de uma sincera, honesta e competente (Frederic Raphael). O que eles criaram foi uma longa peça de emoção não-explosiva concentrada, uma divagação de 111 minutos. Nunca tinha visto um filme com este efeito sem pontos quentes relevantes no enredo. Nada aqui é clássico na forma como não arqueia a história com pontos altos e baixos, mas transforma a história num modo. Mas tem uma história! Esse é o truque. A honestidade dela existe, creio, por causa de Raphael. Ele enraizou o enredo na vida real e é responsável, numa grande medida, pelo sucesso do filme. Os filmes são sobretudo sobre outros filmes, no sentido em que usam convenções, emoções encenadas, reacções planeadas, de acordo com um ‘género’. Um género é provavelmente um guia para um certo tipo de filme. Isso não se passa aqui. A vida invadiu o filme, e isso é o que o filme tem de especial.

Como está feito é o revolucionário aqui: temos uma história sobre uma vida normal, um casamento normal, cuja única razão para ser retratada no filme é porque é normal. O que fazem é tirar essa vida normal do seu contexto diário normal, e escolher as situações de excepção dessa vida. Vidas que correm como carros numa estrada. A estrada como vida. Funciona porque evitamos perguntar-nos certas questões: onde vivem eles exactamente? como é o quarto deles na sua casa? Onde é que ele compra o jornal quando acorda? O que faz ela na sua vida quotidiana? O que temos são vida e problemas diários destacados do seu contexto diário. E é realmente muito bom.

A construção cinematográfica também foi nova nos seus dias, e ainda eficiente hoje. Os 4 momentos distintos ao longo dos 10 anos retratados aqui são cortados e vêmo-los separados e em paralelo. Os penteados de Audrey e os carros que usam fazem a diferença para nós. Isto é uma questão de escrita. A edição ajuda a que tudo funcione. É um trabalho poderoso.

Audrey Hepburn deixa as coisas correrem. Que ela era relativamente limitada como actriz é um facto, mas aqui ela faz algo notável que é subtrair o seu estatuto de estrela do ecran, e jogar com o realizador. É uma prova que ela sabia o seu papel e o que era necessário fazer para que as coisas funcionassem.

Se quiserem, vejam o filme imaginando Paul Newman no papel de Finney, já que ele foi a primeira escolha de Donen. É um exercício engraçado.

Creio que todos deviam ser expostos a este pequeno filme pelo menos uma vez na vida.

A minha opinião: 5/5

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Charade (1963)

“Charade” (1963)

charade

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Honestidade

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Este filme funciona perfeitamente, provavelmente melhor agora que quando foi lançado. Sim, foi celebrado no seu tempo, mas os anos realçaram o charme (e a lenda) dos actores nele, e podemos vê-lo com um sentimento de mundo perdido, coisas passadas.

Stanley Donen, aqui já fora do sistema de Hollywood, apesar de depender dele, é um dos melhores realizadores americanos. Ele foi produndamente original nos seus anos como realizador de musicais, e nunca foi menos que competente no que fez depois. Isso inclui este filme apreciável. Para mim, um dos seus pontos mais fortes como realizador era a capacidade para misturar forças e talentos opostos, e criar uma visão unificada de tudo isso, motivando cooperação genuína. Não é isso o melhor que podemos esperar de um realizador? E que boa mistura ele faz aqui.

Creio que a ideia era criar um enredo que constantemente agarrasse a audiência por quebras constantes. Não sabemos mais que o personagem de Audrey, e tentamos adivinhar o verdadeiro carácter do de Grant. É extremamente eficiente porque as quebras são subtis e inteligentes, e o efeito dramático excessivo que elas poderiam ter é sempre atenuado pelo sentido de comédia do conjunto.

Grant passou uma boa parte da sua carreira a fazer comédia, e na verdade provavelmente ele definiu os padrões pelos quais a actuação em comédia ainda se regia no momento deste filme. O que o público considera “engraçado” fica rapidamente datado, mas o que ele faz aqui ainda funciona hoje, e isso é notável. Audrey/Givenchy estão nesta aventura, e ser o personagem que ela inventou para si no ecran encaixa perfeitamente aqui.

Os actores secundários também permitem que tudo funcione, especialmente Walter Matthau que, pela forma como as suas linhas são colocadas no filme, e como ele nos distrai com as suas excelentes capacidades como comediante, engana-nos a nós na mesma medida em que engana o personagem de Hepburn.

Henri Mancini é um dos meus compositores de cinema favoritos. A música aqui tem menos presença que em outros filmes que ele musicou, mas creio que ele joga com o ambiente pretendido.

Não conheço nenhum filme recente que trabalhe tão facilmente este ambiente de comédia/suspense e que pareça tão natural e pouco forçado. Aprecio as pessoas envolvidas nele.

A minha opinião: 4/5 vejam e conservem-no convosco.

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A Guide for the Married Man (1967)

“A Guide for the Married Man” (1967)

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sWingin’ in the rain

Creio que sei o que era suposto este filme ser. Esta história, e esta montagem deveriam bailar em frente dos nosso olhos tal como Gene Kelly costumava, literalmente, dançar nos seus musicais passados. Aprecio a ideia, o homem usou a imagem que o público tinha dele, e tentou ser coerente com ela, detrás da câmara. A história fala de bailarinos, tipos que contornam adversidades, esquemas para enganar as mulheres, aquele ambiente onde o adultério é cómico, e o bom nunca cai nele, porque no fundo ele compreenderá que na verdade ama a sua mulher. Assim, trocamos constantemente de cenários, e voltamos a esses cenários, introduzimos novos personagens, contando-se histórias que não sabemos se realmente aconteceram, e isso é feito de uma forma frenética (para a altura deste filme). Kelly tenta bastante manter a edição a par da história, e aprecio o esforço, mas ele não é suficientemente dotado para fazer isto com competência. No mesmo ano, Stanley Donen realizou uma obra notável, um filme que eu considero essencial, “Two for the Road”, ele tentou algo semelhante, mas saíu-se bem de uma forma que Kelly nunca poderia conseguir. Aí, Donen conseguiu controlar a edição e a linha narrativa em coerência. Estas duas mentes (Kelly e Donen) tinham sido responsáveis por uma grande experiência, “Singin’ in the rain”. Por esse filme, e por “Two for…” compreendemos que eles sabiam que poderiam chegar a algum lado com o que experimentavam. Donen chegou, mas este filme é só uma tentativa menor.

A minha opinião: 1/5

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The Apartment (1960)

“The Apartment” (1960)

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tempos modernos

Vale a pena ver o que Billy Wilder fez, independentemente do que seja, ou sob que circunstâncias ele as fez. Isso porque ele sempre tentou contornar adversidades, mesmo se no final isso aparece com a forma da ironia e da crítica aos seus patrões, usando as possibilidades que eles dão. É o que ele faz aqui. Os resultados não são muito impressionantes, talvez porque ele mistura mundos diferentes. Ele tem um romance para contar, foi para isso que foi contratado, para produzir a comédia romântica que se esperava dele, início dos anos 60, mas feita como se fosse nos anos 50. Mas na verdade, ele está angustiado porque ele sente-se agarrado e dependente do sistema de produção cinematográfica que não lhe permite exprimir livremente as suas preocupações, os seus temas, da sua própria forma. Ele teria a sua última recusa tarde na sua vida, quando Spielberg não o deixou realizar a sua Lista de Schindler. Por isso imagino que Stalag 17 deve provavelmente ter sido um projecto muito pessoal para Wilder, um que procurarei verbrevemente. Neste processo de luta pela sua própria expressão, ele criou uma obra prima, Sunset Boulevard, e o menos interessante Ace in the Hole. O noir servia perfeitamente as suas intenções de integrar os seus sentimentos sem os gritar, e ainda assim produzir o filme que lhe tinham pedido.

Aqui, isso não funcionou assim tão bem. Como o tema era romance, ele substitui o ambiente noir por sexo. Assim, temos um personagem imerso num mundo moderno de exploração, onde lhe dizem o que ele deve fazer, tem a sua vida sabotada pelos interessos dos seus (muitos) superiores. Este é um mundo que Chaplin tinha criado em Tempos Modernos, mas aqui Wilder substitui a maquinaria belissimamente coreografada da fábrica pelo sexo. O apartamento é um ponto de encontro, o sexo guia o que acontece aqui, tudo. Assim, temos um homem apanhado num sistema e que tem de criar as suas soluções para ganhar a sua liberdade de decisão. certo?

Jack Lemmon é sublime, realmente aprecio o seu estilo de comédia não explosivo, mas intenso. Ele tem uma forma de se mover, de caminhar, que fortalece o seu personagem, e neste caso particular, torna-o mais apreciável e mais fácil de acreditar que ele é na verdade um peão num mundo corrupto e opressivo. Ele é um Charlot aqui. Isto não é inocente. O Charlot deve ser uma das personagens com maior poder metafórico na história do cinema, e ele sempre representa coisas que não vemos no ecrán. Shirley MacLaine encaixa bem, a cara dela não é tão enigmática e intensa como a das Hepburns, mas ele move-se de forma mais entusiástica.

Depois de tantos anos, creio que o que suporta este filme são as actuações. Por agora já não tenho o contexto de Wilder, e estou demasiado afastado das audiências que valorizaram o filme no seu tempo. E toda a mecânica do sexo parece uma linha completamente paralela ao romance que seguimos, não está suficientemente bem integrada, creio. Apesar de tudo, há um carinho nas interpretações, e uma nostalgia que eu levava para o filme quando comecei a vê-lo, não porque vivi esses dias, mas porque pude ver o que aconteceu a esses intérpretes, Lemmon e MacLaine. A nostalgia é um ingrediente poderoso.

A minha opinião: 3/5

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Byt (1968)

“Byt” (1968)

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Cinema codificado

Este foi o meu primeiro contacto com Svankmajer. E que impressão forte tive! Ele está ‘rotulado’ com o movimento surrealista, e é frequentemente colado aos outros nomes do surrealismo em cinema. Por este filme sozinho, não verifico nada que possa ser chamado surrealismo, excepto por algumas escolhas estéticas, e alguma física do mundo do filme. Isto porque o surrealismo sempre teve que ver com a procura de transmitir através da arte estados de (in)consciência que estão para além da auto-consciência. Exemplo maior, os sonhos. Coisas que não podemos controlar, que não são materiais, não podemos tocar, que acontecem em tempo indeterminado (em forma e duração). Nada disso está aqui. Isto tem, claro, um discurso político velado nas entrelinhas. Temos um personagem a quem é dito onde deve ir, ele segue setas que levam a onde quer que alguém queira. É-lhe dado tudo, mas ele não consegue provar nada. Levam-no a portas, mas lhe permitem que as abra. Dão-lhe comida, mas é um cão que a come. Todo o filme passa totalmente dentro de um apartamento. Claro que isto é (ou poderá ser) a metáfora directa da União Soviética, a cortina de ferro, todos esses elementos que motivaram muitos cineastas e artistas a criar arte que pudesse expressar o desespero e a insatisfação sem alertar os censores. Isso não é surrealismo. É, no entanto, uma experiência fantástica. Não sei muito sobre animação checa, ou cinema checo, mas estou disposto a explorar. Vi uma curta, há pouco tempo, ‘Prílepek’, foi uma boa experiência feita por alguém que aprendeu com certeza muito desta referência checa que é Svankmajer. Assim, pressenti um trabalho em continuidade que me interessa explorar, por isso vou procurar mais destes trabalhos.

O que temos aqui (e esse aspecto é o mais próximo que conseguimos estar de surrealismo neste filme) é um mundo que define as suas próprias regras. Falo de regras físicas. É um mundo onde o comportamento dos materiais e objectos não é o mesmo que o do nosso mundo real. É possível um homem fazer um braço atravessar uma parede, ou uma cama desintegrar-se completamente como se estivesse a ser comida. É isso que nos leva para outra dimensão, isso e a edição e ritmo frenéticos. O stop-motion é notável, e o nível técnico muito muito elevado aqui.

A minha opinião: 4/5 não percam este.

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve

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