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Anatomy of a Murder (1959)

“Anatomy of a Murder” (1959)

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Advogados jazzísticos

Pelo que eu sei, este filme provavelmente definiu as regras do ‘género’ do filme de tribunal. Não que tenha sido o primeiro filme a conter um tribunal e a sala de julgamento, claro, mas foi um dos primeiros a construir dinâmicas de narrativa que se desenvolvem em torno do que advogados conseguem fazer a partir da invenção ou manipulação de certos factos. O engraçado neste tipo de filmes de disputas em tribunais, e jogos de rato e gato entre acusadores e acusados é como as palavras, e a interpretação que fazemos delas, e como essas palavras são soltas (isto inclui expressões, faciais e corporais) podem mudar completamente a realidade das coisas. O filme é, como o título sugere, a dissecção de um evento que nunca chegamos a ver, que ocorre em cenários com os quais não temos grande contacto. Por isso temos de visualizar, e fazemos isso através das palavras e das opiniões que formamos das personagens (testemunhas) que nos é permitido ver. Por isso, num certo sentido, estamos ao mesmo nível do júri. O aspecto forte deste filme, e por isso funcionou tão bem para mim é que, apesar de passarmos o filme a seguir Stewart e a defesa, nunca nos é indicado que deveríamos acreditar na história ou no personagem de Gazzara. Há muitas subtilezas, questões deixadas em aberto. Em última análise, as duas teorias expostas no tribunal fazem sentido, mas realmente ficamos sem saber qual delas (se alguma) é verdadeira:-as marcas na cara da mulher foram feitas pelo violador ou pelo marido? -as cuecas foram realmente encontradas, ou foram colocadas? -a mulher alguma vez traíu o marido?… Gostei desta ambiguidade.

O sexo esteve presente o tempo todo. Sou novo, e esta é uma boa forma para eu perceber como algumas coisas eram vistas nesse tempo: sexo e religião. Todo o espectáculo montado a volta do uso da palavra ‘panties’ na sala de tribunal, claro, mas também como o procurador tenta descredibilizar a mulher alegando o seu desrespeito à religião. Como isso poderia decidir o caso nas mentes do júri (e, suponho, das audiências há 50 anos). Temos aqui dois tipos de personagens femininos em contraponto: a abertamente sexuada Lee Remick (cujo personagem tinha o descaramento de ir a um bar sem meias nas pernas!) e a introspectiva, fechada e misteriosa Kathryn Grant. Como personagens de cinema, estou mais interessado no segundo tipo, enquanto via o filme fiz o exercício mental de trocar os papéis delas, ou pelo menos, fazer Remick parecer mais como Grant. Recomendo o exercício.

Em termos puramente visuais/cinemáticos, há dois aspectos a realçar aqui, bastante competentes e que fazem a experiência valer muito a pena, para mim: uma é o movimento de câmara, herdado do que Hitchcock vinha fazendo em anos anteriores, incluído o belíssimo “Rope” e “Rear Window”, ambos protagonizados por Stewart; isto significa que temos uma câmara curiosa, que neste caso está mais preocupado com personagens do que com espaço, apesar de normalmente o espaço se revelar como uma consequência do que os personagens fazem. Isto é muito bem feito, e tinha sido feito com um nível ainda superior 2 anos antes, com “12 angry men” de Lumet. Creio que aqui temos um meio termo entre as atitudes de Hitchcock e de Lumet. É menos consequente, não original, mas apesar disso muito competente. O outro aspecto é o jazz. Ellington, que ainda tem uma aparição com a sua banda no filme. O personagem de Stewart toca piano também, e o ritmo virtuoso do Duke realmente funciona. É uma cola cinemática, algo que transporta o filme, tanto como a actuação inflamada de Stewart ou as nossa questões internas em relação à veracidade do caso a que assistimos.

A minha opinião: 4/5

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You Only Live Once (1937)

“You Only Live Once” (1937)

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um alemão em Hollywood

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Este filme é de uma altura em que Fritz Lang ainda queria (ou pensava que podia) continuar na América com o tipo de filmes que estava a fazer na Alemanha. Temos um tema com anotações sociais, um ataque fútil à moralidade do sistema e ao preconceito. É vazio, e é superficial. Lang era bom na manipulação de imagens, e em criar cenários poderosos que pudessem, por eles mesmos, transmitir um ambiente, normalmente opressiovo, talvez uma antevisão do que o nazismo se tornaria e o que simbolizaria para a civilização ocidental.

Mas aqui ele tem de se submeter ao seu novo ambiente. Por esta altura, as diferenças que Lang poderá ter encontrado em relação ao seu contexto anterior tinham provavelmente sobretudo que ver com um certo controlo efectivo que ele terá perdido em relação às escolhas dos seus filmes. Este é um filme americano, mais do que um filme de autor, e vê-lo implica compreender o que isto significa. O resultado, neste caso, é um desastre total, para mim. Há apenas umas poucas coisas que merecem ser vistas, mas mesmo essas podem ser encontradas com uma envolvência muito maior, e logo com um efeito muito mais poderoso, noutros filmes:

- uma dessas coisas é quando sentimos a capacidade de criação visual de Lang. Aqui temos dois momentos particularmente interessantes: um é quando Fonda está encarcerado e esperando a sua execução. A prisão está concebida para termos a luz a passar por ela e produzir o efeito claro-escuro que vemos. Isto é sublinhado pela posição superior que Lang dá à sua câmara, como ele gostava de fazer, para nos dar a sensação de que alguma força exterior/superior controlava o que está por detrás do que vemos. O outro momento é o nevoeiro com vultos que caminham indefinidos na cena da fuga da prisão. Tal como com a jaula, este é um momento de tensão e de importância neste enredo sem importância. Suponho que Lang, não tendo podido cobrir todo o filme com as suas ideias visuais, tentou pelo menos reter estes momentos. Vale a pena ver estes excertos, mas eles existem em melhores contextos.

- a outra coisa que vale a pena é ver Fonda. Antes de Marlon Brando, ele é um dos poucos que compreendeu o que era necessário um actor fazer para fazer um filme funcionar. Ele é muito contido, mas ele caminha, fala, e expressa-se para a câmara, para o filme. É um prazer vê-lo mas uma vez mais, há melhores sítios onde podemos apreciar plenamente as qualidades dele.

A minha opinião: 1/5

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The Woman in the Window (1944)

“The Woman in the Window” (1944)

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imagem fraca

*** Este comentário contém informação sobre o enredo ***

Tenho passado tempo com Fritz Lang. Bom tempo. Gosto dele. Mas ele perturba-me por vezes. Ele é em parte um mestre incompleto. Enquanto trabalhava na Alemanha, ele esteve ligado ao expressionismo. Isso significa que ele procurava criar imagens, ou sequências, que fossem tão poderosas em si que pudessem colocar o espectador em contacto com a sua consciência profunda. Ele fez isso praticamente em todos esses filmes alemães, raramente com uma visão integrada, raramente com uma unidade de todos os elementos poderosos que ele conseguia cria. Mas ele sempre criou momentos que duravam.

Ele tinha uma crítica social que suportava a sua visão, e ele explorava personagens, tentando realçar o que estava para além da sua aparência. E suportava tudo isso num imaginário visual poderoso. Imagens, basicamente. Aqui ele faz exactamente o contrário. Aqui temos uma imagem que gera uma história. Isso podia ter sido interessante e na verdade, como conceito, é lindo. Mas não está bem resolvido.

O filme foi feito quando Lang já estava completamente imerso no contexto de produção americano e mais que isso, num tempo em que o filme policial noir tinha já estabelecido as suas regras (o noir que foi forjado visualmente no expressionismo alemão dos anos 20/30). Isto é importante. Aqui ele descarta o comentário social (que era muitas vezes vazio e apenas uma desculpa para as imagens). Temos, sim, alguma exploração dos limites/definição de moralidade, mas isso é secundário. Em vez disso, o foco está (tenta estar) no enredo. Temos a mulher, o homem, o detective e o cadáver. Levantam-nos todo o tipo de questões sobre o crime, e analisamos, primeiro com o assassino incompetente, e depois com o polícia, todas as possibilidades, todas as pistas. Mas o filme é um falhanço. Não temos nenhuma dúvida sobre as intenções de cada um dos personagens. Sabemos o que aconteceu, e com a excepção de como vai terminar, sabemos tudo sobre cada personagem. A mulher não tem segredos, ela surge enigmaticamente associada a uma imagem, mas ela é realmente o que diz ser. O protagonista é um peão no jogo, mas apenas devido à sua inaptidão, não porque há um jogo maior que ele não controla. 3 anos depois de ‘o falcão do maltês’, este tipo de construção narrativa estava melhor estudado do que o que se mostra aqui.

E a imagem da mulher, ou o contexto em que ela aparece, não é suficientemente poderoso… não nos transporta para outra dimensão como deveria. não nos leva para um sonho, como levou Robinson…

A minha opinião: 2/5

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Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull (2008)

“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull” (2008 )

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memórias queridas

É interessante ver este tipo de sequelas, ou prequelas, de heróis passados, filmes clássicos. É interessante porque podemos fazer um balanço das mudanças, o que era e o que é, mudanças em quem criou os filmes, nos espectadores, e em nós próprios.

Cresci a ver vezes sem conta alguns filmes (e algum tipo de filmes) que moldaram, em maior ou menor grau, os gostos cinematográficos da minha geração, em geral. Estes filmes incluíam os velhos filmes do Indiana Jones. Eles eram novos, devem ter chocado positivamente as audiências desses dias - eu nasci no ano do segundo filme por isso não posso avaliar como as coisas eram então; de facto estou demasiado ligado a esses filmes para os poder comentar com justiça como filmes, apenas tenho a minha memória pessoal deles. Mas enquanto tínhamos então novas ideias, criadores frescos que criavam um novo ambiente, novo entretenimento cinematográfico, agora não temos nada disso, claro. Agora temos o mesmo grupo de criadores, mas sem coisas novas a dar. Por isso usam as suas memórias pessoas do que fizeram, e usam a relação carinhosa entre as audiências e os filmes - o público alvo jovem dos anos 80 ainda vai aos filmes hoje em dia, mais as gerações mais jovens, como a minha.

- assim, é interessante ver o que temos aqui, apesar da sua pobreza relativa como filme ou mesmo como entretenimento: nos últimos 20 anos aconteceram novas coisas em cinema, novos códigos foram implementados e aceites por audiências regulares. Die Hard, Arma Mortífera, a influência do estilo de luta de Bruce Lee nos filmes de acção ocidentais, ou mais recentemente a série Bourne, tudo foram séries que progressivamente mudaram o que as audiências esperam dos novos filmes que saem. Se virmos os filmes Bond todos, cronologicamente, vamos verificar como essas expectativas foram mudando ao longo dos anos. Isto significa que os filmes Indy dos anos 80 são clássicos, extremamente bem feitos, mas entretanto coisas foram acrescentadas ao que tinha sido feito aí, e um ‘novo’ indiana jones não consegue ser agradável para as novas audiências como os antigos. As audiências mudam.

- as pessoas envolvidas também mudaram. Sim, temos Spielber, Lucas e Harrison Ford na aventura. Temos até Karen Allen, a amante original do Indiana, que fecha o círculo, e liga gerações, e os filmes. Mas eles já não são novos. Neste momento parece-me que eles estão sobretudo a divertir-se, e a dar-se a oportunidade para reviver velhos dias, mais do que realmente tentarem fazer o melhor filme possível. Por isso é que temos todas as referências aos velhos filmes: o armazém do início, a Arca, Marion Ravenwood, o pai de indy, Marcus, a cena da bicicleta na biblioteca (Indy diz exactamente o contrário sobre como ser um arqueólogo do que tinha dito em ‘a última cruzada’) etc… os fãs de indiana jones podem encher esta lista com pormenor. Aparte dessas, temos referências a outros filmes. Isto é interessante. Spielberg referencia a cabeça do seu ET de 82, o cadáver do corpo do extraterrestre parece-se muito com o outro. Uma ligação interessante é a Brando: Mutt Williams é, claro, o Brando de ‘the wild one’ na primeira vez que aparece no ecran. Esse filme é de 1953, este supostamente acontece em 1957. A luta do café também foi buscar as partes em conflito do ‘the outsiders’ de Coppola, de 1984. Assim, em vez de termos uma pesquisa sobre as roupas desses dias, etc, tiradas de fontes confiáveis, temos aspectos visuais históricos retirados de outros filmes. É bem conhecido que Indiana Jones, na sua origem, era suposto ser um herói antiquado, baseado em velhas histórias de aventuras. Nunca foi baseado na vida, antes na fantasia. Apreciei a coerência.

- Por último, algo mais mudou nos últimos 19 anos: eu. Eu estava disposto a Não questionar certas coisas que agora posso não aceitar. As aventuras de Indiana Jones sempre tiveram que ver com auto sublimação, enraizadas em histórias irreais, ficcionais, historicamente não suportáveis. Tudo bem. Aceitava isso. Aqui questionei coisas, creio que perdi parte da minha inocência (fé?).

Devo dizer que uma coisa realmente me impressionou aqui, que foi o trabalho de câmara. Spielberg sempre foi bastante competente na forma como a move e nos faz encontrar/seguir/sentir o que ele quer. Aqui ele tem momentos brilhantes, alguns mesmo melhores que os dos velhos filmes. A explosão nuclear foi fantástica neste aspecto, e a sequência inicial no armazém também.

A minha opinião: 3/5

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Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988)

“Mujeres al borde de un ataque de nervios” (1988 )

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Intenções dobradas

Todos os verdadeiros artistas confiam, em maior ou menor grau, na sua intuição. Há aqueles cuja magia repousa inteiramente nas escolhas intuitivas que fazem. É maravilhoso podermos confiar na intuição de alguém (ainda mais quando a nossa própria intuição funciona também). Depois temos aqueles que começam numa base racional, e só depois de criarem uma rede de segurança em que possam confiar é que colocam algo dos seus sentimentos mais profundos aí. Creio que este segundo tipo corresponde à maioria das mentes criativas. Por um longo período de tempo, pensei que Almodóvar pertencia ao primeiro tipo de realizador. Depois de ver este filme, definitivamente coloco-o no segundo tipo. Para um espectador desinformado, como eu era quando entrei no mundo dos filmes de Almodóvar, ele pode surgir como se não existisse uma estrutura especialmente reconhecível por trás do que vemos. Os meus visionamentos recentes dos seus filmes convenceram-me do contrário, especialmente este. Este é um filme em que (ao contrário dos outros) a mecânica da história tem a ver com como ela se desenvolve. É uma comédia, tudo bem, e constrói um mundo de coincidências e factos ligados que vêm sempre a ser importante, com o desenrolar da história.

Assim, temos uma narrativa de histórias circulares, intersecções, e coincidências. Os primeiros 5 ou 6 minutos do filme, incluindo os créditos iniciais, são especialmente fantásticos na forma como vemos isso. Temos uma montagem pop de pedaços de revistas, pedaços de vidas, caras, pedaços coloridos. Isto introduz-nos no ritmo do filme, que é frenético em sentido de comédia (isto mostra-se pela história, não a edição). Depois somos introduzidos à nossa personagem principal, ao redor da qual tudo se desenvolve: ela dobra filmes, o que significa que ela empresta a voz a outros corpos. Ela era (vimos a compreender) a amante de um homem que faz o mesmo. E temos aí um fantástico pedaço de filme, em que seguimos esta voz off a dobrar, e o filme que ela está a dobrar, já com o som dobrado. Ela está a dobrar sozinha, a voz masculinha está silenciosa (ouvi-la antes, no início da sequência, também desacompanhada da voz feminina aí). Isto é um trabalho minucioso. Uma sequência fantástica. Colocou-me no ambiente, pensei eu. Isto porque somos enganados por esta primeira cena. A seguir a isto, tudo se transforma num ambiente de comédia (que segue as comédias screwball americanas, isto é assumido por Almodóvar).

As maiores preocupações cinematográficas de todos os filmes de Pedro Almodóvar caem em trabalhar a narrativa de formas que sejam novas, sedutoras, e visuais. Todos os seus films (especialmente os dos anos 80) eram puras experiências, completamente diferentes da experiência anterior. Aí, Pedro estava ligado a um certo ambiente, uma forma psicadélica de vida, certamente derivada da sua experiência dentro da Movida, o underground madrileno dos anos 70. Apesar disso ele estava já a tentar construir novas formas narrativas. Há uma certa característica recorrente em todos os seus filmes: ele gosta da ideia de ter actores cujos personagens actuam. Actrizes que representam actrizes, personagens que pretendem ser algo diferente. Os seus modos narrativos têm muito que ver com isto. Aqui ele foi muito inteligente em como realçou este aspecto. A primeira cena que mencionei estabelece esta ordem, a mãe louca que tenta passar por sã para cumprir a sua loucura, e o filme tem uma conclusão numa cena em que todos estão a actuar e a mentir à polícia. Perto do início, a mulher louca (que finge viver 20 anos antes do seu tempo) diz ao seu pai: “Mentes tão bem, papá! Por isso é que gosto de ti”. Almodóvar escreveu o guião…

A falha aqui está em tudo ser mecânico. Este desenvolvimento por coincidências circulares, e um enredo escondido que acaba por se revelar e nos revelar a verdade não está exactamente em linha com os melhores esforços visuais de Almodóvar. Creio que ele sabe isso, ele chegou mesmo a dizer que este guião foi bastante mais fácil de escrever do que, por exemplo, o de Kika (que tem um conteúdo narrativo bem mais implícito). Assim, narrativamente, isto É Almodóvar, mas não o seu melhor. Mas tem pinceladas lindas, intenções sublinhadas (e sublimadas), e levarei aqueles minutos iniciais onde quer que vá.

A minha opinião: 4/5

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Yo puta (2004)

“Yo puta” (2004)

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Yo nada

Isto é um completo desperdício de ideias eventualmente interessantes. Gosto de realizadores que tentam ultrapassar canônes pre concebidos e formas de contar histórias. Nos dias de hoje, os melhores ensaios cinematográficos que se podem encontrar têm que ver com a reformulação de dispositivos narrativos e história, e num segundo plano, ideias visuais renovadas. Se o olho está em conformidade com o dispositivo narrativo, temos grandes filmes.

Aqui temos um trabalho de alguém que provavelmente concorda com o que disse acima mas, pelo menos esta tentativa (a segunda, confiando no IMDb) foi completamente desfocada, inútil, sem gosto. É um trabalho terrível, queria ser muito, tentou fazer coisas de uma forma imaginativa, mas o resultado final é um desastre originado, creio, na falta de sensibilidade de quem o engendrou.

Assim, contam-nos uma narrativa ficcionalizada, por camadas. Isto significa que temos um grande número de linhas a seguir (aqui associadas com diferentes prostitutas. O dispositivo escolhido é o falso documentário. No meio desta falsidade assumida, temos uma linha de ficção, com Richars, Hannah e Almeida. O problema é a rigidez com que esta construção é feita, e o pouco imaginativa que ela se torna no seu desenvolvimento. O que quero dizer é, as actrizes que representam prostitutas (realmente creio que todas eram actrizes, só tive 1 ou 2 dúvidas) são um cliché completo, alguém se sentou e pensou “quantos tipos de prostituas, e motivações para a prostituição, e condições sociais de prostitutas existem?”. E nada mais. Temos a ninfomaníaca negra africana, temos a brasileira com ar de disponibilidade sexual, temos a latino-americana descendente de índios, temos a acompanhante de classe alta (que é francesa!), temos o prostituto masculino. Temos aqueles que gostam do que fazem, aqueles que o fazem por dinheiro e aqueles que não têm outra escolha. Tão inútil, tão superficial, tão aborrecido, uma perda de tempo. Há grandes exemplos de falsos documentários sobre realidades meio reais (estando ‘F for fake’ no topo dessa lista) que é terrível que alguém pudesse fazer isto como o vemos. Qual é o sentido de retratar pessoas que parecem prostitutas, falam como vários estereótipos de prostitutas falariam, actuar como prostitutas, vivem como prostitutas, mas na verdade são actores? A pergunta é: porque não colocar prostitutas reais e fazer um documentário real se não há manipulação, não há intenção alguma por trás da ideia do falso documentário?

Depois, para concluir, a história ficcional. Uma estudante de antropologia, virgem, que estuda a prostituição. A sua vizinha é uma prostituta e devido a problemas financeiros, ela acaba por entrar no mundo. Qual foi o sentido? No final, isto desenvolveu-se como os documentários comuns dos canais de televisão, História, Biography, Odisseia, etc. Com uma diferença: com esses documentários, pelo menos poderemos eventualmente retirar factos interessantes, se não os conhecemos, e se queremos ser distraídos (eu não quero) podemos confiar nos terríveis momentos encenados.

A resolução visual do filme está de acordo com a inutilidade das escolhas narrativas. Na maior parte do tempo temos mulheres destacadas de algum contexto onde estavam a falar, e coladas sobre fotografias de hoteis baratos onde a prostituição ocorre. Outras vezes temos truques visuais, de imagens deformadas, e cores altamente saturadas.

A minha opinião: 1/5 evitem.

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Uncovered (1994)

“Uncovered” (1994)

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Kate e Barcelona

Esta é uma experiência que vale a pena, apesar das muitas falhas que o filme tem. É um trabalho fraco na maioria das características que se possam pensar, relacionados com a técnica cinematográfica, e expressão:

As actuações são infantis, isto aplica-se a praticamente todos os participantes. A excepção é Beckinsale, ela move-se de uma forma ingénua e arrapazada mas destila sexo. Ela concentra atenções sem ter demasiada consciência disso, e fá-lo bem. O resto das actuações são fracas. A edição não ajuda também. Os pressupostos para uma montagem deste tipo não são difíceis de seguir. Apenas tem de se contar acções físicas, lineares e comuns. No entanto há transições, problemas básicos de continuidade que não estão resolvidos, expressões nas caras que mudam, etc. A música também não é bem colocada, é uma má banda sonora no seu próprio valor, mas acima de tudo no ambiente que transmite. As referências tribais não eram necessárias, e de acordo com este tipo de história, de influência noir, teria sido interessante ter a música a ligar os cenários e evoluções da história.

Mas há 3 coisas pelas quais vale a pena ver o filme. Uma é a estrutura narrativa, como a história se desenvolve. O filme está baseado num romance de Pérez-Reverte, o homem que também escreveu A Nona Porta. Assim, temos uma fusão de arte e vida, a história que acontece à nossa frente foi “escrita” ou pelo menos determinada há muitos anos, por um artista, neste caso um pintor. A primeira cena é fantástica na forma como transmite isto, realmente foi uma das primeiras cenas mais significantes e económicas que já vi desde sempre. Basicamente começa com o primeiro plano de uma mão numa pintura (uma mão como sinónimo de poder, capacidade de fazer coisas), e a câmara afasta-se da pintura (move-se, não é zoom out) e vamos percebendo a margem da pintura completamente fundida com o ambiente “real” que a rodeia. Esta ilusão de fusão funciona por uns momentos, após os quais entramos no ambiente envolvente e esquecemos momentariamente a pintura. Isto funciona muito bem.

Outra coisa interessante é o uso da casa Batlló, de Gaudi. É interessante como a câmara (e a edição) mentem sobre o edifício, para realçar as suas qualidades. Não é uma exploração de espaço especialmente brilhante, mas é bastante competente: o que se passa é, vemos Beckinsale a subir as escadas que sobem para o primeiro piso, ela toca a campainha dessa porta. Estas escadas são lindas, curvam como as costas de um animal, temos a sensação de elevação, mais do que subir escadas. Depois isto é editado e o espaço interior que temos é do interior do sotão, que está construído com arcos que lembram a espinha dorsal de um animal e as costelas. Mais tarde no filme, teremos um plano exterior que estabelece o cenário e que conduz a câmara, do exterior, todo o caminho até ao sotão. Só aqui é assumido que o personagem vive no sotão, não no primeiro piso. Isto foi interessante e demonstrou interesse em jogar com a casa. Uma nota paralela é que este filme é uma boa oportunidade para ver o rés-do-chão da casa, que hoje está poluído pelas grades que conduzem turistas, e pelos próprios turistas, alinhados, que também enchem o passeio envolvente. Pena. Tenho a teoria de que o turismo está literalmente a matar e a sugar vida real dos nossos melhores sítios no mundo, mas isso é outra discussão.

De qualquer forma, o olhar turístico também pode ser visto nos planos que usam a cidade. Aqui também temos mentiras, normalmente relacionadas com a intenção de ter a todo o custo planos cliché. Creio que não foi bem feito isso aqui. Eles não tinham de mostrar todos os sítios conhecidos a toda a hora. Há sítios na cidade relativamente escondidos que são fantástico, e mostram muito mais do modo de vida que os monumentos. Um desses sítios é mesmo usado, o mercado de St.Antoní (a protagonista vive em frente a ele). O sítio tem vida, e eles usam-no bem em algumas cenas. Mas depois mentem sobre a cidade, por isso temos a protagonista a ir da Batló, à Rambla, à Sagrada Família, ao mercado, como se fossem sítios suficientemente perto uns dos outros para se caminhar, na sequência que eu indiquei. É uma mentira, e não tenho nada contra isso, mas tenho contra este esforço de fazer um postal ilustrado da cidade sem retirar nada útil disso. Um bom uso da arquitectura comum é o feito com a casa de Beckinsale, especialmente com as escadas centrais, e o elevador central. O uso do Parque Guëll não é particularmente interessante, excepto por algum movimento de câmara entre as colunas. E nesse movimento foram inseridos alguns casais que namoram encenando. Muito pobre, muito artificial, não era necessário, o parque tem uma vida própria interessante.

A minha opinião: 3/5

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Angel-A (2005)

“Angel-A” (2005)

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Luc Besson mais tranquilo

O filme é doce, é açúcar, e tocou-me. O que Besson faz toca-me sempre. Ele tem qualidades que eu não reconheço em nenhum outro cineasta francês: ele confia na intuição, e não é pretensioso. Creio que a segunda é uma consequência da primeira. Também penso que ele é um realizador mal interpretado.

Ele não desenvolve os seus filmes em torno de construções narrativas ou histórias especialmente inteligentes ou complexas. Mas ele constrói tudo no olho, ele é puramente visual na sua narratica e no ambiente que cria para os seus filmes, e é isso que realmente aprecio nele. Ele tem ideias visuais para agarrar as histórias inúteis que conta. Mas essas histórias, apesar de superficiais e mundanas na maioria das vezes, ajudam-no a construir o modo cinematográfico, tal como ajudavam a Hitchcock. Uma boa forma de provar o que estou a dizer é ver alguns dos filmes que Besson escreveu sem realizar. Normalmente temos filmes de acção, acéfalos e inúteis. O que ele escreve só faz sentido quando é ele quem dirige. Por isso é que temos cenas de acção nos seus filmes (não neste). Ele na verdade não é um realizador de acção, não no meu dicionário. Mas é mal interpretado como sendo um, muitas vezes mesmo desprezado como sendo um realizador de acção.

Aqui ele tenta fazer algo que ainda não tinha tentado antes (ele sempre tenta coisas novas). Não utiliza tanto o trabalho de câmara (a vários momentos eu duvidei mesmo que ele tenha estado na concepção dos planos) como criador de um ambiente. Ele tenta fazer isso com a cidade e a fotografia.

O primeiro plano é claro e diz-nos tudo. Temos um personagem que mente sobre si mesmo, e imediatamente após, sofre fisicamente com essas mentiras. Um homem que tenta ser ele mesmo. Ele terá uma loira sexy para o ajudar, e teremos o envolvimento romântico que esperamos. É tudo. É superficial, e descartei o interesse intrínseco da história desde o início. Temos de nos focar nas cores. Não é preto e branco, é uma cor dessaturada, com predominância no azul. É subtil, tão subtil como normalmente o são os movimentos de câmara de Besson. Mas realmente senti a falta daqueles movimentos profundos, que exploram espaço como se uma cidade fosse o espaço submarino tão querido de Besson, que ele até já filmou. Este filme é doce, mas não é muito mais que isso. Precisei da relação Reno-Portman de Léon.

A minha opinião: 3/5

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Novo (2002)

“Novo” (2002)

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nada para além do que vemos

Este filme é confuso e desfocado. Tenta ser demasiadas coisas, e falha em conseguir alguma delas com sucesso.

O filme queria ser uma história de amor dita de uma perspectiva diferente. Queria jogar com a memória como creadora de realidade, ou algo capaz de definir uma certa realidade. Queria estabelecer a ambiguidade em relação às motivações e em relação a quem controla o que vemos; quem está a submeter a realidade do que vemos à sua visão específica. Também queria usar o sexo, e personagens de motivações sexuais (sobretudo femininas) como uma cola cinematográfica que juntasse tudo isto. Consigo pensar em vários filmes para cada uma destas intenções frustradas que resolvem o seu tema específico com mais sucesso que este. Não conheço um único filme que resolva bem tudo ao mesmo tempo. E se encontrar um, creio que não será pelos autores deste. Pelo menos a avaliar pelo que vi aqui.

‘Memento’ brincou com as noções e os efeitos da memória a curto prazo, e a perda de memória com muito maior profundidade. Aqui, temos as perdas de memória como o dispositivo que permite ao nosso personagem tornar-se a marioneta de outros e fazer o que outros querem. É o necessário para ele ser instável e para lançar a dúvida sobre quem ele é, o que ele quer. Noriega fez o papel equivalente em ‘Abre los ojos’, que era muito mais interessante. Nesta questão, até ‘o cão zarolho’ explorava melhor o tema!… Aqui temos ligações que existem para percebermos a evolução do amnésico, as artes marciais, as sessões de fotos, o bloco de notas. Mas nada disso é realmente usado. O final desenrola-se como uma situação romântica comum de encontro e decisão sobre que mulher o protagonista vai eleger (que se vê a milhas de distância).

Assim termina como a história de amor que o filme também quer ser. A parte da ‘mulher que ama o homem aceitando-o pelo que ele é’. É vulgar, mas tem uma nova roupagem, para parecer novo. Mas se paramos e pensamos, não há absolutamente nada que mereça ser mencionado sobre essa história. Se querem formas renovadas de juntar um ambiente de amor e a criação de realidades alternativas, tentem Medem. Em ‘los amantes…’, em ‘Lucia y el sexo’, em ‘La ardilla roja’. Ele consegue fazer isso. Por coincidência (ou não), aqui temos até a Lucia de Medem (Paz Vega) como a mulher do protagonista doente que, nos seus momentos de recuperação, fala espanhol…

Depois temos as tentativas de jogar com as forças que controlam o que vemos. Sabemos quase sempre tanto como o personagem principal. E praticamente todos os personagens (excepto o rapaz e a mulher que ama o protagonista) têm intenções ambíguas (tirando o facto de que levamos o nosso tempo a perceber onde cada um encaixa, isso é uma coisa boa). Dão-nos uma uma sucessão de factos que não podemos julgar correctamente. Mas depois compreendemos que o filme se desloca para parte nenhuma, e o que vemos é o que realmente é. Não há viragens, não há revelações, o que parece estar a acontecer está realmente a acontecer. Não significa que tivessemos de ser enganados, mas deveria haver alguma intenção por trás da ideia de lançar ambiguidade em cada canto. Vejam ‘Oldboy’, se querem trabalho de mestre em relação a estes conceitos.

A minha opinião: 2/5 isto é uma confusão, mas tem alguns conceitos interessantes se começarmos a pensar o que isto poderia ser.

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My life without me (2003)

“My life without me” (2003)

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Kar Wai e uma história

Começo a gostar de estar no mundo que Coixet cria para os seus filmes. Esta foi só a minha segunda experiência com o trabalho dela (a outra foi ‘a vida secreta…’)

Ela tem uma qualidade que aprecio imenso, que é a capacidade de construir um mundo e incluir-me nele, como espectador, nesse mundo. E o mundo dela é muito pessoal, algo depressivo, mas que convida à auto-reflexão. Tem uma dialéctica interessante entre ser em si mesmo um mundo escuro, com sombras, povoado de personagens estranhos e pesados, mas no final passar uma mensagem positiva, no sentido em que nos motiva.

A estrutura é construída de forma clara: nos dois filmes que pude ver, ela segura as suas histórias em perguntas de “E se…”. E se tivesses apenas 2 meses para viver? não um princípio original, mas temos uma versão interessante aqui. A questão é imediatamente respondida pelo personagem que vai morrer. Ela escreve essa resposta, define tópicos. Nós vemos mesmo as palavras a serem escritas em frente a nós, no écran. Isto é simbólico. A questão surge de uma partida do destino: câncro. A resposta é completamente controlada pelo personagem de Polley. Assim temos uma luta entre o destino e o poder da personagem para controlar a vida que lhe resta. Ela controla todo o filme, desde o momento em que sabe que vai morrer. Ela submete toda a realidade da vida dela à visão que ela tem dessa realidade sem a sua presença. Assim, ela “escreve” os últimos dias dela, e escreve a vida daqueles que são parte do seu mundo e daqueles que ela vai permitir que entrem nesse mundo. Assim o mundo gira em torno de um personagem, que também o controla. Isto é uma narrativa inteligente.

Visualmente, o ambiente baseia-se no trabalho/movimento da câmara e alguns truques de edição inteligentes (sobretudo quando temos um monólogo que continua mesmo quando vemos a boca fechada do personagem a falar) e a fotografia. A forma como Coixet usa a câmara manual para nos fazer chegar próximo dos personagens é muito pessoal, e funciona, e creio que é a força visual dos seus filmes, e o que suporta o mundo desses filmes. A fotografia segue a tradição Kar Wai/Christopher Doyle, mais notavelmente no primeiro terço do filme. Penso que não foi uma boa opção. Kar Wai desenvolve os seus filmes como contentores vazios em que nós podemos colocar coisas num tipo de abstração muito sensível e abstracta em que nós, como indivíduos, deveremos ser os principais intervenientes. A qualidade visual dos filmes de Kar Wai existe para nos apoiar e nos dar pistas na nossa procura mental/emocional. Coixet alimenta-nos com informação concreta. Ela dá-nos linhas para seguir, ela motiva a reflexão mas através das suas próprias reflexões (história) que nós deveremos seguir. Assim não poderemos com um filme dela meditar visualmente como fazemos com Kar Wai. Nos filmes dele, a imagem que temos é parte do contentor, o resto é connosco. Coixet enche esse contentor com elementos bem definidos, mas também se preocupa com as “paredes” do contentor, mesmo se elas estão tapadas com os personagens que ela cria. Em ‘A vida secreta das palavras’ ela separou-se desta emulação de Christopher Doyle, apesar do cinematógrafo ser o mesmo nos dois filmes (Larrieu). Suponho que isso teve algo que ver com esta observação que fiz.

A minha opinião: 4/5

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