Arquivo da categoria 'Cinema e sociedade'

You Only Live Once (1937)

“You Only Live Once” (1937)

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um alemão em Hollywood

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Este filme é de uma altura em que Fritz Lang ainda queria (ou pensava que podia) continuar na América com o tipo de filmes que estava a fazer na Alemanha. Temos um tema com anotações sociais, um ataque fútil à moralidade do sistema e ao preconceito. É vazio, e é superficial. Lang era bom na manipulação de imagens, e em criar cenários poderosos que pudessem, por eles mesmos, transmitir um ambiente, normalmente opressiovo, talvez uma antevisão do que o nazismo se tornaria e o que simbolizaria para a civilização ocidental.

Mas aqui ele tem de se submeter ao seu novo ambiente. Por esta altura, as diferenças que Lang poderá ter encontrado em relação ao seu contexto anterior tinham provavelmente sobretudo que ver com um certo controlo efectivo que ele terá perdido em relação às escolhas dos seus filmes. Este é um filme americano, mais do que um filme de autor, e vê-lo implica compreender o que isto significa. O resultado, neste caso, é um desastre total, para mim. Há apenas umas poucas coisas que merecem ser vistas, mas mesmo essas podem ser encontradas com uma envolvência muito maior, e logo com um efeito muito mais poderoso, noutros filmes:

- uma dessas coisas é quando sentimos a capacidade de criação visual de Lang. Aqui temos dois momentos particularmente interessantes: um é quando Fonda está encarcerado e esperando a sua execução. A prisão está concebida para termos a luz a passar por ela e produzir o efeito claro-escuro que vemos. Isto é sublinhado pela posição superior que Lang dá à sua câmara, como ele gostava de fazer, para nos dar a sensação de que alguma força exterior/superior controlava o que está por detrás do que vemos. O outro momento é o nevoeiro com vultos que caminham indefinidos na cena da fuga da prisão. Tal como com a jaula, este é um momento de tensão e de importância neste enredo sem importância. Suponho que Lang, não tendo podido cobrir todo o filme com as suas ideias visuais, tentou pelo menos reter estes momentos. Vale a pena ver estes excertos, mas eles existem em melhores contextos.

- a outra coisa que vale a pena é ver Fonda. Antes de Marlon Brando, ele é um dos poucos que compreendeu o que era necessário um actor fazer para fazer um filme funcionar. Ele é muito contido, mas ele caminha, fala, e expressa-se para a câmara, para o filme. É um prazer vê-lo mas uma vez mais, há melhores sítios onde podemos apreciar plenamente as qualidades dele.

A minha opinião: 1/5

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Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull (2008)

“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull” (2008 )

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memórias queridas

É interessante ver este tipo de sequelas, ou prequelas, de heróis passados, filmes clássicos. É interessante porque podemos fazer um balanço das mudanças, o que era e o que é, mudanças em quem criou os filmes, nos espectadores, e em nós próprios.

Cresci a ver vezes sem conta alguns filmes (e algum tipo de filmes) que moldaram, em maior ou menor grau, os gostos cinematográficos da minha geração, em geral. Estes filmes incluíam os velhos filmes do Indiana Jones. Eles eram novos, devem ter chocado positivamente as audiências desses dias - eu nasci no ano do segundo filme por isso não posso avaliar como as coisas eram então; de facto estou demasiado ligado a esses filmes para os poder comentar com justiça como filmes, apenas tenho a minha memória pessoal deles. Mas enquanto tínhamos então novas ideias, criadores frescos que criavam um novo ambiente, novo entretenimento cinematográfico, agora não temos nada disso, claro. Agora temos o mesmo grupo de criadores, mas sem coisas novas a dar. Por isso usam as suas memórias pessoas do que fizeram, e usam a relação carinhosa entre as audiências e os filmes - o público alvo jovem dos anos 80 ainda vai aos filmes hoje em dia, mais as gerações mais jovens, como a minha.

- assim, é interessante ver o que temos aqui, apesar da sua pobreza relativa como filme ou mesmo como entretenimento: nos últimos 20 anos aconteceram novas coisas em cinema, novos códigos foram implementados e aceites por audiências regulares. Die Hard, Arma Mortífera, a influência do estilo de luta de Bruce Lee nos filmes de acção ocidentais, ou mais recentemente a série Bourne, tudo foram séries que progressivamente mudaram o que as audiências esperam dos novos filmes que saem. Se virmos os filmes Bond todos, cronologicamente, vamos verificar como essas expectativas foram mudando ao longo dos anos. Isto significa que os filmes Indy dos anos 80 são clássicos, extremamente bem feitos, mas entretanto coisas foram acrescentadas ao que tinha sido feito aí, e um ‘novo’ indiana jones não consegue ser agradável para as novas audiências como os antigos. As audiências mudam.

- as pessoas envolvidas também mudaram. Sim, temos Spielber, Lucas e Harrison Ford na aventura. Temos até Karen Allen, a amante original do Indiana, que fecha o círculo, e liga gerações, e os filmes. Mas eles já não são novos. Neste momento parece-me que eles estão sobretudo a divertir-se, e a dar-se a oportunidade para reviver velhos dias, mais do que realmente tentarem fazer o melhor filme possível. Por isso é que temos todas as referências aos velhos filmes: o armazém do início, a Arca, Marion Ravenwood, o pai de indy, Marcus, a cena da bicicleta na biblioteca (Indy diz exactamente o contrário sobre como ser um arqueólogo do que tinha dito em ‘a última cruzada’) etc… os fãs de indiana jones podem encher esta lista com pormenor. Aparte dessas, temos referências a outros filmes. Isto é interessante. Spielberg referencia a cabeça do seu ET de 82, o cadáver do corpo do extraterrestre parece-se muito com o outro. Uma ligação interessante é a Brando: Mutt Williams é, claro, o Brando de ‘the wild one’ na primeira vez que aparece no ecran. Esse filme é de 1953, este supostamente acontece em 1957. A luta do café também foi buscar as partes em conflito do ‘the outsiders’ de Coppola, de 1984. Assim, em vez de termos uma pesquisa sobre as roupas desses dias, etc, tiradas de fontes confiáveis, temos aspectos visuais históricos retirados de outros filmes. É bem conhecido que Indiana Jones, na sua origem, era suposto ser um herói antiquado, baseado em velhas histórias de aventuras. Nunca foi baseado na vida, antes na fantasia. Apreciei a coerência.

- Por último, algo mais mudou nos últimos 19 anos: eu. Eu estava disposto a Não questionar certas coisas que agora posso não aceitar. As aventuras de Indiana Jones sempre tiveram que ver com auto sublimação, enraizadas em histórias irreais, ficcionais, historicamente não suportáveis. Tudo bem. Aceitava isso. Aqui questionei coisas, creio que perdi parte da minha inocência (fé?).

Devo dizer que uma coisa realmente me impressionou aqui, que foi o trabalho de câmara. Spielberg sempre foi bastante competente na forma como a move e nos faz encontrar/seguir/sentir o que ele quer. Aqui ele tem momentos brilhantes, alguns mesmo melhores que os dos velhos filmes. A explosão nuclear foi fantástica neste aspecto, e a sequência inicial no armazém também.

A minha opinião: 3/5

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Yo puta (2004)

“Yo puta” (2004)

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Yo nada

Isto é um completo desperdício de ideias eventualmente interessantes. Gosto de realizadores que tentam ultrapassar canônes pre concebidos e formas de contar histórias. Nos dias de hoje, os melhores ensaios cinematográficos que se podem encontrar têm que ver com a reformulação de dispositivos narrativos e história, e num segundo plano, ideias visuais renovadas. Se o olho está em conformidade com o dispositivo narrativo, temos grandes filmes.

Aqui temos um trabalho de alguém que provavelmente concorda com o que disse acima mas, pelo menos esta tentativa (a segunda, confiando no IMDb) foi completamente desfocada, inútil, sem gosto. É um trabalho terrível, queria ser muito, tentou fazer coisas de uma forma imaginativa, mas o resultado final é um desastre originado, creio, na falta de sensibilidade de quem o engendrou.

Assim, contam-nos uma narrativa ficcionalizada, por camadas. Isto significa que temos um grande número de linhas a seguir (aqui associadas com diferentes prostitutas. O dispositivo escolhido é o falso documentário. No meio desta falsidade assumida, temos uma linha de ficção, com Richars, Hannah e Almeida. O problema é a rigidez com que esta construção é feita, e o pouco imaginativa que ela se torna no seu desenvolvimento. O que quero dizer é, as actrizes que representam prostitutas (realmente creio que todas eram actrizes, só tive 1 ou 2 dúvidas) são um cliché completo, alguém se sentou e pensou “quantos tipos de prostituas, e motivações para a prostituição, e condições sociais de prostitutas existem?”. E nada mais. Temos a ninfomaníaca negra africana, temos a brasileira com ar de disponibilidade sexual, temos a latino-americana descendente de índios, temos a acompanhante de classe alta (que é francesa!), temos o prostituto masculino. Temos aqueles que gostam do que fazem, aqueles que o fazem por dinheiro e aqueles que não têm outra escolha. Tão inútil, tão superficial, tão aborrecido, uma perda de tempo. Há grandes exemplos de falsos documentários sobre realidades meio reais (estando ‘F for fake’ no topo dessa lista) que é terrível que alguém pudesse fazer isto como o vemos. Qual é o sentido de retratar pessoas que parecem prostitutas, falam como vários estereótipos de prostitutas falariam, actuar como prostitutas, vivem como prostitutas, mas na verdade são actores? A pergunta é: porque não colocar prostitutas reais e fazer um documentário real se não há manipulação, não há intenção alguma por trás da ideia do falso documentário?

Depois, para concluir, a história ficcional. Uma estudante de antropologia, virgem, que estuda a prostituição. A sua vizinha é uma prostituta e devido a problemas financeiros, ela acaba por entrar no mundo. Qual foi o sentido? No final, isto desenvolveu-se como os documentários comuns dos canais de televisão, História, Biography, Odisseia, etc. Com uma diferença: com esses documentários, pelo menos poderemos eventualmente retirar factos interessantes, se não os conhecemos, e se queremos ser distraídos (eu não quero) podemos confiar nos terríveis momentos encenados.

A resolução visual do filme está de acordo com a inutilidade das escolhas narrativas. Na maior parte do tempo temos mulheres destacadas de algum contexto onde estavam a falar, e coladas sobre fotografias de hoteis baratos onde a prostituição ocorre. Outras vezes temos truques visuais, de imagens deformadas, e cores altamente saturadas.

A minha opinião: 1/5 evitem.

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Wall Street (1987)

“Wall Street” (1987)

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previsível como sempre

Não gosto de Oliver Stone. Tenho motivos para isso.

Ele é sempre previsível na forma como os seus filmes se desenvolvem. Ele usa um tipo de estereótipo de anti-herói, necessariamente americano, necessariamente imperfeito, mas no final sempre capaz de reconhecer essas falhas e fazer a coisa certa. Stone é um dos expoentes máximos dos últimos 15 anos de relevância americana no mundo. Não me interessa muito esta atitude, acho que há muito mais na cultura americana e muitas mais vantagens americanas do que estes clichés que me cansam observar, repetidamente, por tipos como Stone.

Ele constrói os seus filmes com uma vulgaridade cinemática atroz. Não há visões inteligentes, na verdade não há conceitos visuais que integrem as ideias do filme. O filme simplesmente se desenvolve, não há trabalho de câmara especial, preocupações artísticas, etc.

Este filme especificamente, corresponde à descrição que fiz. É um filme vulgar, de um realizador vulgar, que tem no entanto uma sequência redentora: a primeira vez que vemos Wall Street. É uma sequência que começa com planos reveladores normais, mas depois vamos para o interior, e temos algum tempo com um pedaço fabuloso de edição, que mostra o dia-a-dia da bolsa. Gostei desse pedaço, porque há uma forma visual de passar um ambiente, que está de acordo com o que vemos. Claro que a ideia que se passa da bolsa de valores é comum, mesmo clichá, mas a narrativa visual (ambiente visual?) é muito boa. Esta sequência merece ser vista, tudo o resto é tão vulgar como sempre. Suponho que é preciso ver Platoon para termos o projecto redentor da carreira de Stone. Este não o é.

Ah, e a “arte da guerra”, aplicada ao mercado de acções, é tão amador que não vale a pena comentar.

A minha opinião: 3/5 aquela cena no início…

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The Apartment (1960)

“The Apartment” (1960)

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tempos modernos

Vale a pena ver o que Billy Wilder fez, independentemente do que seja, ou sob que circunstâncias ele as fez. Isso porque ele sempre tentou contornar adversidades, mesmo se no final isso aparece com a forma da ironia e da crítica aos seus patrões, usando as possibilidades que eles dão. É o que ele faz aqui. Os resultados não são muito impressionantes, talvez porque ele mistura mundos diferentes. Ele tem um romance para contar, foi para isso que foi contratado, para produzir a comédia romântica que se esperava dele, início dos anos 60, mas feita como se fosse nos anos 50. Mas na verdade, ele está angustiado porque ele sente-se agarrado e dependente do sistema de produção cinematográfica que não lhe permite exprimir livremente as suas preocupações, os seus temas, da sua própria forma. Ele teria a sua última recusa tarde na sua vida, quando Spielberg não o deixou realizar a sua Lista de Schindler. Por isso imagino que Stalag 17 deve provavelmente ter sido um projecto muito pessoal para Wilder, um que procurarei verbrevemente. Neste processo de luta pela sua própria expressão, ele criou uma obra prima, Sunset Boulevard, e o menos interessante Ace in the Hole. O noir servia perfeitamente as suas intenções de integrar os seus sentimentos sem os gritar, e ainda assim produzir o filme que lhe tinham pedido.

Aqui, isso não funcionou assim tão bem. Como o tema era romance, ele substitui o ambiente noir por sexo. Assim, temos um personagem imerso num mundo moderno de exploração, onde lhe dizem o que ele deve fazer, tem a sua vida sabotada pelos interessos dos seus (muitos) superiores. Este é um mundo que Chaplin tinha criado em Tempos Modernos, mas aqui Wilder substitui a maquinaria belissimamente coreografada da fábrica pelo sexo. O apartamento é um ponto de encontro, o sexo guia o que acontece aqui, tudo. Assim, temos um homem apanhado num sistema e que tem de criar as suas soluções para ganhar a sua liberdade de decisão. certo?

Jack Lemmon é sublime, realmente aprecio o seu estilo de comédia não explosivo, mas intenso. Ele tem uma forma de se mover, de caminhar, que fortalece o seu personagem, e neste caso particular, torna-o mais apreciável e mais fácil de acreditar que ele é na verdade um peão num mundo corrupto e opressivo. Ele é um Charlot aqui. Isto não é inocente. O Charlot deve ser uma das personagens com maior poder metafórico na história do cinema, e ele sempre representa coisas que não vemos no ecrán. Shirley MacLaine encaixa bem, a cara dela não é tão enigmática e intensa como a das Hepburns, mas ele move-se de forma mais entusiástica.

Depois de tantos anos, creio que o que suporta este filme são as actuações. Por agora já não tenho o contexto de Wilder, e estou demasiado afastado das audiências que valorizaram o filme no seu tempo. E toda a mecânica do sexo parece uma linha completamente paralela ao romance que seguimos, não está suficientemente bem integrada, creio. Apesar de tudo, há um carinho nas interpretações, e uma nostalgia que eu levava para o filme quando comecei a vê-lo, não porque vivi esses dias, mas porque pude ver o que aconteceu a esses intérpretes, Lemmon e MacLaine. A nostalgia é um ingrediente poderoso.

A minha opinião: 3/5

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Die Fälscher (2007)

“Die Fälscher” (2007)

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uma nova abordagem

Tendo em conta todos os filmes que já foram feitos sobre a opressão nazi aos judeus, este é inteligente na forma como constrói os seus personagens e a sua abordagem ao tema.

O que se passa é, os criadores aqui são suficientemente competentes, especialmente na cinematografia, que segue Rembrandt, uma tradição belíssima no que toca ao uso da luz, e a construção de um ambiente. Com isto falo de imagens onde a luz é uma massa com a forma do objecto iluminado no meio de um ambiente escuro, mas nunca, ou quase nunca, percebemos a fonte da luz, é como se ela irradiasse do próprio objecto. Isto faz-nos focar no centro da composição com especial concentração. Coisas comuns, aspectos miseráveis, tornados especiais por estarem num local escuro. Isto tem tudo que ver com a segunda guerra, e as profundas da miséria humana. Mas apesar desta fotografia, o resto é apenas competente, a câmara foi carinhosa em alguns momentos, mas apenas (falso) documental em praticamente todo o resto. As actuações são boas, e Markovics e os escritores merecem crédito, porque fizeram algo que eu nunca tinha visto num filme de Holocausto.

Assim, não temos bem e mal, isso ganhou o meu coração imediatamente. Verificamos as falhas, e o mau carácter do falsificador logo do início. Ele tem tantas falhas como qualquer outro homem, talvez ainda mais. Ele finge, ele falsifica dinheiro, ele finge para sobreviver, ele está interessado em sobreviver, não em salvar o mundo. “um dia é um dia”, diz ele. Todos os judeus que trabalham com ele pensam da mesma forma, excepto o idealista. Todos os judeus querem apenas sobreviver, e eles são os sortudos, uma ilha de relativa paz na ilha que é o campo de concentração. É interessante como acabamos por os invejar pelo seu quase nada, comparado com o nada que a maioria tinha. Creio que essa sensação que temos ao ver o filme, é provavelmente comparável à sensação que os judeus reais teriam, ao viver a situação. Isto é um feito interessante. Assim, temos um ângulo diferente, um que não santifica as vítimas, e coloca-as na esfera real do mundo com falhas onde eles viviam, antes da guerra, antes dos nazis. Para alguém que está 2 ou 3 gerações afastado da guerra, como eu, isto representa uma abordagem muito mais interessante. Claro que o realizador tem apenas 47 anos agora, também é evidentemente pós-guerra.

Uma coisa não funcionou para mim, pelo menos achei que foi mal utilizado. Tango. Está assumido, desdo o início, todas as adaptações de Gardel, muito boas, mais sensuais mas menos viscerais que o Gardel original. Realmente não percebi a ligação. Porquê Tango? No início tentei compreender e adivinhar onde iria encaixar, mas não encaixou, não para mim. Vou tentar compreender isso.

A minha opinião: 4/5 vejam este

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Helvetica (2007)

“Helvetica” (2007)

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Catálogo

Como um futuro arquitecto, eu senti-me próximo do que estava em discussão aqui. A evolução de muitas das concepções, concepções vulgares, do que arquitectura deveria ser ou, como o design gráfico deveria ser encarado, é bastante similar. Assim, temos design, aqui representado pelas diversas fontes de escrita, que surgem como resposta a uma necessidade, uma representação de um certo momento no tempo, ou o ícone de determinada postura política ou de vida.

O título do filme é uma criação do modernismo, e isso significa que funciona, tenta ser universal, e é durável, em termos visuais. Isso não impede que seja um potencial alvo de críticas. O que se passa é, a natureza humana não permite que os humanos permaneçam iguais sempre. Isso porque a mente humana é criativa. Ao mesmo tempo, os homens gostam de fórmulas. Gostam que lhes digam o que está certo, gostam de confiar. E na verdade, com a excepção de um número reduzido de artistas que têm/tiveram o génio para produzir trabalho gerado numa realidade qualquer paralela, algo que Platão descreve, a vasta maioria dos mortais necessitam referências, fórmulas (mesmo que lutem contra elas), necessitam de restrições, como alguém disse neste documentário. Assim, à Helvetica podem-se juntar muitas fórmulas, as caixas modernistas da Bauhaus, os espaços transparentes de Mies, tudo foram criações que nasceram de mentes criativas e que foram massivamente adoptadas, com resultados notáveis ou com gradual perda de interesse, contexto e qualidade. No final, creio que todos somos, em maior ou menor grau, conservadores e radicais, conformistas e revolucionários, Helvetica e manual, Gropius e Gaudi. É na oscilação entre estes extremos que a criatividade humana funciona, e nos conflitos que existem nesta evolução. Por isso, quem és tu? Que riscos estás disposto a ter? Quão novo estás disposto a ser?. Se fosse (for) americano, em quem votaria? Obama ou Clinton? A ideia por trás do que está neste filme, é que as escolhas que tu fazes definem quem tu és. Mas há um senão. Estamos a falar de escolhas sobre as criações dos outros. As pessoas defendem que a Helvetica faz parte delas, mas também faz parte da American Airlines. E uma janela é aberta, no final do filme.

O facto de, hoje, a democracia tecnológica permitir a alguém ter um poder de comunicação e personalização muito maior dos nossos “bilhetes de identidade”. Pessoalmente não creio que a tecnologia estimule a criatividade, aumenta as opções, sim, mas isso apenas nos dá um maior catálogo de “fontes”. O nosso poder de inovar é o mesmo, com ou sem computadores. Eu até creio que os tempos fantásticos que conseguimos obter ao trabalhar com um computador podem matar o processo criativo, a partir do momento em que nos apressamos a fazer coisas só descobrindo que não são as opções certas quando já é demasiado tarde para mudá-las. Mas é fantástico que hoje uma pessoa possa produzir um filme completo com um telemóvel, ou saber todas as coisas de determinada área de conhecimento com pouco ou nenhum dinheiro. Vai levar vários anos para nós compreendermos que trabalho importante pode ser criado com as possibilidades que temos hoje. Sou céptico, mas também encorajo as possibilidades, e penso sobre o que poderemos fazer com elas. E é realmente apaixonante estar vivo e poder participar no processo. Escrevendo com Helvetica, ou manualmente…

A minha opinião: 4/5 vejam este

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Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980)

“Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón” (1980)

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no princípio…

Suspeitava que iria ver algo assim antes de o ver. Estava interessado em compreender as raízes de Almodóvar como realizador, como ele começou a desenvolver o seu tipo de narração visual, que é tão único hoje. Ao mesmo tempo, queria compreender e sentir a pulsação do espírito underground de Madrid naqueles dias. Estas questões são pessoais para mim. Quero compreender como se pode utilizar uma força jovem (e inexperiente) disponível e talentosa e dar uma expressão fiel de um certo momento no espaço e no tempo. Também queria (e ainda quero) chegar aos “primeiros trabalhos” de realizadores que admiro, para assim compreender como eles usaram as suas limitações técnicas e orçamentais para perseguir as suas ideias. Este não é o primeiro filme de Almodóvar, mas é o mais antigo a que podemos ter acesso no mercado legal (e suponho que também no ilegal…).

Creio que o filme falha. Não por ser tecnicamente e formalmente (muito) imperfeito. Na verdade até gostei de ver todas as falhas a passar em frente dos meus olhos, creio que por vezes um projecto pode funcionar melhor se o amadorismo/inexperiência por trás se mostrar. Este é o caso. De qualquer forma, para mim o filme falha porque aqui Almodóvar ainda não é capaz de transformar as suas vulgares histórias de novelas em algo inteligente de um ponto de vista da narrativa visual. A história aqui não é mais ou menos pobre que em muitos dos sucessos de Almodóvar. Mas aqui ele não conseguiu encontrar um dispositivo suficientemente inteligente para transformar tudo numa experiência puramente visual, como ele faz nos seus melhores trabalhos. Assim, tentei ver a parte positiva disto. Este filme prova-me o quão inteligente Almodóvar é, pelos caminhos que percorreu depois desta aventura, inteligente no que toca ao desenvolvimento narrativo, e a narrativa visual e como ele sempre procura novas formas de codificar a sua história e fazê-la chegar como um produto visual.

Na verdade, há pistas aqui. Entre determinadas cenas, as raparigas sugerem a produção de um filme sobre as suas próprias vidas. Esse filme teria precisamente os eventos que vemos no ecrán. Decidi tentar entender (penso que isto é uma questão da interpretação de cada um) que eu estava a ver o próprio filme que elas estava a discutir, como se a história fosse na verdade coisas do mundo real que aconteceram, e eu estivesse a ver mulheres a representar essas vidas. Mas há um aspecto importante (interessante), o personagem de Carmen Maura avisa que para essas raparigas interpretarem as suas próprias vidas, elas têm de representar. Têm de actuar, para serem elas mesmas. Inteligente. Almodóvar seguiria colocando mulheres que actuam, muitas vezes actuam como elas mesmas, outras como actrizes (”Todo sobre mi madre” tinha tudo que ver com isto). Este possível filme dentro do filme, e a denúncia de que talvez estejamos a ver um filme com personagens que se representam a si mesmos foi para mim uma pista para narrativa por camadas sobrepostas, e invenção narrativa. Para mim, a carreira de Almodóvar tem tudo que ver com isto.

A “movida” está aqui. Neste momento em que estou com vontade e tentando criar algo no mundo visual das imagens (chamem-lhe cinema se quiserem), interessa-me muito compreender como neste momento da cultura espanhola, tantos talentos foram capazes de se revelar, e produzir trabalho importante. Vou provurar outras provas visuais e documentos importantes deste tempo, tentarei compreender como este e outros filmes foram possíveis. Este é um mau filme que eu invejo. Gostava de poder reunir uma equipa assim um dia.

A minha opinião: 2/5

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Byt (1968)

“Byt” (196 8)

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Cinema codificado

Este foi o meu primeiro contacto com Svankmajer. E que impressão forte tive! Ele está ‘rotulado’ com o movimento surrealista, e é frequentemente colado aos outros nomes do surrealismo em cinema. Por este filme sozinho, não verifico nada que possa ser chamado surrealismo, excepto por algumas escolhas estéticas, e alguma física do mundo do filme. Isto porque o surrealismo sempre teve que ver com a procura de transmitir através da arte estados de (in)consciência que estão para além da auto-consciência. Exemplo maior, os sonhos. Coisas que não podemos controlar, que não são materiais, não podemos tocar, que acontecem em tempo indeterminado (em forma e duração). Nada disso está aqui. Isto tem, claro, um discurso político velado nas entrelinhas. Temos um personagem a quem é dito onde deve ir, ele segue setas que levam a onde quer que alguém queira. É-lhe dado tudo, mas ele não consegue provar nada. Levam-no a portas, mas lhe permitem que as abra. Dão-lhe comida, mas é um cão que a come. Todo o filme passa totalmente dentro de um apartamento. Claro que isto é (ou poderá ser) a metáfora directa da União Soviética, a cortina de ferro, todos esses elementos que motivaram muitos cineastas e artistas a criar arte que pudesse expressar o desespero e a insatisfação sem alertar os censores. Isso não é surrealismo. É, no entanto, uma experiência fantástica. Não sei muito sobre animação checa, ou cinema checo, mas estou disposto a explorar. Vi uma curta, há pouco tempo, ‘Prílepek’, foi uma boa experiência feita por alguém que aprendeu com certeza muito desta referência checa que é Svankmajer. Assim, pressenti um trabalho em continuidade que me interessa explorar, por isso vou procurar mais destes trabalhos.

O que temos aqui (e esse aspecto é o mais próximo que conseguimos estar de surrealismo neste filme) é um mundo que define as suas próprias regras. Falo de regras físicas. É um mundo onde o comportamento dos materiais e objectos não é o mesmo que o do nosso mundo real. É possível um homem fazer um braço atravessar uma parede, ou uma cama desintegrar-se completamente como se estivesse a ser comida. É isso que nos leva para outra dimensão, isso e a edição e ritmo frenéticos. O stop-motion é notável, e o nível técnico muito muito elevado aqui.

A minha opinião: 4/5 não percam este.

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Ace in the Hole (1951)

“Ace in the Hole” (1951)

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Abutres

“i don’t make things happen, i just write about them”

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Este é o filme que Wilder realizou depois de Sunset Boulevard. Este é um facto importante. Ele estava nesse momento, sinto, imerso em vários assuntos, alguns que dizem respeito à sua postura perante a vida e a indústria do cinema na América, e outros temas dizendo respeito a sua exploração pessoal do noir e das suas possibilidades narrativas. A minha opinião é que Wilder levou a concepção original do noir aos seus limites com Sunset Boulevard. Assim, num certo sentido, ele esgotou o noir na sua primeira fase com esse filme. Este foi uma espécie de bónus, um último fôlego dessa concepção primitiva do género.

O cerne narrativo aqui está na escrita, tal como em Sunset… . Temos várias entidades que são responsáveis por “escrever” visualmente o que vemos, e que lutam ao longo da história para estar em controlo dos factos:

. os ’sete abutres’, as crenças dos nativos. eles são responsáveis, pelo menos suspeitamos, pelo aprisionamento de um homem, que motivará todo o ‘circo’ (ou foi pura coincidência? destino?)

. o personagem de Kirk Douglas, ele mesmo responsável pelo relato de todo o evento, durante uma boa parte do filme. Ele é como um deus quando escreve (e inventa) tudo o que vemos (ou melhor, a audiência externa no próprio filme). Isto é interessante porque não temos Douglas como um detective noir, alguém que é tão cego acerca do que está por trás dele como nós os espectadores, como normalmente temos nas construções noir. Assumimos que ele manipula tudo, apesar de suspeitarmos que ele vai perder controlo.

. a plateia. O circo que Douglas chamou para sua auto promoção vai tomar controlo, como um monstro de várias cabeças (ou pior, de nenhuma cabeça); Douglas permite que isto aconteça, já que ele perde controlo (emocional) com o desenvolvimento da história;

Estes 3 elementos sozinhos fazem a nossa construção. Isto torna-se noir quando Douglas se torna vítima e não deus, e temos de questionar quem está em verdade a controlar tudo o que acontece. Terá sido na verdade uma ‘maldição’ dos Índios?, foi algo que poderemos chamar destino?, (Douglas corria de cidade em cidade terminando naquela cidade com uma tumba índia!). Este filme não é bom ou influente como a obra-prima que Wilder realizou no ano anterior, mas é um bom filme. O facto de que o detective aqui se torna escritor e tenta controlar tudo dá a pista de que aqueles por trás deste projecto tentavam aqui quebrar as convenções noir e levá-lo para outro nível. Isso não aconteceu aqui, este não é um filme importante, foi mesmo um falhanço comercial. Mas foi uma boa tentativa.

A minha opinião: 4/5

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