Arquivo da categoria 'Cinema e movimento'

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull (2008)

“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull” (2008 )

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memórias queridas

É interessante ver este tipo de sequelas, ou prequelas, de heróis passados, filmes clássicos. É interessante porque podemos fazer um balanço das mudanças, o que era e o que é, mudanças em quem criou os filmes, nos espectadores, e em nós próprios.

Cresci a ver vezes sem conta alguns filmes (e algum tipo de filmes) que moldaram, em maior ou menor grau, os gostos cinematográficos da minha geração, em geral. Estes filmes incluíam os velhos filmes do Indiana Jones. Eles eram novos, devem ter chocado positivamente as audiências desses dias - eu nasci no ano do segundo filme por isso não posso avaliar como as coisas eram então; de facto estou demasiado ligado a esses filmes para os poder comentar com justiça como filmes, apenas tenho a minha memória pessoal deles. Mas enquanto tínhamos então novas ideias, criadores frescos que criavam um novo ambiente, novo entretenimento cinematográfico, agora não temos nada disso, claro. Agora temos o mesmo grupo de criadores, mas sem coisas novas a dar. Por isso usam as suas memórias pessoas do que fizeram, e usam a relação carinhosa entre as audiências e os filmes - o público alvo jovem dos anos 80 ainda vai aos filmes hoje em dia, mais as gerações mais jovens, como a minha.

- assim, é interessante ver o que temos aqui, apesar da sua pobreza relativa como filme ou mesmo como entretenimento: nos últimos 20 anos aconteceram novas coisas em cinema, novos códigos foram implementados e aceites por audiências regulares. Die Hard, Arma Mortífera, a influência do estilo de luta de Bruce Lee nos filmes de acção ocidentais, ou mais recentemente a série Bourne, tudo foram séries que progressivamente mudaram o que as audiências esperam dos novos filmes que saem. Se virmos os filmes Bond todos, cronologicamente, vamos verificar como essas expectativas foram mudando ao longo dos anos. Isto significa que os filmes Indy dos anos 80 são clássicos, extremamente bem feitos, mas entretanto coisas foram acrescentadas ao que tinha sido feito aí, e um ‘novo’ indiana jones não consegue ser agradável para as novas audiências como os antigos. As audiências mudam.

- as pessoas envolvidas também mudaram. Sim, temos Spielber, Lucas e Harrison Ford na aventura. Temos até Karen Allen, a amante original do Indiana, que fecha o círculo, e liga gerações, e os filmes. Mas eles já não são novos. Neste momento parece-me que eles estão sobretudo a divertir-se, e a dar-se a oportunidade para reviver velhos dias, mais do que realmente tentarem fazer o melhor filme possível. Por isso é que temos todas as referências aos velhos filmes: o armazém do início, a Arca, Marion Ravenwood, o pai de indy, Marcus, a cena da bicicleta na biblioteca (Indy diz exactamente o contrário sobre como ser um arqueólogo do que tinha dito em ‘a última cruzada’) etc… os fãs de indiana jones podem encher esta lista com pormenor. Aparte dessas, temos referências a outros filmes. Isto é interessante. Spielberg referencia a cabeça do seu ET de 82, o cadáver do corpo do extraterrestre parece-se muito com o outro. Uma ligação interessante é a Brando: Mutt Williams é, claro, o Brando de ‘the wild one’ na primeira vez que aparece no ecran. Esse filme é de 1953, este supostamente acontece em 1957. A luta do café também foi buscar as partes em conflito do ‘the outsiders’ de Coppola, de 1984. Assim, em vez de termos uma pesquisa sobre as roupas desses dias, etc, tiradas de fontes confiáveis, temos aspectos visuais históricos retirados de outros filmes. É bem conhecido que Indiana Jones, na sua origem, era suposto ser um herói antiquado, baseado em velhas histórias de aventuras. Nunca foi baseado na vida, antes na fantasia. Apreciei a coerência.

- Por último, algo mais mudou nos últimos 19 anos: eu. Eu estava disposto a Não questionar certas coisas que agora posso não aceitar. As aventuras de Indiana Jones sempre tiveram que ver com auto sublimação, enraizadas em histórias irreais, ficcionais, historicamente não suportáveis. Tudo bem. Aceitava isso. Aqui questionei coisas, creio que perdi parte da minha inocência (fé?).

Devo dizer que uma coisa realmente me impressionou aqui, que foi o trabalho de câmara. Spielberg sempre foi bastante competente na forma como a move e nos faz encontrar/seguir/sentir o que ele quer. Aqui ele tem momentos brilhantes, alguns mesmo melhores que os dos velhos filmes. A explosão nuclear foi fantástica neste aspecto, e a sequência inicial no armazém também.

A minha opinião: 3/5

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Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988)

“Mujeres al borde de un ataque de nervios” (1988 )

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Intenções dobradas

Todos os verdadeiros artistas confiam, em maior ou menor grau, na sua intuição. Há aqueles cuja magia repousa inteiramente nas escolhas intuitivas que fazem. É maravilhoso podermos confiar na intuição de alguém (ainda mais quando a nossa própria intuição funciona também). Depois temos aqueles que começam numa base racional, e só depois de criarem uma rede de segurança em que possam confiar é que colocam algo dos seus sentimentos mais profundos aí. Creio que este segundo tipo corresponde à maioria das mentes criativas. Por um longo período de tempo, pensei que Almodóvar pertencia ao primeiro tipo de realizador. Depois de ver este filme, definitivamente coloco-o no segundo tipo. Para um espectador desinformado, como eu era quando entrei no mundo dos filmes de Almodóvar, ele pode surgir como se não existisse uma estrutura especialmente reconhecível por trás do que vemos. Os meus visionamentos recentes dos seus filmes convenceram-me do contrário, especialmente este. Este é um filme em que (ao contrário dos outros) a mecânica da história tem a ver com como ela se desenvolve. É uma comédia, tudo bem, e constrói um mundo de coincidências e factos ligados que vêm sempre a ser importante, com o desenrolar da história.

Assim, temos uma narrativa de histórias circulares, intersecções, e coincidências. Os primeiros 5 ou 6 minutos do filme, incluindo os créditos iniciais, são especialmente fantásticos na forma como vemos isso. Temos uma montagem pop de pedaços de revistas, pedaços de vidas, caras, pedaços coloridos. Isto introduz-nos no ritmo do filme, que é frenético em sentido de comédia (isto mostra-se pela história, não a edição). Depois somos introduzidos à nossa personagem principal, ao redor da qual tudo se desenvolve: ela dobra filmes, o que significa que ela empresta a voz a outros corpos. Ela era (vimos a compreender) a amante de um homem que faz o mesmo. E temos aí um fantástico pedaço de filme, em que seguimos esta voz off a dobrar, e o filme que ela está a dobrar, já com o som dobrado. Ela está a dobrar sozinha, a voz masculinha está silenciosa (ouvi-la antes, no início da sequência, também desacompanhada da voz feminina aí). Isto é um trabalho minucioso. Uma sequência fantástica. Colocou-me no ambiente, pensei eu. Isto porque somos enganados por esta primeira cena. A seguir a isto, tudo se transforma num ambiente de comédia (que segue as comédias screwball americanas, isto é assumido por Almodóvar).

As maiores preocupações cinematográficas de todos os filmes de Pedro Almodóvar caem em trabalhar a narrativa de formas que sejam novas, sedutoras, e visuais. Todos os seus films (especialmente os dos anos 80) eram puras experiências, completamente diferentes da experiência anterior. Aí, Pedro estava ligado a um certo ambiente, uma forma psicadélica de vida, certamente derivada da sua experiência dentro da Movida, o underground madrileno dos anos 70. Apesar disso ele estava já a tentar construir novas formas narrativas. Há uma certa característica recorrente em todos os seus filmes: ele gosta da ideia de ter actores cujos personagens actuam. Actrizes que representam actrizes, personagens que pretendem ser algo diferente. Os seus modos narrativos têm muito que ver com isto. Aqui ele foi muito inteligente em como realçou este aspecto. A primeira cena que mencionei estabelece esta ordem, a mãe louca que tenta passar por sã para cumprir a sua loucura, e o filme tem uma conclusão numa cena em que todos estão a actuar e a mentir à polícia. Perto do início, a mulher louca (que finge viver 20 anos antes do seu tempo) diz ao seu pai: “Mentes tão bem, papá! Por isso é que gosto de ti”. Almodóvar escreveu o guião…

A falha aqui está em tudo ser mecânico. Este desenvolvimento por coincidências circulares, e um enredo escondido que acaba por se revelar e nos revelar a verdade não está exactamente em linha com os melhores esforços visuais de Almodóvar. Creio que ele sabe isso, ele chegou mesmo a dizer que este guião foi bastante mais fácil de escrever do que, por exemplo, o de Kika (que tem um conteúdo narrativo bem mais implícito). Assim, narrativamente, isto É Almodóvar, mas não o seu melhor. Mas tem pinceladas lindas, intenções sublinhadas (e sublimadas), e levarei aqueles minutos iniciais onde quer que vá.

A minha opinião: 4/5

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Uncovered (1994)

“Uncovered” (1994)

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Kate e Barcelona

Esta é uma experiência que vale a pena, apesar das muitas falhas que o filme tem. É um trabalho fraco na maioria das características que se possam pensar, relacionados com a técnica cinematográfica, e expressão:

As actuações são infantis, isto aplica-se a praticamente todos os participantes. A excepção é Beckinsale, ela move-se de uma forma ingénua e arrapazada mas destila sexo. Ela concentra atenções sem ter demasiada consciência disso, e fá-lo bem. O resto das actuações são fracas. A edição não ajuda também. Os pressupostos para uma montagem deste tipo não são difíceis de seguir. Apenas tem de se contar acções físicas, lineares e comuns. No entanto há transições, problemas básicos de continuidade que não estão resolvidos, expressões nas caras que mudam, etc. A música também não é bem colocada, é uma má banda sonora no seu próprio valor, mas acima de tudo no ambiente que transmite. As referências tribais não eram necessárias, e de acordo com este tipo de história, de influência noir, teria sido interessante ter a música a ligar os cenários e evoluções da história.

Mas há 3 coisas pelas quais vale a pena ver o filme. Uma é a estrutura narrativa, como a história se desenvolve. O filme está baseado num romance de Pérez-Reverte, o homem que também escreveu A Nona Porta. Assim, temos uma fusão de arte e vida, a história que acontece à nossa frente foi “escrita” ou pelo menos determinada há muitos anos, por um artista, neste caso um pintor. A primeira cena é fantástica na forma como transmite isto, realmente foi uma das primeiras cenas mais significantes e económicas que já vi desde sempre. Basicamente começa com o primeiro plano de uma mão numa pintura (uma mão como sinónimo de poder, capacidade de fazer coisas), e a câmara afasta-se da pintura (move-se, não é zoom out) e vamos percebendo a margem da pintura completamente fundida com o ambiente “real” que a rodeia. Esta ilusão de fusão funciona por uns momentos, após os quais entramos no ambiente envolvente e esquecemos momentariamente a pintura. Isto funciona muito bem.

Outra coisa interessante é o uso da casa Batlló, de Gaudi. É interessante como a câmara (e a edição) mentem sobre o edifício, para realçar as suas qualidades. Não é uma exploração de espaço especialmente brilhante, mas é bastante competente: o que se passa é, vemos Beckinsale a subir as escadas que sobem para o primeiro piso, ela toca a campainha dessa porta. Estas escadas são lindas, curvam como as costas de um animal, temos a sensação de elevação, mais do que subir escadas. Depois isto é editado e o espaço interior que temos é do interior do sotão, que está construído com arcos que lembram a espinha dorsal de um animal e as costelas. Mais tarde no filme, teremos um plano exterior que estabelece o cenário e que conduz a câmara, do exterior, todo o caminho até ao sotão. Só aqui é assumido que o personagem vive no sotão, não no primeiro piso. Isto foi interessante e demonstrou interesse em jogar com a casa. Uma nota paralela é que este filme é uma boa oportunidade para ver o rés-do-chão da casa, que hoje está poluído pelas grades que conduzem turistas, e pelos próprios turistas, alinhados, que também enchem o passeio envolvente. Pena. Tenho a teoria de que o turismo está literalmente a matar e a sugar vida real dos nossos melhores sítios no mundo, mas isso é outra discussão.

De qualquer forma, o olhar turístico também pode ser visto nos planos que usam a cidade. Aqui também temos mentiras, normalmente relacionadas com a intenção de ter a todo o custo planos cliché. Creio que não foi bem feito isso aqui. Eles não tinham de mostrar todos os sítios conhecidos a toda a hora. Há sítios na cidade relativamente escondidos que são fantástico, e mostram muito mais do modo de vida que os monumentos. Um desses sítios é mesmo usado, o mercado de St.Antoní (a protagonista vive em frente a ele). O sítio tem vida, e eles usam-no bem em algumas cenas. Mas depois mentem sobre a cidade, por isso temos a protagonista a ir da Batló, à Rambla, à Sagrada Família, ao mercado, como se fossem sítios suficientemente perto uns dos outros para se caminhar, na sequência que eu indiquei. É uma mentira, e não tenho nada contra isso, mas tenho contra este esforço de fazer um postal ilustrado da cidade sem retirar nada útil disso. Um bom uso da arquitectura comum é o feito com a casa de Beckinsale, especialmente com as escadas centrais, e o elevador central. O uso do Parque Guëll não é particularmente interessante, excepto por algum movimento de câmara entre as colunas. E nesse movimento foram inseridos alguns casais que namoram encenando. Muito pobre, muito artificial, não era necessário, o parque tem uma vida própria interessante.

A minha opinião: 3/5

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My life without me (2003)

“My life without me” (2003)

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Kar Wai e uma história

Começo a gostar de estar no mundo que Coixet cria para os seus filmes. Esta foi só a minha segunda experiência com o trabalho dela (a outra foi ‘a vida secreta…’)

Ela tem uma qualidade que aprecio imenso, que é a capacidade de construir um mundo e incluir-me nele, como espectador, nesse mundo. E o mundo dela é muito pessoal, algo depressivo, mas que convida à auto-reflexão. Tem uma dialéctica interessante entre ser em si mesmo um mundo escuro, com sombras, povoado de personagens estranhos e pesados, mas no final passar uma mensagem positiva, no sentido em que nos motiva.

A estrutura é construída de forma clara: nos dois filmes que pude ver, ela segura as suas histórias em perguntas de “E se…”. E se tivesses apenas 2 meses para viver? não um princípio original, mas temos uma versão interessante aqui. A questão é imediatamente respondida pelo personagem que vai morrer. Ela escreve essa resposta, define tópicos. Nós vemos mesmo as palavras a serem escritas em frente a nós, no écran. Isto é simbólico. A questão surge de uma partida do destino: câncro. A resposta é completamente controlada pelo personagem de Polley. Assim temos uma luta entre o destino e o poder da personagem para controlar a vida que lhe resta. Ela controla todo o filme, desde o momento em que sabe que vai morrer. Ela submete toda a realidade da vida dela à visão que ela tem dessa realidade sem a sua presença. Assim, ela “escreve” os últimos dias dela, e escreve a vida daqueles que são parte do seu mundo e daqueles que ela vai permitir que entrem nesse mundo. Assim o mundo gira em torno de um personagem, que também o controla. Isto é uma narrativa inteligente.

Visualmente, o ambiente baseia-se no trabalho/movimento da câmara e alguns truques de edição inteligentes (sobretudo quando temos um monólogo que continua mesmo quando vemos a boca fechada do personagem a falar) e a fotografia. A forma como Coixet usa a câmara manual para nos fazer chegar próximo dos personagens é muito pessoal, e funciona, e creio que é a força visual dos seus filmes, e o que suporta o mundo desses filmes. A fotografia segue a tradição Kar Wai/Christopher Doyle, mais notavelmente no primeiro terço do filme. Penso que não foi uma boa opção. Kar Wai desenvolve os seus filmes como contentores vazios em que nós podemos colocar coisas num tipo de abstração muito sensível e abstracta em que nós, como indivíduos, deveremos ser os principais intervenientes. A qualidade visual dos filmes de Kar Wai existe para nos apoiar e nos dar pistas na nossa procura mental/emocional. Coixet alimenta-nos com informação concreta. Ela dá-nos linhas para seguir, ela motiva a reflexão mas através das suas próprias reflexões (história) que nós deveremos seguir. Assim não poderemos com um filme dela meditar visualmente como fazemos com Kar Wai. Nos filmes dele, a imagem que temos é parte do contentor, o resto é connosco. Coixet enche esse contentor com elementos bem definidos, mas também se preocupa com as “paredes” do contentor, mesmo se elas estão tapadas com os personagens que ela cria. Em ‘A vida secreta das palavras’ ela separou-se desta emulação de Christopher Doyle, apesar do cinematógrafo ser o mesmo nos dois filmes (Larrieu). Suponho que isso teve algo que ver com esta observação que fiz.

A minha opinião: 4/5

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My blueberry nights (2007)

“My blueberry nights” (2007) (O sabor do amor, PT ; Beijo Roubado, BR)

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Qual é a profundidade do seu amor?

Até onde nos levará Wong Kar Wai?

Tenho passado tempo com o trabalho dele. Tempo de qualidade. Suspeito que passarei muito mais tempo com ele, em anos próximos. Ver um filme de Kar Wai é uma grande aventura, se quisermos ter mais que entretenimento, se queremos aprender algo, e sobretudo, conhecermo-nos a nós mesmos melhor. O que se passa é que com Kar Wai não temos conteúdos, não temos cenários e objectos, temos sim espaços entre nós e as paredes, distâncias entre personagens, entre nós e esses personagens. Nos filmes dele, encontramos o que levamos connosco para a sala de cinema. Ele constrói o espaço em que podemos ser nós mesmos. E ainda adiciona algo dele mesmo a esse espaço. Por isso é que ele sempre coloca elementos que indicam distâncias, e que me colocam a mim nesse espaço. Neste filme específico, esses elementos têm muito que ver com as palavras pintadas na montra do restaurante de Jude Law.

Este filme inicia, claro, uma nova fase no trabalho do realizador. Pelo que posso dizer, ‘Chungking Express’ marcou o culminar de uma certa exploração, e ‘Disponível para amar’ (e 2046) culminou uma segunda linha que explora como a imaginação funciona. Agora ele começa algo novo. Para já está indefinido, esta ‘tarte’ que ele nos dá tem o sabor da mistura das duas fases anteriores dele. Isto porque ele dá-nos histórias circulares, destinos dinâmicos, e a ideia de que se pode construir o amor com a imaginação. Mas depois, todo o filme está completamente vazio, e o espectador pode definir a sua própria história com os elementos que lhe dão no ecrán. A história não existe, é apenas uma sucessão de eventos que seguimos para fazer as nossas próprias conexões. Kar Wai está a mexer-se num novo ambiente, num certo sentido ele não tem noção das reacções que encontrará, tal como o personagem de Norah Jones no seu caminho. Há todo um mundo novo que ele toca, explora, passo a passo. Kar Wai prefere deixar as coisas indefinidas, ou esquissadas, do que construí-las numa base errada. Há um episódio relativamente famoso em relação a este filme: Kar Wai colocaria Jude Law limpando o gelado da cara de Norah primeiro, e beijando-a depois, mas quis saber como um ocidental o faria. Ele está a aprender, tanto como eu aprendo sempre que toco um dos seus filmes.

Christopher Doyle está fora deste (aparentemente também estará fora do próximo filme de Kar Wai). Isso foi bom no sentido em que eu precisava de compreender quanto do mundo visual e do trabalho de câmara pertence efectivamente a Doyle, e quanto é Kar Wai. Aqui, o realizador está procurando novas cores, e um novo tipo de ambiente, mas o trabalho de câmara tem muito que ver com o passado. Doyle aparentemente tem mais que ver com um ambiente expresso através da fotografia, a subtileza está aparentemente nas mãos do mestre.

Um aspecto interessante é observar a competência das actuações. Realmente acho que Norah Jones se destaca, a sua actuação funciona porque ela não sabe actuar, e o ambiente do filme é o ambiente da sua música, assim ela está naturalmente bem aqui. Jude Law é bastante inteligente, ele compreende o que é suposto fazer para estar “in the mood”. Ele é um dos bons actores que temos hoje em dia. Portman e Strathairn são competentes, mas pareceu-me que Weisz estava muito pouco à vontade com o que estava a fazer. Creio que é interessante parar um minuto pensando porquê: o que se passa é que ela estava pouco natural, de uma forma que eu nunca tinha visto nela. Ela nunca foi brilhante antes deste filme, mas sempre achei que era competente para permitir as coisas fluirem bem. Não aqui e creio que isso tem que ver com a falta de orientação, o tipo de orientação que Rachel necessita, e que Kar Wai não lhe dará. Isto diz algo sobre Weisz e sobre Kar Wai. Interessante.

Por agora tenho uma exposição relativamente grande a Kar Wai, mas esta foi a primeira vez que tentei chegar aos significados e a minha reacção ao trabalho dele pela escrita. Estou a aprender, estou a descobrir novas coisas. Prefiro deixar as minhas opiniões ainda indefinidas, ou incompletas. Poderei completá-las em futuros visionamentos/escrita. Tal como num filme de Kar Wai.

A minha opinião: 4/5 não perca este, não perca nada que Kar Wai faça, os seus sonhos podem depender disso.

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Wall Street (1987)

“Wall Street” (1987)

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previsível como sempre

Não gosto de Oliver Stone. Tenho motivos para isso.

Ele é sempre previsível na forma como os seus filmes se desenvolvem. Ele usa um tipo de estereótipo de anti-herói, necessariamente americano, necessariamente imperfeito, mas no final sempre capaz de reconhecer essas falhas e fazer a coisa certa. Stone é um dos expoentes máximos dos últimos 15 anos de relevância americana no mundo. Não me interessa muito esta atitude, acho que há muito mais na cultura americana e muitas mais vantagens americanas do que estes clichés que me cansam observar, repetidamente, por tipos como Stone.

Ele constrói os seus filmes com uma vulgaridade cinemática atroz. Não há visões inteligentes, na verdade não há conceitos visuais que integrem as ideias do filme. O filme simplesmente se desenvolve, não há trabalho de câmara especial, preocupações artísticas, etc.

Este filme especificamente, corresponde à descrição que fiz. É um filme vulgar, de um realizador vulgar, que tem no entanto uma sequência redentora: a primeira vez que vemos Wall Street. É uma sequência que começa com planos reveladores normais, mas depois vamos para o interior, e temos algum tempo com um pedaço fabuloso de edição, que mostra o dia-a-dia da bolsa. Gostei desse pedaço, porque há uma forma visual de passar um ambiente, que está de acordo com o que vemos. Claro que a ideia que se passa da bolsa de valores é comum, mesmo clichá, mas a narrativa visual (ambiente visual?) é muito boa. Esta sequência merece ser vista, tudo o resto é tão vulgar como sempre. Suponho que é preciso ver Platoon para termos o projecto redentor da carreira de Stone. Este não o é.

Ah, e a “arte da guerra”, aplicada ao mercado de acções, é tão amador que não vale a pena comentar.

A minha opinião: 3/5 aquela cena no início…

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A Guide for the Married Man (1967)

“A Guide for the Married Man” (1967)

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sWingin’ in the rain

Creio que sei o que era suposto este filme ser. Esta história, e esta montagem deveriam bailar em frente dos nosso olhos tal como Gene Kelly costumava, literalmente, dançar nos seus musicais passados. Aprecio a ideia, o homem usou a imagem que o público tinha dele, e tentou ser coerente com ela, detrás da câmara. A história fala de bailarinos, tipos que contornam adversidades, esquemas para enganar as mulheres, aquele ambiente onde o adultério é cómico, e o bom nunca cai nele, porque no fundo ele compreenderá que na verdade ama a sua mulher. Assim, trocamos constantemente de cenários, e voltamos a esses cenários, introduzimos novos personagens, contando-se histórias que não sabemos se realmente aconteceram, e isso é feito de uma forma frenética (para a altura deste filme). Kelly tenta bastante manter a edição a par da história, e aprecio o esforço, mas ele não é suficientemente dotado para fazer isto com competência. No mesmo ano, Stanley Donen realizou uma obra notável, um filme que eu considero essencial, “Two for the Road”, ele tentou algo semelhante, mas saíu-se bem de uma forma que Kelly nunca poderia conseguir. Aí, Donen conseguiu controlar a edição e a linha narrativa em coerência. Estas duas mentes (Kelly e Donen) tinham sido responsáveis por uma grande experiência, “Singin’ in the rain”. Por esse filme, e por “Two for…” compreendemos que eles sabiam que poderiam chegar a algum lado com o que experimentavam. Donen chegou, mas este filme é só uma tentativa menor.

A minha opinião: 2/5

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Phone Booth (2002)

“Phone Booth” (2002)

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cinema centrípeto

Isto podia ter sido memorável. Tinha um conceito interessante detrás, mas quem executou arruinou-o. Suponho que em grande parte a responsabilidade devia ser atribuída a Schumacher. Ele é incompetente, ele vai com a maré, ele faz o que quer que as audiências consumam facilmente, e não se interessa por cinema ou como pode construi-lo numa base visual. Os seus filmes funcionam para mim como poluição visual, a estratégia dele é encher o olho com todo o tipo de imagens para substituir a falta das suas próprias ideias.

Assim, algumas coisas boas perderam-se aqui: Este filme é, num certo sentido, o oposto do que Hitchcock fez em Janela Indiscreta. Esse foi uma obra prima, porque nos colocava dentro do olho de um observador, e o mundo do filme é tudo aquilo que ele é capaz de ver. Nem mais, nem menos. Tirando alguns poucos planos especiais, recebemos um mundo com as mesmas medidas do de Stewart. Isso foi especialmente bem feito, e a história desenvolve-se visualmente. Aqui tínhamos o oposto. O mundo está centrado num personagem, como em Janela indiscreta, mas a forma como vemos esse mundo é completamente oposta, o que significa que não vemos o mundo como Farrel vê (pelo menos não tantas vezes), temos antes Farrel de vários ângulos e pontos de vista:

. o atirador furtivo, ele é o mais próximo de deus que temos, ele sabe tudo, incluindo o que levou à situação que observamos, ele tem o olhar superior, ele controla a acção, todo o tempo;

. o polícia, ele esforça-se por perceber as coisas, no início ele é tão ignorante como todos os outros, mas acaba por descobrir algumas coisas;

. a esposa e a amante, cada uma ignora a existência da outra, e sabem apenas o que Farrel quer dizer-lhes;

. a imprensa, esta é a entidade que tem de concluir, que tem de fingir que sabe, mas a sua participação aqui é praticamente nula;

Havia estas 4 linhas, mais a versão pessoal de Farrell. Isto já foi bem explorado em cinema, como explorar várias linhas narrativas, começando com Citizen Kane, e continuando com uma série de outros projectos importantes ou meramente interessantes. Este perde-se com truques de edição completamente inúteis, edição sonora inconsequente, fogo de artifício inútil. Pelo menos desta vez não vemos mamilos nas roupas do herói.

A minha opinião: 2/5 alguns conceitos interessantes, mas execução terrível.

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The Transporter (2002)

“The Transporter” (2002)

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pólvora seca

Isto está baseado em nada. Tudo explode, mas nada rebenta. Os elementos usados neste filme serão vistos, suponho, como as características principais nos filmes de acção desta primeira década do século. Temos uma cinematografia específica, baseada em tons azuis que funcionam como um tipo de imagem sóbria, dura, mesmo violenta. Isto supostamente marca o tom da acção, que por sua vez é coreografada, mas também dura, pesada. A edição tem um papel fundamental nisto tudo, muitas vezes não nos é permitido a nós, espectadores, compreender exactamente tudo o que acontece. Os filmes Bourne começaram esta tendência, creio, Casino Royale explorou-a com sucesso, assim como vários outros filmes. Não este. Este é uma colecção de truques inúteis, que não funcionam em nenhum ponto do filme, em nenhuma situação. Não há nada aqui. Copia mal as suas referências, vive de um certo estilo, mas esse estilo aqui está corrompido e é usado de forma incompetente.

A minha opinião: 1/5 afastem-se deste.

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No Country for Old Men (2007)

“No Country for Old Men” (2007) (Este país não é para velhos)

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as crianças que saíram da caixa de areia

Este filme é uma grande experiência em muitos níveis, e um dos melhores usos do widescreen que tenho visto em produções recentes. A fotografia é invejável, e chamo a atenção para todas as cenas que têm lugar no sítio do massacre. Dia, noite, de cima para baixo e ao contrário, todas as situações e ângulos são tentados, todos eles significam coisas diferentes em pontos diferentes da narração. É realmente grande trabalho. Mas há questões aqui para ser analisadas, creio.

Estou convencido que grande parte do gozo pessoal que podemos tirar de um filme (e de outros trabalhos criativos) é uma questão de decisão pessoal. Basicamente temos duas opções: ficar na superfície, ou pensar/sentir. A vasta maioria das audiências médias de cinema funcionam na primeira situação que basicamente se traduz em “gostei da história?”, “gostei das actuações?” (no nível básico de serem convincentes ou artificiais), e eventualmente a beleza das imagens. Para esse tipo de audiências este filme funcionará perfeitamente, porque está construído de situações/enredos/personagens já vistos. Nada do que temos aqui é pouco usual, traficantes de droga, dinheiro, xerife, e a fronteira dos EUA com o México. Ah, e o psicopata. Com estas afirmações, não me estou a retirar da audiência média. Mas procuro os meus caminhos para tentar compreender o que poderá estar por trás do que vi. Neste caso, não acredito que os Coens simplesmente fossem com a corrente, e fizessem tudo o que seria esperado de outros realizadores apenas competentes. Mas de facto, aparentemente eles fazem isso… suponho que foi propositado.

Gosto de tentar encontrar auto-referências em filmes, ou metáforas para as mecânicas das coisas no mundo real. Por isso tentei fazer a minha própria interpretação do mundo que vi neste filme e estabelecer uma possível relação, que pode ter alguma lógica, ou nenhuma de todo. É importante dizer que não li o livro, nem conheço a escrita de McCormack, mas creio que a sua influência neste filme deve reflectir-se na estrutura narrativa, de episódios que são paralelos, por vezes intersectam-se e ligam-se (nem sempre os Coen funcionam desta forma). De qualquer forma, decidi ver o seguinte: temos um filme que começa no rescaldo de uma chacina. Muitos corpos, disputas de droga num território fronteiriço, e uma grande quantidade de dinheiro. Isto está encenado para nós, é a secção do filme em que somos forçados a ver realmente o cenário e em que somos posicionados lá. Temos alguém que é totalmente ignorante em relação ao que se passou, e o destino/acaso leva-o a encontrar o dinheiro. E ele é perseguido por isso. Verifiquemos o caçador. Todos pensam que ele é louco, que “you(ele) don’t have to do this”. Mas ele nunca cede um único milímetro. Ele tem a sua própria moral, ele cria as suas regras, e ainda dá uma chance ao destino, quando usa uma moeda para decidir sobre a vida e morte. No final, ele procura exactamente o mesmo que todos os outros, o ‘macguffin’ (dinheiro), mas intuitivamente sabemos que ele tem outras motivações, apesar de não sabermos exactamente quais. Isto foi feito por dois irmãos, orgulhosos de serem aqueles que brincam numa caixa de areia do canto de Hollywood, fazem os seus jogos e não são aborrecidos por aqueles que estão “apenas” atrás do dinheiro. Mas afinal, eles também jogam o grande jogo, eles também produzem no contexto do Moss e do Wells deste filme, e eles também estão sob a jurisdição do Bell. Eles não são independentes na visão falida europeia, eles nem são cineastas de baixo custo. Eles são estrelas, e o sucesso mediático deste filme fê-los ainda mais estrelas. Assim, creio que assisti a um jogo. Os Coens pondo audiências, investidores, produtores a verem-se a si mesmo, fugindo e temendo os Coens, e a rir disso. Ironia encoberta. Mas tenho um senão neste jogo. O filme encheu muitos bolsos, é visto, e o seu sucesso pode tornar-se uma espécie de paradigma, um estilo para ser perseguido, copiado, e reconhecido. Assim, quem ganhou o jogo?

E já agora, para mim este é o mais “convencional” dos filmes dos Coen, convencional em relação aos outros filmes dos Coen, e também em relação aos filmes convencionais.

A minha opinião: 4/5, é divertido ver Joel e Ethan, mas eles já fizeram melhor. Mas este é um bom filme.

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