“Once” (2006)
não tocar
Já vários comentários interessantes sobre este filme foram feitos e realçam muitas das coisas boas que podemos retirar daqui. Tem algo a ver com o ambiente da história de amor sugerida, o poder da sua simplicidade, na verdade a simplicidade de toda a produção, deste a actuação aos cenários. A história comove-nos porque podemos relacionar-nos com ela, e não há truques sofisticados aparentes nem convenções gastas usadas para nos cativar. Por isso este é em última análise um filme honesto. Não é real, e enquanto na experiência semelhante tentada por Linklater ainda podemos questionar-nos sobre se o filme vem da vida real, aqui os pedaços musicais não nos permitem considerar isso. Mas isto é uma história incrivelmente directa e honesta, e isso é raro e recompensador.
Há algumas coisas que vale a pena notar também. Uma tem a ver com a relação amorosa que vemos no filme. Sabemos que é implícita e nunca assumida durante todo o tempo. Línguas diferentes. O mais próximo que temos de um romance convencional é quando a rapariga assume o amor dela em checo, uma língua que o rapaz não compreende e que os realizadores assumem que a maioria dos espectadores também não compreenderão. É aí a que se sublima a história, mais do que em qualquer número musical, é esse o momento. No lado oposto, temos a tentativa do rapaz ao sexo de uma noite. A boa coisa é como as duas personalidades diferentes, culturas diferentes e posturas são espelhadas pelos seus contextos musicais, e como eles se misturam no ecran. O amor está na música, naquilo que resulta da colaboração, a forma como eles contornam as suas diferenças artísticas para chegarem a um objectivo comum. Isso é um conceito lindo. Por isso é que era tão importante que os factos da história não nos impedissem de apreciar a beleza do conceito latente. Tão poderoso que estes actores (que até criaram as canções!) se tornaram amantes fora do ecran, na vida real. Este é um caso muito bom de uma relação no filme. não aconteceu ainda, vemo-la surgir, somos testemunhas dela.
Dublin também é uma testemunha, é um grande sítio para filmar onde, adequadamente, a música é uma roda importante da rotina espiritual. O sentido de lugar é forte e bem conseguido aqui, apesar dos valores de produção relativamente normais.
Os melhores filmes, na verdade a melhor arte é aquela que está ligada a ideias poderosas, do tipo que corre sob a pele. Este é um desses filmes, se a música fosse realmente poderosa, em vez de apenas agradável, essa força poderia ter um efeito explosivo.
A minha opinião: 4/5




