Quem lê regularmente o que vou escrevendo sabe que raríssimas vezes escrevo coisas que não sejam comentários directos a filmes que vejo e que quando saio dessa fórmula que há 2 anos e meio venho usando, normalmente faço comentários relacionados com a própria vida do blogue, anotações editoriais de estatísticas, ou pequenas notas a efemérides que me interessam. Acontece que hoje, há apenas umas poucas horas, assisti a um concerto liderado por Rodrigo Leão, um dos compositores e músicos que mais me interessam actualmente. E resolvi escrever sobre o concerto, porque a música de RL tem tudo que ver com cinema. Já por uma vez escrevi, e sublinho agora que, apesar das experiências que já teve como compositor de música para curtas/séries/documentários, ele é ainda, até agora, o melhor compositor de cinema que nós Não temos. Vários elementos que me interessam:
1 – ambiente – em geral, a música tem a capacidade de estabelecer (e manter) um determinado ambiente, mesmo não seja essa a intenção de quem a produz. Em cinema, o maior mérito que um compositor pode ter é conseguir determinar esse ambiente: humor, tensão, curiosidade – que se estende à noção de suspense. Parece simples ao explicar, mas é bastante complexo, definir todas as nuances daquilo que pretendemos que passe para a audiência. Depois, manter esse ambiente. Significa isto que a música precisa de um carácter, e depois precisa ser suficientemente bem explorada para manter esse carácter. Ora, segundo me parece, RL começa a concepção de cada pedaço de música precisamente pelo ambiente que pretende para ela. Precedido ou não pela existência de uma letra, parece-me que todo o desenvolviemento da peça segue a ideia desse ambiente pretendido (ou descoberto). Num cenário como a sala onde assisti ao espectáculo, é isso que retemos, é aí que entramos, num ambiente específico, com diferentes tonalidades. Não temos a força visual das imagens, mas temos a imagem da música que acontece à nossa frente. RL é um mestre desta definição ambiental, e por isso seria especialmente interessante vê-lo produzir consistentemente para cinema, associado a realizadores que compreendam o lugar da música num filme.
2 – classe – há uma ideia de perenidade, ou talvez eternidade, que prepassa determinada arte. Parece-me que o que é clássico é aquilo que se constrói seguindo um conjunto de regras que sabemos que funcionarão, seja em que contexto for, tempo, ou tipo de arte. Podemos recorrer a elas, porque a sua aplicação fiel dá-nos a liberdade para explorar livremente praticamente tudo o que quisermos. É um paradoxo interessante, a aplicação de regras clássicas dá-nos liberdade, assim como a intenção de quebrá-las nos obriga à criação de um número semelhante de regras para que a obra não se descontrole. Nada precisa de tantas regras como a irregularidade. Em todo o caso, RL é alguém que, sendo altamente experimental na exploração de ambientes, socorre-se de construções clássicas, na forma, na harmonia. Ao mesmo tempo parece-me que ele é sobretudo um compositor intuitivo, e por isso original, e isto significa que faz o que sente que é preciso, e não o que já foi comprovadamente testado. Afinal, a classe é necessariamente atemporal e inovadora. Paradoxo?
3 – comunidade – eventualmente, em cinema ou em concerto, a música pode e consegue muitas vezes ser um factor agregador. Neste concerto a que assisti (que aliás foi o primeiro de RL que vi), o que ele faz é estabelecer um ambiente, e convidar-nos a participar dele. Há uma alegria da comunhão de determinados valores que, mesmo que não sejam explicados, todos percebemos. Não será tão forte e espontâneo como participar, por exemplo, na demolição do muro de Berlim. É uma sensação induzida, no final do concerto seremos todos tão amistosos ou odiosos como éramos antes (ou talvez não), mas toda a arte é manipulação. E o cinema, como a música de Rodrigo Leão, induz-nos a sensação de que fazemos parte de um grupo, o das pessoas que partilham o prazer de o ouvir, e seduz-nos a ver as imagens que motivam a música. Precisamos todos dos filmes que Não foram musicados por ele.
Um óptimo concerto sem dúvida. Apesar de não ser em ambiente de cinema este espectáculo foi como se estivessemos em pleno filme.
obrigado pelo comentário. Sim, é o que eu penso. Não vimos cinema ali, mas adivinhavam-se imagens por trás daquela música. é essa a magia do que Rodrigo Leão faz.
Eu sempre assisti a concertos dele em contextos diferentes, salas muito pequenas quase “em cima dele”. Eu percebo e partilho de certa forma o que sentiste no concerto, no entanto, acho que estás um bocadinho confuso em relação a determinadas coisas que disseste. Em relação ao “ambiente” eu acredito que a música tem capacidade estabelecer comoção dentro do que chamas “ambiente”, mas essa experiência só é possível através de algo mais que música, mas pronto, não vou citar Heidegger. Para manter esse “ambiente” precisa de carácter? Acho que é mais de significado que te corresponda, só aí consegues continuar a estabelecer essa relação porque a compreendes. E depois, a eternidade não perpassa determinada arte mas toda a arte, caso contrário seria passível de consumo e sofreria da mesma patologia do zeitgeist, logo não seria arte. Eu acho que ele pretende oferecer uma espécie de amizade baseada em comoção. Que é precisamente o que toda a arte faz. E dizeres que ele é experimental e que o que faz não é testado é o maior paradoxo à face da Terra. Achas que não foi comprovado? Em relação ao fazer o que sente, concordo, acredito que ele se deixe guiar pela obra, mas aí reside o risco de toda a criação artística. Agora, achas que não foi experimentado? Ou comprovado como tu dizes… O meu Prof. de projecto diz que quem faz escolhas de lugares para repérage pela internet deveria ser aniquilado LOL. Eu acho que dizer que não foi comprovado é um pedacinho isso, mas pronto. Em cinema em concerto ou em qualquer coisa o factor que chamas agregação e comunidade é nem mais nem menos que geração de cultura, não te foi transcendente, o que descreveste no final, parece-me tão catártico quanto a tragédia grega! “…mas toda a arte é manipulação…” A arte não é manipulação! Acho que a música é um dos factores que te ajuda a proporcionar momentos de cinema, tal como escala e outros que tu deves saber bem melhor que eu. Só acho que a música dele te proporcionou o que precisavas, abraçou-te. Agora dizer que é ambiente de imagem parece-me discutível, se é para ti é porque fizeste um exercício de memória de algo que foi te exposto quando experienciaste a música e tornou os factos presentes, apesar de concordar que toda a arte seja uma experiência sinesteta e que todas têm correlação entre si. O facto da tua experiência ser válida ou não para mim é questão de crédito. Eu não sinto assim, para mim a música dele não é imagética, mas também, se duas pessoas pensassem da mesma maneira, quereria dizer que uma delas não pensava, por isso…
Eu acredito que tenhas conseguido “adivinhar” imagens ao ouvir a música. Tal também é possível a ouvir música clássica, nomeadamente Johann Sebastian Bach. Conseguimos não só adivinhar imagens como também espaços, e percorre-los. Criamos um ambiente imaginário de acordo com o que nos sugere a música. A imaginação e a memória são importantes nesse processo, é algo abstracto mas que sentimos como se fosse real.
Abraço!
Sérgio Correia