“Je vous salue, Sarajevo” (1993)
o enquadramento certo
Godard é um cineasta curioso e imensamente talentoso, mas difícil de compreender, e tantas vezes arrogante e autista. Isto arruina muito do que ele faz, mas ainda nos deixa algumas pérolas.
Esta é uma delas. Um exercício simples de manipulação visual, minimal nos recursos usados e tempo de extensão, mas magnificada no seu poder visual. Esta curta são 2 minutos de enquadramentos múltiplos de uma única fotografia. Cada enquadramento dá-nos uma realidade particular, e faz-nos compreender mundos dentro do mundo que, à medida que a curta avança, percebemos que é apenas uma imagem. Estes 2 minutos de Godard são mais analíticos e significativos do que muitos dos filmes de Wenders que tentam directamente analisar o que significa procurar os significados escondidos das imagens. Porque é que ele não foi tão sóbrio nos 20 anos antes deste filme?
Aqui, como em outros poucos filmes de Godard, fiquei tão impressionado com a forma como ele me manipulou, que perdoei o seu discurso habitual, um de teimosia e egotismo, disfarçado de puro humanitarismo. Não rejeito as intenções dele, só a atitude.
Outra questão se levanta aqui, e no trabalho de Godard ao longo dos anos 90′. Mais do que testar os limites do cinema, aqui ele questiona as suas definições. Baseado nas suas “histórias do cinema”, penso que ele empurra as suas próprias definições de cinema para o campo da pintura. No entanto, penso que ele se torna mais um criador de imagens e um manipulador. A pintura, no seu sentido cinematográfico, tem duas formas de ser compreendida: uma é pela luz/cor/composição, a outra é pela comunicação/manipulação visual. Welles/Toland, Conrad Hall, Gordon Willis. Esses eram pintores. Aqui Godard tenta a manipulação e percorre campos não tão explorados de narrativa cinematográfica.
A minha opinião: 4/5 vejam este.
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